Sob a sombra da tarde de dezembro

  • por Nilton Plum
  • 4 Anos atrás

21/06/86, meu avô decide que vai me presentear com a camisa 10 do Zico, da seleção brasileira. Ao irmos comprá-la, uma decepção: não havia mais camisas 10 pra serem vendidas. Tive que me contentar com a do Muller.

12/10/2014, passo na rua de mãos dadas com a minha filha, de 5 anos, rumo ao Maracanã para assistir a Flamengo x Cruzeiro, pela 28° rodada do campeonato brasileiro. Ao caminharmos até o metrô, cruzamos com alguns rubro-negros anônimos. Todos estão certos da vitória e não fazem questão de esconder isso. Com a campanha irregular que o Flamengo tem produzido, eu projetava um utópico “jogo perfeito” no qual minha filha pudesse ser levada pela primeira vez ao Maracanã.

21/08/2013 – Copa do Brasil. Em Minas, após dominar o jogo com direito a um gol antológico de Everton Ribeiro, o Cruzeiro, o melhor time do Brasil em campo, cede um gol ao Flamengo. O gol vem após uma pixotada de Dedé, ídolo vascaíno, pelos pés de Carlos Eduardo, jogador altamente contestado.

13/12/87, um silêncio opressor toma conta da minha rua. Jogam Flamengo x Internacional pela partida de volta da final da Copa União. É a final do campeonato brasileiro. O outro. Tenho sete anos.

Em 86, assisto com meu pai, botafoguense, Zico desperdiçar um penal no tempo normal de jogo. Joga fora a chance de eliminar as cobranças alternadas, terror de tudo que há no futebol. Meu pai está bastante nervoso. Eu ainda não entendo o porquê.

Meu avô, flamenguista, escuta, em 87, o jogo pelo rádio. A agônica narração provoca em mim um efeito angustiante. Não consigo ficar por perto. Não entendo. Vou para debaixo de uma goiabeira no quintal sob a sombra da tarde de dezembro. Estou muito nervoso e não entendo o motivo. Lembro de meu pai no ano anterior vendo o jogo da Seleção.

Em 2014, um amigo brinca com a minha filha: “Você pode guardar este ingresso para mostrar aos seus netos”. O Maracanã explode diante do gol contra do Cruzeiro. Dedé comete o crime. 42.171 pessoas testemunham. Muitas crianças no local, pois é o dia delas. Muitas delas, como minha filha, pela primeira vez no Maracanã.

No jogo de volta da Copa do Brasil, em 29/08/2013, aos 43 minutos do segundo tempo, número cabalístico para todo flamenguista, Elias recebe o passe de Paulinho e marca o gol que classifica e habilita o time para a trajetória que culminaria no tricampeonato da competição. O curso da bola de Elias faz uma curva e passa por Dedé. Ao olhar para trás e perceber o gol, ele morde, de raiva, sua própria camisa. Ele sabe o que está acontecendo ali.

Zico converte sua cobrança alternada nos penais em 87. Um alívio momentâneo toma conta de todos. Ilusão. Sócrates e Júlio César perdem seus penais. A França elimina o Brasil. Meu pai, botafoguense, chora. Apesar de não entender o motivo, eu choro junto com ele. Nunca tinha visto meu pai chorar.

Cáceres. Em 2014, ele ruge pra cima do jogador do Cruzeiro. Os dois tomam o amarelo de advertência. Cáceres joga no Flamengo achando estar no Paraguai. Ele defende Avaí de ser atacada pelo 5° regimento do Império. Trocara, uns dias atrás, 2 amistosos insossos pela sua seleção, da qual é capitão, para jogar esta partida. Ele e Canteros são os melhores em campo. Minha filha cochila nas cadeiras até o fim do intervalo. Acorda a tempo de ver Canteros marcar o segundo gol. Na comemoração, os jogadores o levantam como naqueles finais clichês de filme onde o herói é içado como uma bandeira depois de uma atuação perfeita. Olho para o lado e minha filha está fazendo com as mãos o símbolo de uma Torcida Organizada do Flamengo; todos ali nos arredores estão. Ela canta também e começa a perguntar se foi gol de 2 em 2 minutos. Ali, no meio da torcida, a felicidade é tamanha que parece que o gol é perpétuo. Ainda houve o 3° e derradeiro gol, embora a torcida gritasse olé e pedisse mais um. Muita gente se pergunta o motivo pelo qual se comemora tanto uma vitória de 3 pontos, afinal o Cruzeiro continua líder e provável campeão e o Flamengo continua carregando seu saco de cimento na 10° posição. Ora, era Dia das Crianças. Quem tem, em vida, a oportunidade de presenciar uma utopia convertida em realidade? O jogo perfeito.

Ainda embaixo da goiabeira de minha avó, eu ouço meu bairro explodir. Corro para dentro de casa, coração a mil. Passo pelo meu avô, ligo a TV a tempo dever o replay do gol de Bebeto. O gol que faria o Flamengo campeão e que fez de mim flamenguista.

Em 2014, no retorno de um passeio no Shopping e brincadeiras do parque, cruzamos com dezenas de anônimos. Alguns me cumprimentam com um acenar discreto de cabeça e um sorriso. Sensação de dever cumprido.

http://www.youtube.com/watch?v=–mGbeG-b8A

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