DPF Entrevista: Alex, um filósofo da bola

  • por Rogério Júnior
  • 6 Anos atrás

Uma rotina abarrotada de compromissos envolvendo a bola. Este é o dia a dia de Alex, jogador que rodou o mundo e voltou ao seu lar, ainda em 2013, e que está prestes a pendurar as chuteiras. A data e o local para o adeus às canchas já estão devidamente anotados na cabeça do maestro alviverde: 08 de dezembro de 2014, Major Antônio Couto Pereira.

Para arranjar tempo para esta entrevista especial para a Doentes por Futebol, driblou a rotina que o acompanha há quase 20 anos. Pelo whatsapp, aplicativo de troca de mensagens instantâneas, se dispôs a conversar, mas as seguidas viagens do Coritiba no Campeonato Brasileiro barraram a possibilidade do encontro. Solícito, como foi durante toda a carreira, arranjou tempo livre em meio à concentração num hotel em Salvador, onde o clube de seu coração enfrentou o Vitória, nesta quarta-feira (19), e respondeu a tudo que lhe foi perguntado.

Arte: Doentes por Futebol | No Coritiba, Alex conquistou tudo: satisfação, dinheiro, fama e família.

No Coritiba, Alex não conquistou apenas dinheiro e fama. O clube que Alex aprendeu a amar ainda em sua infância humilde na cidade de Colombo, região metropolitana de Curitiba, disponibilizou algo eterno e infindável para o meio campista: família. O jogador conheceu Daiane Mauad, filha de um dos grandes diretores da história do clube e com quem teve três filhos, logo quando iniciou sua caminhada no Alto da Glória. “Não tem como separar a minha vida, tanto profissional quanto pessoal, da ligação com o Coritiba. Isso é inegável”, atesta.

Influenciado pelos pais, que sempre tiveram apreço pela bola, Alex começou a desenhar o seu caminho de jogador de futebol num campinho de terra próximo a sua casa e logo foi descoberto por um olheiro que o colocou na AABB (Associação Atlética do Banco do Brasil), equipe de futebol salão de Curitiba.

O processo dali até a estreia profissional pelo Coritiba, em abril de 1995, foi considerado “normal” para Alex. “Estive em 1987 no Coritiba fazendo uma peneira e dali o clube me levou para os campos de futsal. Segui normalmente nas divisões de base até chegar o momento da estreia”, explica.

Do Coritiba para o mundo. Além de todo o histórico emocional e de toda a idolatria da torcida coxa-branca, Alex é considerado uma espécie de Deus para outros três clubes: Cruzeiro, Palmeiras e Fenerbahçe. Estas honrarias, segundo o jogador, não foram obras do destino. “O meu futuro estava bem desenhado. É claro que tinham vários fatores que poderiam alterá-lo, mas eu tinha por objetivo me firmar no Coritiba, depois colocar o clube na primeira divisão e a partir daí seguir uma sequência natural na carreira, sabendo que várias mudanças podiam acontecer. Mas no meu pensamento, naquilo que eu imaginava, o futuro era bem alinhado”.

Fora de moda

Arte: Doentes por Futebol | Esclarecido, Alex traça um paralelo entre sociedade e futebol e diz que o esporte deve colher os frutos daquilo que a sociedade produzir.

Alex é considerado um jogador que foge do padrão habitual dos boleiros. Esclarecido, culto, inteligente e muito bem colocado diante de todos os contextos da sociedade, atua como o perfil oposto do estereótipo da maioria dos atletas de futebol.

O gosto pela leitura apareceu logo cedo, ainda em 1995, no Coritiba. “O gosto [pelos livros] veio ao acaso. Ganhei um livro de um torcedor no primeiro ano de clube e comecei a ler. O Ademir Alcântara, que era veterano e meu companheiro de quarto na época, me disse que eu teria muito tempo nas concentrações para ler e realmente tive”, disse. A responsabilidade social e a preocupação com todos os fatores que cercam a sociedade são, segundo Alex, resquícios desta paixão pelos livros.

O dinheiro exorbitante que cerca o mundo da bola é um dos fatores que fazem com que os boleiros não tenham preocupações sociais, de acordo com Alex. “O Brasil tem uma educação precária e o futebol está inserido nisso. Acredito que quanto mais conhecimento o atleta tiver, para condução da vida dele num sentido geral, melhor”. “Os clubes de futebol também devem ter preocupações neste sentido para termos a possibilidade de formarmos atletas de um perfil um pouco diferente”, reforça.

Há quem diga que o futebol é o retrato da sociedade. A frase é do jornalista Tim Vickery e, sobre ela, Alex demonstra uma reflexão bastante filosófica no que se refere à relação entre esses dois componentes. “A sociedade tem que sofrer uma alteração e fornecer uma educação melhor, que a partir daí o futebol, por estar inserido nisso, também pode melhorar. O futebol, inserido nesta situação, tem que colher os lucros em cima daquilo que a sociedade vier a fazer.”

Sobre sonhos, Alex os divide em duas classificações: vida e futebol. Quanto à sua carreira pessoal, diz que sempre há algo novo para conquistar. “Tenho apenas 37 anos, muito tempo pra viver e muita coisa pra fazer. Espero ter saúde suficiente para correr atrás de tudo aquilo que eu e minha família imaginarmos.”

Quanto à bola, objeto do qual correu atrás durante toda a sua vida, é cirúrgico. “No futebol, não tenho mais tempo pra sonhar. Faltam 20 dias para acabar a minha carreira de futebol, como atleta profissional, e acredito que boa parte daquilo que projetei no início aconteceu. Termino de uma maneira satisfeita.”

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Curitibano, jornalista, 24 anos. Apaixonado pela bola, apegado pelas canchas e admirador do povão que as frequentam. Apreciador do futebol, seja ele jogado na final da Copa do Mundo ou numa singela rodada da terceirona gaúcha.