São tetracampeões e não se esqueça

  • por Henrique Joncew
  • 6 Anos atrás

O Cruzeiro voltou a comemorar o título brasileiro. Desta vez, o torcedor cruzeirense pode ver a conquista de perto: com duas rodadas de atencedência, a confirmação veio em Belo Horizonte, na vitória de 2×1 contra o Goiás no Mineirão. No ano passado, a equipe celeste garantiu o título na Bahia, contra o Vitória. O bicampeonato por si só já é um feito digno de nota: são apenas cinco na história do Brasileiro (Palmeiras 72/73 e 93/94, Inter 75/76, Flamengo 82/83 e Corinthians 98/99). Em 2015, o Cruzeiro correrá atrás do feito do São Paulo, único tricampeão do certame (2006/07/08). O clube celeste e o tricolor são os únicos times do Brasil com três títulos na era dos pontos corridos.

REVOLUÇÃO

Depois de quase cair para a segunda divisão em 2011 e uma campanha fraca em 2012, não se esperava que o time azul iria se tornar um campeão tão soberano. O que transformou a Raposa no melhor time do Brasil?

O presidente do clube, Gilvan de Pinho Tavares, é a primeira parte da resposta. Como já exposto pelo Doentes por Futebol, Gilvan equilibrou o clube financeiramente após o caótico fim da Era Perrela. Na administração do clube, teve visão de mercado ao nomear Alexandre Mattos como diretor de futebol e estabilizou a equipe em 2012. A discreta campanha não era sinal de glória, mas o clube precisava de um período para encontrar terra firme novamente. O presidente também ampliou e aperfeiçoou o programa de sócio-torcedor e cravou para 2013, mesmo contra protestos veementes da torcida, a segunda razão do sucesso do clube: Marcelo Oliveira.

O treinador assumiu e, em sintonia com a direção, buscou muitas contratações. Com um time quase totalmente novo, o Cruzeiro não prometia tanto, à primeira vista. Tinha alguns jogadores mais experientes e de qualidade em âmbito nacional (como Dedé, Dagoberto e Borges), alguns jogadores seguros, mas sem histórico de holofotes (como Bruno Rodrigo e Nilton), mas não aparentava ter um grupo sólido para disputar títulos. Sobravam apostas e riscos. Coube ao comandante, então, dar confiança a seu elenco e armar um esquema dinâmico, que extrai ao máximo as virtudes de cada jogador e esconde tanto quanto possível suas deficiências.

O terceiro ponto é, talvez, o mais discutido na imprensa e nas rodas de conversa: o elenco. Como dito, nenhuma estrela despontava no plantel cruzeirense à primeira vista, com exceção do ídolo da torcida e capitão do time, Fábio. Hoje, já há destaques individuais, principalmente o meia direito Éverton Ribeiro e o ponta de lança Ricardo Goulart. Entretanto, mesmo os principais jogadores do time, apesar de sua qualidade, não estão no patamar de craques históricos que já decidiram campeonatos no passado.

A grande força do Cruzeiro é o volume de jogadores com qualidade próxima ou até um pouco superior à média nacional. Isso possibilita a substituição constante de peças de acordo com a fase técnica e a condição física, preservando o esquema tático e o estilo de jogo da equipe, o que garante a elogiadíssima regularidade do futebol celeste. E a condição de manter uma prolongada boa fase faz com que os atletas fiquem com o moral elevado, sem restrições com a reserva: todos jogam e fazem parte de uma equipe vencedora. Ainda, a convivência do grupo é positiva e jogadores experientes, ainda que não entrem em campo com a mesma frequência dos demais, assumem um papel de liderança e orientação muito bem aproveitado pelos colegas. É o caso de Ceará e, principalmente, de Tinga.

TÁTICA

Marcelo Oliveira organizou o Cruzeiro em um 4-2-3-1 extremamente intenso e agressivo, com um quarteto ofensivo que troca de posição de forma incessante. Ainda, o técnico passou a utilizar o meia central Ricardo Goulart como uma arma de infiltração, deslocando a função de criação de jogadas para Éverton Ribeiro, incisivo nas investidas em diagonal, e para seu segundo volante, Lucas Silva, jovem que garante muita qualidade à saída de bola. Em 2013, o camisa 16 dividia as investidas ao ataque com Nilton. A relocação do núcleo criativo do time distancia a marcação adversária da origem dos lances de ataque. Também, Marcelo deu tranquilidade ao Cruzeiro para jogar em desvantagem, mantendo o estilo de toque de bola, e transformou a bola parada em um recurso muito forte e decisivo a seu favor. Defensivamente, em 2013, Lucas Silva e Nilton revezavam entre si para guardar a posição quando das subidas ao ataque.  Em 2014, Henrique assumiu a titularidade e passou a exercer a função de volante mais fixo, de atuação essencialmente defensiva e com esporádicas participações no ataque, liberando Lucas Silva para jogar com maior liberdade.

cruzeiro

Do ponto de vista tático, a única crítica que talvez caiba ao treinador nas duas edições que conquistou no Brasileirão é a dificuldade que demonstrou em 2014 para modificar o time com a vantagem no placar, substituindo um jogador de ataque por um volante, o que por vezes deixou o Cruzeiro em apuros em partidas aparentemente ganhas.

BICAMPEONATO

Houve diferenças técnicas entre as campanhas de 2013 e 2014. Neste ano, mais oscilação: o Cruzeiro jogou de forma dominante no primeiro turno e tropeçou e mostrou cansaço no segundo até, no final, arrancar novamente com cinco vitórias seguidas. O clube não repetiu a escrita de vencer todos os adversários ao menos uma vez, e teve vida difícil na ponta da tabela contra São Paulo, Corinthians e o rival Atlético-MG, mas manteve a dominância, demonstrada até mais amplamente, uma vez que é líder desde a sexta rodada, e pode inclusive superar o aproveitamento do ano passado. O Cruzeiro de 2014 foi um campeão mais soberano e inteligente, mas menos avassalador. A antecedência da conquista só não foi maior, como em 2013, devido à boa campanha são-paulina. O Cruzeiro garantiu o título do ano passado com quatro rodadas de antecipação, quando chegou a 75 pontos, 16 de vantagem sobre o Atlético-PR, segundo colocado à época. Neste ano, o título só veio com 76 pontos, sete a mais que o tricolor paulista, a duas rodadas do fim.

Nos números, nota-se também que neste ano o Cruzeiro foi mais pragmático. Foram menos gols marcados (a não ser que marque 13 vezes nas duas rodadas restantes, o time não alcançará os 77 gols de 2013) e mais jogos sem marcar (6 até o momento, contra 5 em 2013). A defesa manteve o nível, apesar das falhas individuais mais evidentes: foram 36 tentos sofridos neste ano e 37 no ano passado. O domínio dentro do Mineirão ainda é claro: 45 pontos em 2013 e 44 em 2014 (o Cruzeiro ainda enfrenta em casa o Fluminense na última rodada do campeonato atual). Fora de casa, a Raposa fez 32 pontos em 2014, contra 31 no ano passado (o Cruzeiro ainda enfrenta a Chapecoense na penúltima rodada do campeonato atual).

Mudanças também ocorreram na escalação do time. Na lateral-direita, Mayke vai se consolidando ainda mais como substituto de Ceará na lateral direita. Henrique roubou a vaga de Nilton como primeiro volante e deu liberdade para as saídas de Lucas Silva. Dagoberto caiu de produção e não esteve bem fisicamente, e Willian não se encontrou durante a maior parte do campeonato, o que deu a Marquinhos a oportunidade de ser o principal titular pela ponta esquerda. O garoto Alisson despontava com boas atuações pelo setor, mas lesionou-se quando começava a ter sequência de jogos. Marcelo Moreno tornou-se o incontestável centroavante no lugar de Borges, que pouco jogou devido a frequentes lesões. Na zaga, houve bastante rotação entre os jogadores, devido às várias visitas dos jogadores ao departamento médico. Dedé e Léo foram a principal dupla da defesa, mas Bruno Rodrigo e Manoel também entraram em campo diversas vezes.

O pragmatismo de 2014 não se manifestou apenas nos placares das partidas. Em 2013, 19 jogadores marcaram gols pelo Cruzeiro, sendo Borges e Ricardo Goulart os artilheiros, com 10 gols cada, e diversos jogadores com a marca de 5 a 7 gols. Já neste ano, foram 16 e um gol contra, o que também é uma boa distribuição, mas Goulart e Moreno estão disparados na artilharia celeste e poucos jogadores marcaram mais que três vezes.

DADOS INDIVIDUAIS

Dentre os principais jogadores, é possível fazer algumas comparações de rendimento em 2013 e 2014. Entre os zagueiros, a quantidade de lesões, as trocas de duplas e a falta de sequência dificulta a análise. Também, Marcelo Moreno faz campeonato mais letal que o de Borges em 2013 (14 gols contra 10), mas teve menos problemas físicos. Mas, para o restante, é possível estabelecer uma base comparativa, conforme dados do site footstats.net.

O goleiro Fábio teve um ano menos seguro, pecando de forma mais evidente em alguns lances neste ano. Entretanto, não deixou de aparecer bem e decidir jogos para a equipe celeste. Foram apenas dois gols sofridos a mais que em 2013 até o momento (36 a 34).

Henrique garantiu maior segurança à defesa ao assumir a condição de titular. O volante roubou 105 bolas e é o principal jogador cruzeirense no quesito. Em comparação, o volante Nilton, no certame de 2013, registrou apenas 75 desarmes. Henrique, ainda, é o jogador com mais passes certos do Cruzeiro: 1313. Ao seu lado, Lucas Silva evoluiu na sua capacidade de lançar e determinar o ritmo de jogo, sendo o mentor de diversas jogadas de ataque. O jovem volante mostra mais segurança e já acertou 1005 passes no campeonato atual, contra 817 no anterior.

Éverton Ribeiro, em números, tem rendimento bastante semelhante ao do ano passado. São atuais 6 gols e 10 assistências contra 7 tentos e 11 passes para gol em 2013. Entretanto, teve mais oscilações ao longo do campeonato atual. Em alguns momentos, teve lapsos de displicência, como na derrota para o Atlético-MG e no empate contra o Palmeiras, e também sofreu muito com o desgaste físico. Em outros, mostrou um futebol ainda melhor que no último ano, o que lhe garantiu espaço na Seleção Brasileira. O camisa 17 é o núcleo criativo das jogadas e desenvolveu seu senso de marcação, roubando mais bolas. Cravando de vez seu nome como ídolo da torcida, Ribeiro coroou seu ano ao marcar o gol do título celeste contra o Goiás.

Ricardo Goulart manteve o estilo de jogo que apresentou no último ano, mas seu rendimento melhorou consideravelmente. Goulart é primordial para as jogadas de trocas de passe em velocidade que envolvem o adversário, e assim anotou gols fundamentais na campanha celeste, como o da vitória contra o Santos na Vila Belmiro. O camisa 28 evoluiu no trato com a bola, mas ainda peca em aspectos técnicos e, por isso, rende melhor nas jogadas em que simplifica o toque de bola. Apesar disso, o meia é o principal jogador do ataque celeste, uma vez que sua movimentação serve como gatilho para iniciar as demais trocas de posição, que ficam engessadas com sua ausência. Goulart também aprimorou sua finalização, e graças a isso tornou-se um dos protagonistas do título. Se foi o artilheiro celeste no título de 2013 com 10 gols, ao lado de Borges, em 2014 já balançou a rede 15 vezes e disputa a artilharia geral do campeonato.

ABSOLUTO

O bicampeonato celeste não foi obra do acaso. Foi consequência de um trabalho cuidadoso de planejamento, treino e aplicação tática. Gilvan, Mattos, Marcelo Oliveira e os jogadores têm parcelas importantíssimas de responsabilidade pela conquista ao criar um ambiente de trabalho sadio e de alto nível. Títulos são o resultado natural de um clube equilibrado e com elenco completo.

Vivendo um dos melhores períodos de sua história, a equipe celeste tornou-se o melhor time do país, reconhecido por todos os adversários, e conquistou com toda justiça o bicampeonato, seu terceiro Campeonato Brasileiro e quarto título nacional, perseguido de longe pelo segundo colocado. O Cruzeiro escreveu mais páginas heroicas imortais nos gramados de Minas Gerais e fora de seus domínios. Ou em todos os seus domínios, porque todo estádio do Brasil hoje é iluminado pela luz das cinco estrelas.

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Geólogo. Fã de futebol, Fórmula 1, paleontologia, astronomia e pirataria desde criança. Belo horizontino, cruzeirense e líbero, armador ou atacante canhoto. Tem Zidane e Velociraptor como grandes ídolos e modelos de vida. Gosta de batata frita, do espaço e de combater o crime à noite sob o disfarce de Escorpião Negro.