A vitoriosa gestão de Alexandre Kalil

Foto: Bruno Cantini/CAM - Kalil ajudou o Galo a ressurgir das cinzas

Foto: Bruno Cantini/CAM – Kalil ajudou o Galo a ressurgir das cinzas

“O tempo está passando muito rápido.” Quantas vezes não nos deparamos com essa afirmação em nosso cotidiano? E é justamente isso que deve estar passando pela cabeça do torcedor do Atlético neste momento. O porquê? O final do segundo mandato de Alexandre Kalil, presidente responsável por devolver ao clube mineiro o orgulho e a competitividade e por colocá-lo no lugar de onde foi saindo de fininho nas gestões de Ricardo Guimarães e Ziza Valadares, se aproxima.

O ano de 2008, centenário do Galo, anunciava mais um fracasso. Esperando glórias, o torcedor alvinegro teve de se contentar com um final de Campeonato Brasileiro minimamente digno sob a batuta de Marcelo Oliveira (sim, o atual comandante do Cruzeiro) e uma memorável vitória contra o rival Flamengo, calando mais de 81.000 torcedores rubro-negros com show do boliviano José Alfredo Castillo, de Renan Oliveira e do volante Serginho. Apesar disso, em 18 de setembro daquele ano, Ziza Valadares não suportou as pressões do torcedor e da imprensa e renunciou.

Em 30 de outubro do mesmo ano, com 271 votos de 402, Alexandre Kalil, sob os coros de “ÔÔÔ… o Kalil voltou!”, assumiu a presidência do clube, como seu pai, Elias Kalil, o fizera na década de 80. O “Turco”, como sempre foi chamado, representava naquele momento a última lufada de ar para o torcedor alvinegro, que, já descrente, achava difícil uma saída do lamaçal em que o clube havia se atolado. E, de cara, polêmico que é, apostou na saída de Marcelo Oliveira, que havia estabilizado o time e o livrado dos perigos de um novo rebaixamento. Para 2009, chegou Emerson Leão.

Ídolo do clube em função de suas passagens anteriores, Leão chegou com cartaz. Com ele, veio um atleta fundamental para o renascimento do Atlético: Diego Tardelli. Porém, desde o início, houve dificuldades.

#89067791 / gettyimages.com I Razoável para o Galo, 2009 foi excelente para Diego Tardelli

Em formação, o Galo perdeu o primeiro jogo da temporada para o rival Cruzeiro, no Torneio de Verão, que envolveu os uruguaios Nacional e Peñarol. Uma acachapante goleada da Raposa na final do Campeonato Mineiro selou o fraco início de ano do time, que ainda foi eliminado da Copa do Brasil nos pênaltis para o Vitória, já sob o comando de Celso Roth, contratado sob protestos do torcedor. No Brasileirão, apesar da bela campanha e de ter permanecido na liderança por muitas rodadas, terminou na insossa sétima colocação, mas com a artilharia de Diego Tardelli.

Fora dos campos, 2009 significou o fechamento do setor de marketing do clube e a breve passagem de Bebeto de Freitas (que já havia feito parceria com Kalil entre 1999 e 2001, quando o mandatário alvinegro era presidente do Conselho do clube), na condição de diretor-executivo. No ano seguinte, o Galo traria de volta outro velho conhecido do clube e do presidente, Eduardo Maluf, ex-diretor de futebol do Cruzeiro.

Irritado com a queda de rendimento do time na fase final do Campeonato Brasileiro de 2009, Kalil trocou Roth por Vanderlei Luxemburgo, recepcionado com pompa e circunstância. O início até foi animador. Com a sintonia da dupla Obina e Diego Tardelli, o time conquistou o Campeonato Mineiro e viu o ídolo Marques se aposentar, após marcar um dos gols do título estadual. Contudo, a eliminação na Copa do Brasil para o Santos e a péssima campanha no Brasileirão bastaram para Luxa ser substituído por Dorival Jr. Nesse meio tempo, vários jogadores de invejável currículo desembarcaram na cidade do Galo (dentre eles, Diego Souza, Daniel Carvalho, Fábio Costa e E. Méndez).

#107051216 / gettyimages.com I Diego Souza foi um dos erros de Kalil

Outra questão de grande relevo que ocorreu neste interregno foi o fechamento do Mineirão para as reformas e a mudança de Galo e Raposa para a Arena do Jacaré, em Sete Lagoas.

A recuperação no final do Campeonato com as emocionantes vitórias contra Cruzeiro (4×3) e Flamengo (4×1) foram o alento de fim de ano para o torcedor. A gestão de Kalil não ia nada bem, mas o torcedor reconhecia: o clube tinha voltado a pensar grande.

Chegou 2011 e, pela primeira vez na “gestão Kalil”, um treinador foi mantido na virada do ano. Tendo sido importantíssimo para salvar o Atlético do rebaixamento, Dorival Jr. Permaneceu – todavia, não por muito tempo. Derrotado pelo Cruzeiro na final do Campeonato Mineiro, desta vez com placar apertado (3×2 no agregado), o time viu alguns garotos aparecerem assumindo bom papel à época (casos de Fillipe Soutto, Giovanni Augusto e, com menos chances, Bernard) e também contou com o início da parceria entre Réver e Leonardo Silva, que ficaria conhecida como “as torres gêmeas”. Na contramão, o torcedor viu Diego Tardelli partir para a Rússia, não sem antes marcar um hat-trick contra o Cruzeiro.[youtube id=”qlFPqaKVtAk” width=”620″ height=”360″]

Apesar disso, os maus resultados no Brasileirão e na Copa do Brasil, com a eliminação para o Grêmio Prudente, levaram Kalil a trocar Dorival por Cuca, que também teve início extremamente fraco e um final de ano traumático, com a derrota por 6×1 para o Cruzeiro. No entanto, o fato de ter salvado o clube do rebaixamento foi suficiente para sua manutenção.

2011 também ficou marcado pelos “presentes” que Kalil deu para a torcida. Dois jogadores mais caros da história do Atlético, Guilherme e André desembarcaram na Cidade do Galo naquele ano. De início, o primeiro sofreu com a má forma física e as lesões, o segundo, por sua vez, até marcou seus gols, mas jamais conseguiu convencer o torcedor atleticano.

Apostando na base e com reforços pontuais – dentre eles, o retorno de empréstimo de Marcos Rocha – o Galo viveu uma primeira metade de ano tensa. Com o 6×1 pairando no ar, nem o título estadual, contra o América, arrefeceu os ânimos do torcedor, que viu o time ser eliminado da Copa do Brasil pelo Goiás. Todavia, com um belo início de Brasileirão e com contratações-chave para a história do Galo, sobretudo as de Ronaldinho Gaúcho, Victor e (que hoje vive momento horrível, mas cuja importância não pode ser negada), o alvinegro brigou nas cabeças no Campeonato e, ao final, batendo o Cruzeiro, assegurou o vice-campeonato e seu retorno à Copa Libertadores da América. Esse ano também mostrou ao país o enorme potencial do garoto Bernard.

Não se pode deixar de dizer que 2012 representou o retorno do Atlético a BH, com o fim da reforma do Independência, que, rapidamente, se transformou em um caldeirão e consagrou o bordão: “Caiu, no Horto, tá morto!”.

Veio 2013, um ano glorioso para o Atlético. Ainda sob a batuta de Cuca, após um longo namoro, Diego Tardelli retornou para o clube de onde nunca devia ter saído. Seu encaixe imediato (tendo estreado contra o São Paulo na Copa Libertadores, pouco após chegar em BH), colocou o time em sintonia fina. Velocíssimo e inteligente, o time conquistou o Mineiro e a Copa Libertadores da América; viu Victor virar Santo e Leonardo Silva herói; aumentou a idolatria do torcedor em Diego Tardelli e R10. Contudo, o brilhante time de Cuca viveu segundo semestre letárgico e protagonizou um vexame no Mundial de Clubes.

#169691499 / gettyimages.com I Na Libertadores de 2013, Victor virou São Victor

Nos bastidores, aparentemente, a saída de Cuca para o Futebol Chinês já era de conhecimento público dos envolvidos na estrutura alvinegra, o que teria tido reflexo negativo na postura dos jogadores. Além disso, a perda de Bernard para o futebol ucraniano nunca foi suprida por Fernandinho, que até viveu bons momentos, mas não conseguiu fazer o time jogar como com seu antecessor. Entretanto, o ano de 2013, que revelou ao torcedor a luta e dedicação de Luan, o “doidinho” do Galo, foi extremamente positivo. Ponto para Kalil, que, em 2011, não abriu mão do projeto de Cuca e colheu os mais maduros frutos.

Por fim, chegamos a 2014, último ano do dirigente na presidência do Atlético. Sabendo que uma transição viria, afinal a troca no comando foi necessária, Kalil fez uma escolha nada apreciada pela torcida e que se revelou ruim. Para o lugar de Cuca, chegou Paulo Autuori. Sem a pulsação do antigo comandante, e com estilo frio e passivo, desconstruiu a forma de jogar do time, que passou a desempenhar um moroso, pouco objetivo e entediante estilo de jogo. O resultado? As perdas do Campeonato Mineiro e a eliminação da Copa Libertadores da América.

Desempenho do time na era kalil (com mais dois jogos por disputar) | Create infographics

Contudo, o presidente percebeu rapidamente que uma mudança era necessária e, antes da partida de volta contra o Atlético Nacional (que culminaria com a eliminação do time na Copa Libertadores da América), contratou um velho conhecido do torcedor alvinegro. Após sete anos no futebol japonês, Levir Culpi voltou ao time que já havia treinado em outras três ocasiões. E seu início não foi fácil, com derrotas. No entanto, a partir da vitória contra o rival Cruzeiro, as coisas começaram a melhorar, o time ganhou corpo e, mesmo com muitos desfalques, aos poucos se revelou, novamente, um dos melhores do país.

Neste último semestre da gestão Kalil, o time voltou a jogar futebol rápido e vistoso e foi coroado com os títulos da Recopa Sul-Americana e da Copa do Brasil, ambos à moda alvinegra, com muita emoção.

#459625690 / gettyimages.com I Levir Culpi foi a grande cartada de Kalil em 2014

Alexandre Kalil tem inúmeros defeitos e cometeu também incontáveis erros, mas, diferentemente de seus antecessores, pensou grande. Quando pegou o time, o Galo nada mais era do que um costumeiro frequentador da zona de rebaixamento. Agora, em fim de mandato, deixa um legado que nenhum outro presidente conseguiu.

Muitas foram as dificuldades, e, por vezes, os salários chegaram a atrasar. Entretanto, detentor de uma palavra firme, sempre honrou seus compromissos, de forma que, mesmo com problemas, os jogadores e comissão técnica não perderam a confiança nas promessas do presidente. Ao fim de seis anos, já se pode afirmar: Kalil é o mais vitorioso e, possivelmente, o mais importante dirigente da história do Atlético Mineiro. Permanecer nesta senda de sucessos é agora missão para Daniel Nepomuceno, seu antigo vice.

Foto: Bruno Cantini/CAM - Daniel Nepomuceno tem a tarefa de continuar conduzindo o Galo

Foto: Bruno Cantini/CAM – Daniel Nepomuceno tem a tarefa de continuar conduzindo o Galo

Números de Alexandre Kalil:

Mandatos: dois (2009-2011; 2012-2014)

Número de treinadores: 7 (Emerson Leão-2009; Celso Roth-2009; Vanderlei Luxemburgo-2010; Dorival Júnior 2010-2011; Cuca 2011-2013; Paulo Autuori-2014; Levir Culpi-2014)

#174372849 / gettyimages.com I O trabalho de Cuca foi vital para a evolução do Atlético

Número de contratações: 103

2009: Júnior Carioca, Carlos Alberto, Lopes, Júnior, Diego Tardelli, Renan, Carlos Júnior, Alessandro, Mariano Trípodi, Fabiano, Elder Granja, Hugo, Jonílson, Júlio César, Evandro, Aranha, Alex Bruno, Wellington Saci, Rentería, Pedro Oldoni, Coelho, Côrrea, Jorge Luiz, Benítez, Carini e Ricardinho.

2010: Leandro, Jairo Campos, Muriqui, Obina, Cáceres, Zé Luís, Marcelo, Nikão, Ricardo Bueno, Diego Macedo, Neto Berola, Lima, Daniel Carvalho, Fábio Costa, Fernandinho, Diego Souza, Edíson Mendez, Réver, Jheimy, Jackson, Joédson, Alê e Rafael Cruz.

2011: Patric, Toró, Richarlyson, Magno Alves, Wesley, Jóbson, Leonardo Silva, Giovanni, Mancini, Lee, Luiz Eduardo, Guilherme Santos, Guilherme, Dudu Cearense, Marquinhos Cambalhota, Gilberto, Jônatas Obina, Caio, André, Pierre, Triguinho, Didira e Carlos César.

2012: Leandro Donizete, Danilinho, Escudero, Rafael Marques, , Junior César, Juninho, Ronaldinho, Victor, Michel e Leonardo.

2013: Gilberto Silva, Rosinei, Alecsandro, Araújo, Luan, Morais, Josué, Dátolo, Fernandinho e Emerson.

2014: Claudinei, Pedro Botelho, Otamendi, Edcarlos, Emerson Conceição, Tiago, Douglas Santos, Rafael Carioca, Maicosuel e Cesinha.

* Em negrito os atletas que seguem no clube.

#452581012 / gettyimages.com I Tardelli e R10 escreveram seus nomes na história do Galo

Desempenho: 391 jogos (com mais dois por disputar); 197 vitórias; 106 derrotas; 88 empates.

Títulos: Tricampeão Mineiro (2010, 2012 e 2013); Copa Libertadores da América (2013); Recopa Sul-Americana (2014); Copa do Brasil (2014).

Marcas do Presidente:

– O uso do Twitter para o anúncio de contratações, levantar polêmicas e se pronunciar sobre as mais diversas situações;

Declarações polêmicas: “se eles (jogadores) tomarem um cacete na madrugada não vai fazer mal nenhum” (quando o Atlético viveu péssima fase em 2010); “Mais gostosa que mulher” (falando sobre a Copa Libertadores da América de 2013); “Que bobagem, uma babaca feia pra caralho chamando um atleta de macaco. Puta que pariu, como ela é feia!” (Sobre o caso de racismo envolvendo o goleiro Aranha em 2014).

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.