O erro da UEFA na questão dos Bálcãs

CAPA BANDEIRAS

No dia 12 de Novembro de 1967, as arquibancadas do Partizan Stadium vibravam. Trinta mil espectadores assistiam a um jovem natural de Belgrado, que com apenas 21 anos se sentia em casa: Dragan Dzajic, considerado um dos maiores jogadores iugoslavos da história, ajudou na vitória da Iugoslávia sobre a Albânia pelas eliminatórias da Eurocopa de 68. Com dois gols de Edin Spreco, Ivica Osim (bósnios) e Vojin Lazarevic (montenegrino), a ex-república derrotou os albaneses por 4×0. Um ano depois, aquela magnífica geração iugoslava chegaria à final da Eurocopa de 68, contra a Itália. Quanto à equipe albanesa, não ficaria nem perto da classificação à competição europeia – como é de praxe, já que nunca disputou sequer uma Eurocopa.

Os ventos do longínquo ano de 1967 não sopravam nenhum indício dos anos de terror que acompanhariam a Iugoslávia e os Bálcãs nas décadas seguintes. Como já coloquei em outros textos, os conflitos étnicos na península têm séculos de história, devendo aqui ressaltar as guerras balcânicas que antecederam a 1ª Guerra Mundial, com a anexação do Kosovo por parte dos sérvios, região que era e é de maioria étnica albanesa. No entanto, à época, a diplomacia regida de maneira exemplar por Josip Tito garantia uma situação mais calma – o país era administrado de forma relativamente harmônica pelo grande símbolo político da Iugoslávia, que não imaginaria, nem em seus piores sonhos, a maré de governantes xenófobos, genocídios e guerras que assolariam a nação outrora tão próspera.

Em um ambiente estável, com um futebol florescente e alegre (que levaria alguns a compararem o capital futebolístico iugoslavo ao brasileiro), a Iugoslávia goleou a Albânia.

Esta, meus caros, havia sido a última vez que a seleção da Albânia havia pisado em canchas sérvias. Com a queda da Iugoslávia, as guerras na Croácia, Bósnia e, por fim, Kosovo pintariam de vermelho a década de 1990 nos Bálcãs, marcando também uma decadência no futebol sérvio e de toda região (com a justa exceção ao desempenho croata na copa de 98). Em 2008, o Kosovo, região que pertenceu à Sérvia desde a década de 1910, se autodeclarou independente, ação que até hoje é ignorada pelos governantes sérvios. O Kosovo, desde então, teve a Albânia como aliado político importantíssimo.

Tanto na Albânia quanto no Kosovo (e outras regiões que possuem população de etnia albanesa, como no noroeste da Macedônia), a ideia da Grande Albânia povoa o imaginário de governantes e cidadãos: um país integrando e reunindo todas as pessoas de origem albanesa que foram espalhadas pelos Bálcãs por parte das guerras e migrações. Tal utopia não está longe de ser alcançada, pelo menos na seleção albanesa: dos 23 jogadores convocados para o jogo contra a Sérvia, sete nasceram no Kosovo e, destes, quatro foram titulares, incluindo o capitão, Lorik Cana.

Os sérvios rejeitam fortemente a ideia da perda do Kosovo, ainda que ela se faça muito real devido às exigências da União Europeia para aceitação do país ortodoxo na comunidade. Tal perda já está praticamente consagrada: os kosovares já possuem um próprio governo e têm obtido cada vez mais reconhecimento internacional em relação à sua independência.

>>Leia mais: Shaqiri e a bandeira suíço-kosovar<<

Como dito anteriormente, o dia 12 de novembro de 1967 havia sido a última partida jogada pelos albaneses em Belgrado, até o dia 14 de outubro de 2014, quando as duas seleções voltaram a se encontrar, novamente pelas eliminatórias da Eurocopa, com um contexto absurdamente diferente àquele da década de 60.

Ainda que os torcedores do Partizan e do Estrela Vermelha tenham uma das rivalidades mais fortes do mundo, suas opiniões, frequentemente extremistas, convergem em um fator: o tema do Kosovo. Em praticamente todos os jogos desses clubes é possível observar alguma faixa com os dizeres – no alfabeto cirílico ou romano – “KOSOVO JE SRBIJA” (“O Kosovo é Sérvia”), uma frase que está presente desde o senso-comum sérvio até declarações de celebridades, esportistas de elite e governantes. O estádio de futebol aparece como palco para as atitudes xenófobas de parte da sociedade sérvia – bem ensaiadas no dia-a-dia – por exemplo, os jogadores albaneses foram recebidos com o cântico “ubi ubi šiptara” (“matem, matem os albaneses”)¹.

No âmbito do esporte, o Kosovo tem buscado reconhecimento por parte da UEFA, FIFA e do COI (Comitê Olímpico Internacional) e tem conquistado pouco a pouco alguns direitos: mesmo com forte oposição da Federação Sérvia, o Kosovo disputou seu primeiro amistoso oficial em março desse ano (relatamos esse episódio no artigo “Nós somos Kosovo”). A UEFA apareceu, nesse episódio, muito mais interessada no discurso da Federação Sérvia do que nas tratativas kosovares – tanto é que havia feito um acordo com a Federação Kosovar, mas recuou dias depois após represálias dos sérvios e mesmo quando permitiu a disputa de amistosos, proibiu a utilização de símbolos nacionais.

PLATINI OMISSO

Foto: Reprodução Doentes por Futebol | Platini e a omissão da UEFA frente a causas sociais.

E é neste ponto que levantamos a importância que a UEFA tem, mas evita ter: o futebol como mecanismo de avanço nas causas sociais. Tal premissa é rejeitada por Michel Platini, que mais de uma vez deu a entender que “política e futebol não deveriam se misturar”. Ora, a política, no que concerne às preocupações sociais, permeia todos os espaços, o que não é diferente com o caso do futebol. A recíproca também é verdadeira, basta ver as consequências que episódios futebolísticos tiveram na história política do mundo e dos Bálcãs: além do evento recente, diversos historiadores situam um clássico entre Estrela Vermelha e Dinamo Zagreb como o estopim para a queda da Iugoslávia, sem falar do aparelhamento da própria torcida do time sérvio para fins militares na guerra contra a Bósnia. Assim, é ingênuo pensar que os dois campos podem ser separados, como se fossem água e óleo, quando na verdade se complementam e se permeiam mutuamente. Ao negar esse caráter, a UEFA, além de ser ingênua, presta um desserviço às lutas de reconhecimento e pelos direitos humanos que estão sendo levantadas pelos diferentes povos do globo.

>> Leia mais: Nós somos Kosovo!<<

A UEFA possui uma longa lista de erros no que concerne as decisões envolvendo o Kosovo e os Bálcãs, mas nada poderia igualar o que estaria por vir. A organização do futebol europeu teve o correto cuidado em separar nações com relações diplomáticas complicadas, caso de Gibraltar e Espanha, Ucrânia e Rússia, mas pecou ao permitir que Albânia e Sérvia dividissem o mesmo grupo. Tendo cometido tal erro, decretou que a partida em Belgrado contaria apenas com a torcida sérvia, uma medida paliativa que mostrava que a UEFA estava ciente dos perigos que envolviam esse embate. Antes da partida, o clima de guerra era mais abominável do que as típicas provocações pré-jogo: o ônibus que transportava os albaneses foi apedrejado, e até o presidente da Federação Albanesa de Futebol, Armand Duka, teria sido atingido. Já em campo, ao aquecer, os atletas albaneses receberam uma chuva de objetos jogados pela torcida, e, pior que a agressão material, a agressão moral: os torcedores cantavam “Kosovo je srbije”, (“Kosovo é Sérvia”) “Ubi ubi šiptara”, (“matem, matem os albaneses“) e “Ubi, zakoli, da Šiptar ne postoji” (“Matem, massacrem, porque os albaneses não existem“). Era o prenúncio de uma tragédia, de cenas lamentáveis.

A atmosfera pré-jogo já apontava para um cenário de atitudes extremistas e xenófobas, com uma probabilidade muito forte de chegar às vias de fato. Os albaneses entendiam os cânticos sérvios, já que são de seu conhecimento, e nenhuma pessoa deveria passar pela experiência de adentrar um espaço no qual mais de vinte mil pessoas lhe desejam a morte, sobretudo em um contexto onde as atrocidades ainda são extremamente recentes, trazendo às ameaças do campo simbólico para o prático. Mesmo assim, o apito inicial foi dado.

O drone que apareceu, aos 40 do primeiro tempo, portando a bandeira da Grande Albânia, foi um golpe maior que qualquer gol que o goleiro Stojkovic pudesse tomar. Os torcedores ficaram ainda mais agressivos e quando Stefan Mitrovic, zagueiro sérvio do Freiburg, pulou e arrancou a bandeira do drone, a torcida comemorou como se fosse um título: a brutalidade que estava por vir já era esperada. Os atletas albaneses partiram em direção a Mitrovic e quando Bekim Balaj, centro-avante do Slava Praga, arrancou-lhe a bandeira das mãos, não percebeu que em todos os lados do gramado torcedores sérvios invadiam a cancha, prontos para entrar no combate: um deles acertou-o com um banco. Nesse ponto, a confusão é tamanha que pouco pode ser identificado no relvado, mas a imagem de Lorik Cana, capitão albanês nascido no Kosovo, travando uma luta ao chão com um sérvio correu o mundo. Mais torcedores tentavam invadir e participar, mas eram censurados pelos jogadores sérvios, que apesar da atitude de Mitrovic e de alguns outros, tiveram um papel decente na confusão, desincentivando a invasão de campo e até escoltando os albaneses em certos momentos. Depois de alguns minutos de indecisão, os atletas da Albânia rumaram, correndo, ao vestiário: uma cena horrenda, que mostra diversos objetos sendo arremessados nos esportistas, inclusive torcedores se colocando no caminho ao túnel de saída e golpeando os jogadores assustados. Após meia hora de pausa, os atletas albaneses declararam não ter condições físicas nem psicológicas para retornar a campo e a partida foi cancelada pelo árbitro Martin Atkinson.

Foto: Reprodução Doentes por Futebol | A bandeira foi a centelha que faltava para iniciar o conflito entre sérvios e albaneses

Foto: Reprodução Doentes por Futebol | A bandeira foi a centelha que faltava para iniciar o conflito entre sérvios e albaneses

Ter colocado as equipes no mesmo grupo e permitir a realização da partida com todos os elementos que se apresentaram não foi, no entanto, o erro mais grotesco da UEFA. Mostrando sua habitual conivência com temas que circulam pela xenofobia, racismo, violência e ódio, a entidade declarou a Sérvia vencedora por três a zero, indicando que os albaneses teriam “se recusado” a voltar ao campo. Os três pontos foram retirados da pontuação sérvia, mas o que está em jogo é o simbolismo da decisão, que não considerou que os albaneses não eram capazes de retoma rseu jogo, senão que eles teriam rechaçado a possibilidade de recomeçar a partida. Ora, ao contrário do que às vezes se pensa, os atletas não são super-homens, eles são pessoas como quaisquer outras e nesse caso estavam, como tentei mostrar, psicologicamente abalados, além de fisicamente feridos – sem condições de retonar ao relvado. Dar a vitória à Sérvia significa desconsiderar as condições moralmente indignas pelas quais os esportistas passaram durante todo aquele dia. Além disso, apesar dos cânticos xenófobos, do arremesso de objetos, das invasões de campo e da violência de torcedores e seguranças, a UEFA decidiu que a Sérvia jogará apenas os próximos dois jogos em casa com portões fechados e aplicou uma multa pequena, de apenas 100.000 euros, tanto para a Federação Sérvia quanto para a Federação Albanesa. Os albaneses, com toda razão, já declararam que vão recorrer à pena.

Ao contrário daquele 12 de novembro de 1967, a Albânia apresentava chances de vencer: vem de uma incrível vitória em Aveiro contra os portugueses e de um empate em casa com a Dinamarca, estando com quatro pontos na tabela. Com um futebol em evolução, torcemos para que conquistem a tão sonhada vaga na Eurocopa e que os sérvios, além de reencontrarem aquele jogo abrasileirado e alegre de Dragan Dzajic, Dragan “Piksi” Stojkovic e Dejan Petkovic, reencontrem também o respeito às diversidades e à alteridade.

Não é a primeira vez que torcedores sérvios causam problemas, mas além de ser hora de pensarmos em aplicar penas efetivas, devemos pensar na questão afetiva: jogos com portões fechados são um dos momentos mais tristes para o esporte. Para que o estádio de futebol não vire um circo vazio, mas que tampouco seja um reprodutor de pensamentos extremistas, penas alternativas devem ser pensadas, o que a UEFA, sabiamente, já cogita: em 2011, a torcida do Fenerbahçe invadiu o campo e foi punida, mas ao invés de jogar dois jogos com portões fechados, a Federação Turca sugeriu que apenas crianças e mulheres marcassem presença no estádio, sugestão que foi acatada. Essa alternativa tem sido estudada pela UEFA e poderia ser aplicada tanto em partidas de clubes quanto de seleções: além de tirar o aspecto super-masculino (que inúmeras vezes beira o machismo), a pena atinge os torcedores extremistas e ainda contagia os pequenos, que podem criar gosto pelo esporte, de uma maneira sadia e respeitosa, e as mulheres, que têm um papel no estádio de futebol tão importante quanto o dos homens. Talvez tal solução possa ser colocada em prática já ano que vem no jogo de volta, antevendo uma represália albanesa. Entretanto, as decisões da UEFA têm sido decepcionantes, brandas e, muitas vezes, coniventes.

Com a premissa irreal e impossível de desvincular política de futebol, a UEFA desconsiderou as tensões diplomáticas que duram séculos entre Albânia e Sérvia, foi cúmplice da selvageria que tomou conta do Partizan Stadium e conivente com as práticas xenófobas ao aplicar uma pena mínima, que favorece esportivamente mais os sérvios que os albaneses, atitude que não é surpreendente, se tomarmos em conta as atitudes de Michel Platini em relação ao pleito kosovar. Já é hora de que reações extremistas de torcedores sejam punidas com efetividade, de maneira que o futebol assuma oficialmente a posição que sempre teve espontaneamente: a de unir e de ensinar.

No começo do ano, Platini falou que “políticos deveriam se preocupar com a política, o esporte deve ser um lugar de irmandande, unindo as pessoas”, a ingenuidade da UEFA, no entanto, ao tentar se desvencilhar da política e fugir de decisões realmente positivas e impositivas, torna justamente essa ideia de “união através do esporte”, proclamada por Platini, mais irreal e difícil de ser alcançada.

¹ Shqiptar é o termo em albanês para “albanês”. Essa palavra foi apropriada para a língua sérvia como um pejorativo, um xingamento aos albaneses.

Comentários

Antropólogo, fanático por relações internacionais, direitos humanos, literatura e, óbvio, Doente por Futebol. Além de colunista para o DPF, escrevo para o fã clube Borussia Dortmund Südbrasilien e no projeto latinoamericano Goltura Futebol. Jogo de segundo volante.