Presente e futuro

  • por Victor Mendes Xavier
  • 6 Anos atrás

Foram apenas dois jogos, escalações e jogadores diferentes do habitual e adversários de níveis opostos. Mas a Espanha, que encerrou um 2014 para se esquecer, flerta com novidades que podem ser realmente efetivadas a partir do próximo ano, visando a Eurocopa de 2016. Às vésperas do confronto contra a Bielorrússia pelas Eliminatórias europeias, uma declaração de Busquets chamou a atenção na imprensa espanhola: “não voltaremos a ver a melhor Espanha e o melhor Barcelona. O futebol evolui, é impossível manter tudo igual”.

Apesar da derrota para a Alemanha no amistoso da última terça-feira, o saldo dos últimos jogos do ano foi positivo à Roja. Reciclada e ativada, a Espanha teve oportunidades para sair de campo vitoriosa contra a atual campeã mundial, mas pecou nas conclusões das jogadas. O gramado e a chuva que caía em Vigo não ajudaram, e o chute até então despretensioso de Kroos acabou garantindo a vitória ao time de Joaquin Löw, com uma grande colaboração de Kiko Casilla, que, desde os primeiros minutos em campo, parecia estar nervoso por estrear com a camisa da Seleção.

O aspecto que mais chamou atenção foi a transição espanhola. Especialmente contra a Alemanha, a Fúria apostou muito nos contra-ataques e no jogo direto. Ainda não se sabe o que Del Bosque busca e se os jogadores em campo no dia influenciaram na proposta de jogo (é bom mencionar que Iniesta, Cesc Fàbregas e David Silva, novos símbolos do jogo de passe e posse da Espanha estiveram ausentes), mas foi um time mais incisivo e vertical com a bola. Com 47% da posse de bola, em certos momentos os espanhóis até se retraíram na defesa com duas linhas de quatro compactadas e acionaram com velocidade Nolito (em ótima fase na temporada) pela esquerda.

Estar com a bola e a posse a favor ainda são as melhores armas da Espanha, mas ter alternativa é algo que deixa os torcedores esperançosos. A recuperação da marcação-pressão é uma característica que Del Bosque não pode abandonar. Tudo bem que o time “envelhecido” na Copa dificultava o mecanismo e foi uma das grandes razões para a chuva de contra-golpes que a Roja sofreu no Brasil. Tanto contra Bielorrússia, quanto contra a Alemanha, a Espanha avançou as linhas como há muito tempo não faz, dificultando a saída de bola dos rivais.

O debate acerca de um 9 continua. Morata pode ser testado mais vezes no ataque, mas deixou uma má impressão inicial. É verdade que ele se movimenta bem, com um bom desmarque que dá aos meias opções plausíveis de passe, mas erra bastante na hora de finalizar. Em péssima fase no Barcelona, Pedro, veja bem, ainda é a melhor opção de gol na seleção. Ironicamente, a forma de jogo que Del Bosque buscou nesses últimos jogos encaixariam bastante com as características de Diego Costa.

A principal novidade a nível individual foi Isco Román. O jovem saiu dos confrontos da Data Fifa convicto de que só fica de fora do time titular se Del Bosque quiser. Contra os bielorrussos, foi o jogador espanhol que mais driblou em campo (20 dribles). Isco garante à Espanha condução de bola no setor à frente de Busquets, imprevisibilidade, passes e criação nas jogadas coletivas. Iniesta é a referência técnica do elenco, mas seu território pela esquerda já não está 100% dominado. O treinador madrilenho, que parece indefinido taticamente, terá que quebrar a cabeça para encaixar os dois juntos. Isco faz jus ao título do texto: ele é o presente e o futuro da Espanha.


Hoje, um 4-3-3 parece ser o esquema possível para a Espanha sem subutilizar as características de seus principais jogadores. Aliás, também foi a tática que deixou Koke mais à vontade em campo. Se o jogador do Atlético de Madrid havia ido mal no 4-2-3-1, formando o duplo-pivô com Busquets, dessa vez se sentiu mais livre para criar no vértice direito do triangulo de meio-campo. A tendência de Del Bosque é cada vez mais transformar Koke no novo Xabi Alonso da seleção.

Não está perfeito e Del Bosque cada vez mais buscar testar novas opções. Há dois anos, Nolito e Callejón seriam desdenhados; porém, atualmente, são necessidades e precisam ser convocados. A conexão entre as seleções de base e a principal rende bons frutos à Espanha – De Gea, Bartra, Koke, Isco e Morata estavam na sub-21 há um ano. Neste novo ciclo, Del Bosque não tem apenas a obrigação de classificar a equipe à Eurocopa de 2016. Tem ainda o compromisso de encontrar novas referências.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.