A muralha dos Red Devils

  • por Lucas Sousa
  • 5 Anos atrás
Arte: Doentes por Futebol/Fred Miranda

Arte: Doentes por Futebol/Fred Miranda

Entre 2005 e 2011, o Manchester United teve um grande goleiro entre suas traves. Edwin van der Sar foi peça importante no esquadrão comandado por Sir Alex Ferguson, campeão da Liga do Campeões – tendo van der Sar como melhor em campo na final – e do Mundial de Clubes em 2008. Ainda neste período, o holandês ergueu o Campeonato Inglês por quatro vezes, foi eleito o melhor goleiro da Europa e se tornou o jogador que mais vestiu a camisa da sua seleção, em 130 ocasiões.

Coube a Ferguson renovar uma posição antes intocável. E ele foi ousado. Ousado porque apostou em um goleiro de 20 anos para ser titular em um dos maiores clubes do mundo e, de quebra, substituir um ícone. Mas o escocês viu no jovem De Gea potencial e responsabilidade para assumir o posto do veterano que pendurava as luvas.

De Madrid para Manchester

Nascido em Madrid, David de Gea começou no Atlético aos 10 anos de idade. Oito anos mais tarde, saiu do time B para estrear pelos profissionais em plena Liga dos Campeões. Entrou na vaga do lesionado Roberto aos 26 minutos para enfrentar o Porto, em setembro de 2009. O arqueiro sofreu dois gols, o primeiro marcado pelo atual companheiro Falcao García, e o Atlético saiu derrotado. 225 dias se passaram e De Gea entrava no gramado como titular para disputar a final da Liga Europa contra o Fulham. O título coroou a ascensão do jovem goleiro, agora titular no Vicente Calderón.

Da derrota para o Porto até a vitória contra o Mallorca, sua última partida pelos Colchoneros, em maio de 2011, De Gea evoluiu muito. Defendeu um pênalti de Diego Milito na final da Supercopa da UEFA em 2010 e foi campeão europeu sub-21 no ano seguinte, título que conquistaria também em 2013, ambos como melhor goleiro do torneio. O currículo do goleiro era muito bom, mas o passo para o Manchester United também era muito grande.

Logo na primeira temporada na Inglaterra, sofreu seis gols do Manchester City em Old Trafford, a maior derrota da história do United em casa desde 1955, e chegou a perder a vaga de titular para Lindegaard. Em resumo, as duas primeiras temporadas de De Gea em Manchester foram de adaptação. Em alguns momentos, mostrava que poderia atingir o potencial esperado, em outros, parecia uma grande decepção.

Sob o comando de David Moyes, começou a mostrar seu amadurecimento. Os erros começaram a diminuir, as exibições estavam cada vez mais seguras e o espanhol já era dono do gol vermelho. Mas foi com Louis van Gaal, na temporada passada, que De Gea se consolidou como um dos melhores goleiros do mundo. O mesmo técnico muito criticado por não contratar um zagueiro de peso para a equipe na janela de verão.

A consolidação sob o comando de van Gaal

Nas 38 rodadas, o United sofreu apenas 37 gols e foi a quarta defesa menos vazada da competição. Mérito de van Gaal que arrumou a zaga sem grandes nomes? Nem tanto. O treinador teve sua contribuição nesses números, mas o principal responsável foi David De Gea. O arqueiro fez partidas espetaculares e defesas que beiraram o impossível. Em algumas partidas, garantiu pontos importantes e assegurou a vitória fechando o gol. Principalmente contra os times de Liverpool.

Contra o Everton, De Gea assegurou os três pontos. Defendeu um pênalti de Baines – que jamais havia perdido uma cobrança na Premier League – e fez defesas espetaculares em chutes de Osman e Oviedo, este já nos minutos finais. Sem o espanhol entre as traves, provavelmente a vitória por 2×1 não viria.

No clássico frente ao Liverpool, veio a consagração. Parou Sterling por três vezes, sendo que uma delas gerou o contra-ataque do primeiro gol, e Balotelli em um lance de puro reflexo. Foi o melhor em campo e, mais uma vez, responsável direto pela vitória do Manchester United.

http://youtu.be/AdX5cjngeTc

Após o jogo, surgiram inúmeras imagens exaltando sua grande exibição. Uma das mais criativas veio de uma revista norueguesa. A capa da VG Sporten brincou com o álbum The Wall (“O Muro”, em português), da banda inglesa Pink Floyd, trocando o nome do grupo pelo do goleiro do Manchester.

Foto: Reprodução/VS Sporten - Atuação frente ao Liverpool rendeu capa em uma revista da Noruega

Foto: Reprodução/VS Sporten – Atuação frente ao Liverpool rendeu capa em uma revista da Noruega

Sem dúvidas, De Gea foi um dos pontos altos do United de van Gaal. Se o treinador não pôde contar com a defesa que desejava (ou ao menos a defesa que a torcida desejava), ele tinha um goleiro vivendo uma fase sensacional. Graças às suas defesas, a ausência de um grande zagueiro não foi tão sentida nos resultados, mas, em campo, fez com que o arqueiro trabalhasse mais.

A conturbada negociação com o Real Madrid

Antes da janela de transferências abrir o Real Madrid já demonstrava interesse na contratação do goleiro do Manchester. Ele era visto como o nome ideal para a sucessão de Iker Casillas: espanhol, um dos melhores na posição e ainda jovem, capaz de defender a meta merengue por dez anos ou mais. Com a saída do ídolo encaminhada, o clube espanhol tinha seu alvo e dois meses para concretizar a aquisição. Mas as negociações se arrastaram.

De Gea manifestou seu desejo de deixar Old Trafford e rumar para o Santiago Bernabéu. Na iminência de perder seu goleiro, o Manchester United acertou com Sergio Romero, que havia feito uma ótima Copa do Mundo pela Argentina mas era reserva na Sampdoria. Uma vez que sua saída parecia só uma questão de tempo, o espanhol foi afastado da equipe. Porém, num dos episódios mais surpreendentes dos últimos anos, a negociação não saiu a tempo.

Após longas conversas os clubes chegaram a um acordo: 30 milhões de euros mais Keylor Navas por David De Gea. A partir daí, um coloca a culpa no outro. O Real Madrid alega que o os documentos enviados pelo Manchester United continham erros, enquanto os ingleses afirmam que houve atraso por parte dos espanhóis. Surgiu até a notícia de que os Merengues não conseguiram abrir o formato de arquivo enviado pelo United, algo surreal se tratando de dois dos maiores clubes do planeta. Fato é que a negociação não saiu e tanto De Gea quanto Navas tiveram que continuar nos seus clubes.

Um novo capítulo em Old Trafford

Com as negociações para um retorno a Madrid no passado, De Gea renovou seu contrato com os Red Devils por quatro temporadas. Após assinar o vínculo, o jogador afirmou que está “no lugar ideal para desenvolver sua carreira” e se disse feliz por iniciar um “novo capítulo no United”. Ainda se especula que o Real irá atrás do atleta ao final da temporada e que sua cláusula de rescisão caiu de 60 milhões de euros para 40. Por outro lado, o goleiro estaria descontente com a atitude dos Merengues, que teriam desistido da contratação e atrasado o processo intencionalmente.

Reintegrado ao elenco, o arqueiro retornou contra o Ipswich Town, pela Copa da Liga Inglesa. Na ocasião, foi o capitão da equipe, uma forma de incentivar o goleiro nessa nova fase e indicar que ele é importante para o Manchester. Desde então, foram nove partidas na temporada e cinco gols sofridos. Na Premier League, sofreu gol em apenas um dos cinco jogos disputados (3×0 para o Arsenal), o que coloca o Manchester United como a melhor defesa da competição (oito gols sofridos).

Em apenas nove exibições, De Gea mostrou que o aumento de £160 mil no seu salário terá retorno. Defesas quase impossíveis garantiram pontos importantes para o United nesse período, inclusive no clássico frente ao Liverpool, mais uma vez.

https://youtu.be/HPGQHJI8ta4

Hoje, na sua quinta temporada pelos Red Devils, De Gea é um dos principais nomes do Manchester United e tem tudo para ser o nome da posição por vários anos. Na chegada do espanhol a Old Trafford, van der Sar, último dono da meta, disse que De Gea “tem tudo para ser um dos melhores goleiros nos próximos dez anos.” Só errou por um detalhe: o camisa 1 alcançou este posto na metade do tempo.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.