Mata-mata, o auge do futebol

  • por João Rabay
  • 5 Anos atrás

A quarta-feira foi um dia de celebração do futebol no Brasil.

A final da Copa do Brasil, no Mineirão, entre os rivais Atlético e Cruzeiro, e o duelo entre São Paulo e Atlético Nacional pela semifinal da Copa Sul-Americana afloraram emoções e lembraram do que se trata o futebol.

Há, em uma final, algo que simplesmente não existe nos 380 jogos das 38 rodadas de um campeonato de pontos corridos como o Brasileirão. É difícil descrever com palavras. A melhor que ocorre é clima. “Clima de final.”

A ansiedade para que o jogo chegue logo, a recepção dos torcedores aos ônibus dos dois times, o estádio lotado (ou quase, né, Minas Arena?), a tensão entre os jogadores, os empurrões, o nervosismo que às vezes até atrapalha a qualidade técnica, mas que tem que estar presente na decisão.
Aliás, lembra como os veículos jornalísticos falam dos poucos jogos do Brasileirão de pontos corridos que fazem o campeonato valer a pena? Jogo com “clima de final”.

Mas final é final. E pontos corridos não tem final.

Por quanto tempo os atleticanos e tantos outros doentes por futebol lembrarão-se do 26 de novembro de 2014, quando o Galo derrotou o Cruzeiro e ganhou a Copa do Brasil? A catarse de um gol do título não tem comparação.

Finais ficam para sempre, e fazem o país parar para vê-las. Santos x Corinthians em 2002, Grêmio x Portuguesa em 96, Corinthians x Palmeiras em 94, Flamengo x Botafogo em 92…

E por quanto tempo vamos lembrar daquele super jogão incrível da 36ª rodada do Brasileiro? E daquele clássico empolgante na 28ª rodada que foi fundamental para a classificação final?

Quantos torcedores são paulinos serão capazes de apontar os adversários tricolores nos jogos dos títulos de 2006, 2007 e 2008?

É uma grande mentira dizer que nos pontos corridos todo jogo é importante. É tão verdadeiro dizer isso quanto dizer que nenhum é.

Defensores dos pontos corridos (sim, eles existem!) gostam de argumentar que o formato é mais justo e faz com que o melhor time vença.

Não sei vocês, mas para mim, se o melhor time não é capaz de crescer na hora decisiva e mostrar que é tudo isso mesmo, então ele não é o melhor. Cojones, meus caros. Ser o mais técnico não adianta nada sem os colhões para colocar na mesa na hora da decisão.

O São Paulo de 2002 liderou toda a primeira fase, mas nas quartas de final foi atropelado por um Santos talentoso, cheio de jovens, que se classificara em oitavo. Depois de bater o rival, a equipe, comandada por astros de 17 e 18 anos (Diego e Robinho), passou pelo Grêmio e pelo Corinthians para acabar com um jejum de 18 anos sem grandes títulos.

Uma história épica, que nos pontos corridos terminaria mais ou menos assim: O São Paulo foi campeão com três rodadas de antecedência, e o Santos terminou em oitavo, garantindo uma bela posição no meio da tabela.

Há também outro argumento recorrente pelos pontos corridos: na Europa é assim e funciona.

Sim, funciona bem demais com o Barcelona e o Real Madrid, ou o Manchester United e o Liverpool (ou, graças aos milhões de investidores, Chelsea e Manchester City), se revezando entre os campeões.

Considerando apenas desde 1971, o Brasileirão teve 16 campeões diferentes. No mesmo período, o Campeonato Espanhol foi vencido por sete clubes. Já o Campeonato Italiano teve nove.

Será que um torcedor do Villareal ou da Udinese não gostaria de ver seus times com a chance de, em um ano inspirado, vencer batalhas contra os gigantes e se tornar campeão? Nos pontos corridos, essas batalhas perdem o significado.

Qual a chance de Bahia, Guarani ou Coritiba repetirem os feitos do passado e voltarem a levantar o troféu do campeonato mais importante do Brasil se ele for disputado num modelo em que só os clubes mais ricos podem ganhar?

Os clubes mais ricos ganham mais dinheiro porque brigam mais por títulos e aparecem mais na mídia. E eles brigam mais por títulos porque têm mais dinheiro. Ganhar na raça, mesmo com orçamento bem menor? Praticamente impossível nos pontos corridos.

Mas vou concordar com quem prefere esse modelo que torna 38 semanas de futebol chatas: se para o mata-mata já tem Libertadores, Estaduais, Copa do Brasil, qual o problema de termos um, só um campeonato longo e tedioso?

Comentários

Jornalista. Doente por futebol bem jogado e inimigo de jogadores que desistem da bola para cavar falta e de atacantes "úteis porque marcam os laterais".