Não foi só coração

  • por Lucas Sousa
  • 6 Anos atrás

O Atlético ergueu pela primeira vez a Copa do Brasil de maneira incontestável. Duas vitórias categóricas sobre o maior rival, e bicampeão brasileiro, selaram mais um título que ficará marcado na memória de toda a torcida alvinegra. Não faltou empenho, raça e dedicação ao time de Levir Culpi, mas o dedo do treinador fez toda a diferença na campanha. Nos seis jogos da reta final, o time só não beirou a perfeição taticamente nos dois confrontos fora de Belo Horizonte.

Contra o Corinthians, Levir armou o Galo num 4-4-2 com Dátolo ao lado do volante Leandro Donizete, Carlos e Luan abertos, Diego Tardelli e Guilherme na frente. Se o Corinthians, com uma grande vantagem no placar, se fecha com suas linhas muito próximas à entrada da área, a solução é jogar fora dela. E foi isso que Guilherme fez. O camisa 17 não se enfiou na área como um atacante, mas se movimentou como o principal articulador do ataque mineiro, buscando o jogo fora dos espaços ocupados pelos corintianos e, provavelmente, fez sua melhor partida na temporada.

Foto: Reprodução - Guilherme recua para encontrar espaço e comandar o ataque do Galo

Foto: Reprodução – Guilherme recua para encontrar espaço e comandar o ataque do Galo

Note como o Corinthians está trancado no lance do primeiro gol – até Paolo Guerrero está atrás da bola. Inteligentemente, Guilherme sai da confusão e busca a bola fora da marcação para fazer um belo lançamento para o gol de Luan.

No gol da virada, a jogada pela direita se desenhava como um cruzamento de Marcos Rocha. Para cortar o cruzamento que não aconteceria, a defesa corintiana afunda, deixando um grande espaço na entrada da área. Espaço este que seria aproveitado por Guilherme, que, vindo de trás, recebeu sozinho o passe de Dátolo para concluir em gol.

Foto: Reprodução - Vindo de trás, Guilherme encontra espaço para finalizar

Foto: Reprodução – Vindo de trás, Guilherme acha espaço para finalizar

Na segunda virada, o Galo não poderia contar com o contundido Guilherme. Levir repetiu o esquema tático, manteve Dátolo ao lado do volante para garantir uma boa saída de bola, abriu Luan e Maicosuel e deixou Tardelli e Carlos mais à frente. A situação era ainda mais complicada, já que o gol do Flamengo saíra aos 33 minutos – a essa altura, contra o Corinthians, o Atlético já vencia por 2 a 1. Os comandados de Levir precisavam marcar o mais rápido possível e conseguiram por causa da blitz do ataque alvinegro.

O time atleticano começou a engolir a defesa rubro-negra, mandando muito jogadores para dentro da área adversária e deixando a marcação perdida. No gol de empate, são quatro flamenguistas contra cinco atleticanos – entre eles, os zagueiros Leonardo Silva e Jemerson – aguardando o cruzamento de Douglas Santos.

Foto: Reprodução - No empate, vantagem numérica do Galo na área rubro-negra

Foto: Reprodução – No empate, vantagem numérica do Atlético na área rubro-negra

No lance que originaria o segundo gol, Luan parte com a bola dominada em direção ao gol. Neste momento, todos os jogadores de frente do Atlético estão dentro da área. São quatro atacando contra três defendendo. Mais uma jogada de superioridade numérica preta e branca que resultaria em gol.

Foto: Reprodução - Atacantes atleticanos ocupam a área flamenguista e criam outra situação de superioridade numérica

Foto: Reprodução – Luan, Maicosuel, Carlos e Tardelli invadem a área flamenguista

Contra o Cruzeiro, o Atlético foi melhor nas duas partidas porque soube anular as qualidades da equipe de Marcelo Oliveira, um time veloz, que chega ao ataque com passes rápidos e envolventes. A chave para o Galo vencer era não deixar Éverton Ribeiro, Ricardo Goulart e William terem oportunidades para trocar passes em velocidade e, muito menos, espaço para criar. Mas para a bola chegar até eles, precisa passar pelos volantes. Henrique e, principalmente, Lucas Silva têm ótima saída de bola e qualidade no passe, são os responsáveis em fazer a bola chegar redonda até o trio ofensivo. Melhor do que correr atrás de Éverton, Goulart e William é ir direto à fonte: os volantes.

O Galo pressionou a saída de bola celeste, não deu trégua para Lucas e Henrique construírem e, consequentemente, tirou o tridente de ataque do jogo. Se a bola não chegava com qualidade até os meias, o atacante Marcelo Moreno ficou ainda mais sumido. No lance abaixo, Lucas Silva e Henrique são acompanhados de perto, Tardelli vigia a saída com Samudio pela esquerda e Luan pressiona Bruno Rodrigo, obrigado a lançar a bola ao ataque.

Foto: Reprodução - Jogadores do Atlético bloqueiam a saída de bola cruzeirense e força a ligação direta

Foto: Reprodução – Jogadores do Atlético bloqueiam a saída de bola cruzeirense e força a ligação direta

No Mineirão, Levir manteve a pressão na saída de bola e Marcelo Oliveira mudou o time. Trocou Lucas Silva por Nilton, talvez para ganhar mais imposição física no meio-campo e aproveitar o gramado escorregadio para tentar chutes fortes de longa distância, mas perdia qualidade de passe e uma saída confiável. E justamente em cima de Nilton, Marcos Rocha roubou a bola e só não marcou porque Fábio saiu muito bem.

Foto: Reprodução - Com Nilton, Cruzeiro perdeu qualidade na saída de bola

Foto: Reprodução – Com Nilton, Cruzeiro perdeu qualidade na saída de bola

Mais uma vez o Galo consegue um título histórico. Méritos para os jogadores, que se entregaram dentro de campo. Méritos para a torcida, que empurrou o time a todo momento e sempre acreditou. E méritos para Levir Culpi, que transformou o Atlético apático da (curta) era Paulo Autori em uma equipe envolvente, que ataca e consegue a vitória. Na campanha do alvinegro das Minas Gerais na Copa do Brasil teve técnica, teve vontade, teve emoção e teve tática. O título do Galo não foi só no coração.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.