O Barcelona 2014-2015 e seus problemas na produção ofensiva

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás

Durante muitos anos, pensar em futebol no seu estado de coletividade era pensar em Barcelona. O lendário time de Guardiola consagrou uma ideia de jogo em que todos eram importantes: das saídas de bola através do goleiro Víctor Valdés ao equilíbrio de Busquets na volância, o controle de Xavi, o volume de Iniesta, o trabalho de Pedro e o poder de decisão de Messi, todos trabalhavam. O tiki-taka garantiu aos catalães três Ligas Espanholas, duas Liga dos Campeões da Uefa em quatro anos e várias exibições históricas.

Desde a saída do treinador catalão, em 2012, a queda do estilo de jogo e das peças vitais para o funcionamento do sistema barcelonista é evidente. Em 2014-2015, a diretoria blaugrana fechou com seu terceiro treinador pós-Guardiola. Luis Enrique, conhecedor da filosofia culé, foi contratado com o objetivo de recuperar a forma de jogar perdida com o tempo. Em cinco meses de temporada, não é o que tem acontecido. Cada vez mais pragmático, o Barcelona coleciona atuações decepcionantes nesta primeira parte da atual campanha. Lucho alterna formações, mas a equipe não engrena.

A carência defensiva já é conhecida há bastante tempo, mas atualmente os blaugranas esbarram em outro (e tão grave quanto) problema: a escassa produção ofensiva. A começar por Ivan Rakitic. Contratado para ser o substituto de Xavi, o croata exerce uma função muito diferente da época de Sevilla. Em seu ex-clube, Rakitic era o meia-atacante mais próximo do centroavante, em uma proposta de jogo totalmente voltada ao contra-ataque. Unai Emery moldou o Sevilla graças à capacidade de acelerar a bola, conduzir uma transição ofensiva e dar o último passe do croata. Dentro desse contexto, os andaluzes venceram a Liga Europa e terminaram em quinto na Liga Espanhola. Rakitic, na votação do Doentes por Futebol, foi eleito o melhor meio-campista da competição: foram 12 gols e 10 assistências.

Na Catalunha, ele joga mais recuado. Teoricamente, parte do vértice direito do triângulo de meio-campo, mas, na prática, não é tão essencial na circulação da bola como deveria ser um sucessor de Xavi. O papel que Rakitic ganhou nessa primeira parte de 2014-2015 foi mais defensivo que ofensivo, cobrindo as subidas de Daniel Alves e, sem a bola, deslocando-se ao flanco, deixando “vago” o espaço do interior direito do meio. Em outras palavras, Rakitic, um jogador acostumado a estar sempre com a bola, é mais “importante” sem ela. Não por acaso, começou no banco em três das quatro partidas de grande nível que o Barcelona fez na temporada.

Reprodução: Youtube |  Recuado e à frente de Busquets, Messi começa a construir uma jogada de perigo pro Barcelona. Rakitic ocupando outro espaço

Reprodução: Youtube | Recuado e à frente de Busquets, Messi começa a construir uma jogada de perigo pro Barcelona. No lance, Rakitic ocupa outro espaço

O espaço deixado no meio pelo camisa 4 é reaproveitado (de propósito) por Messi. Tempos atrás, com Xavi e Iniesta no auge, o argentino não se importava muito (à exceção de determinadas situações) em participar do jogo de passes do time (não que ele não participasse, para ficar claro, mas não era sua principal função). Atualmente, o cenário é bem diferente. Com Xavi em declínio, Iniesta em mais um ano irregular e Rakitic e Rafinha não tão especialistas em controle de jogo e passes, o camisa 10 é mais arco e flecha do que nunca.

A ideia de Luis Enrique, desde o início da temporada, sempre foi escalar Messi próximo de onde os ataques começam a ser construídos. Por isso, não é coincidência Rakitic jogar tão aberto: aquele espaço que Xavi tanto dominou nas últimas temporadas (e que deveria ser do croata) agora é de Messi. Hoje, ele tem que criar, passar, driblar, dar volume ofensivo e definir. Na Espanha, já brincam que o Barça joga na tática “4-Messi-Messi”, e não mais no “4-3-3”.

Reprodução: Youtube | Suárez centralizado e Messi de partindo da ponta direita, com liberdade de movimentação

Reprodução: Youtube | Suárez centralizado e Messi de partindo da ponta direita, com liberdade de movimentação

O treinador catalão vive um dilema porque precisa que Messi, enquanto Suárez ainda não está 100% adaptado e não vive sua melhor fase técnica, esteja ativado em sua zona de atuação que o consagrou. No entanto, o peso que o argentino ganhou na criação de jogo o afasta do gol, deixando o Barça carente de um definidor à frente. Desde a estreia de Suárez, Leo tem cumprindo, com liberdade de movimentação, mais funções partindo da ponta direita do ataque, com o uruguaio na referência do ataque, em uma clara tentativa de encaixar o camisa 9 o mais cedo possível. Suárez não tem feito fracas partidas, mas ainda tem muito mais a mostrar aos torcedores e ao time.

O caso Neymar voltou a incomodar este que vos escreve. No início da temporada, o brasileiro viveu sua melhor fase na Catalunha: escalado por dentro do ataque e mais próximo do gol adversário, flertou com uma versão goleadora até então não vista na Espanha. A parceria com Messi, vindo de trás como um enganche, fez sucesso. Os gols do Barcelona pareciam ensaiados: Messi conduzia pelo meio e lançava Neymar, que se desmarcava com facilidade em diagonal. Foi o vice-artilheiro da Liga durante dois meses.

Reprodução: Youtube | Nos primeiros meses da temporada, Neymar jogava por dentro do ataque com Messi vindo de trás. Na imagem, o brasileiro saindo da marcação, recebendo do argentino e marcando um gol

Reprodução: Youtube | Nos primeiros meses da temporada, Neymar jogava por dentro do ataque com Messi vindo de trás. Na imagem, o brasileiro se prepara para sair da marcação, receber do argentino e marcar um gol

De repente, tudo mudou. Luis Enrique voltou a utilizá-lo como um autêntico ponta esquerda e seu diálogo com Messi (e com as redes) diminuiu. Lucho nunca explicou, mas talvez a “mudança” no posicionamento de Neymar tem a ver com a vulnerabilidade defensiva. Com o camisa 11 pouco espetado no lado do campo e sem tanta tarefa defensiva, os responsáveis por dar profundidade à equipe eram os laterais, que já são ofensivos por naturezas. Apesar de ter ficado nove rodadas sem sofrer gols na Liga Espanhola, uma solidez defensiva nunca existiu na atual temporada. O Barcelona sofreu e ainda sofre com os problemas na recomposição. O brasileiro não é especialista, mas de volta à ponta, como tem sido ultimamente, tende a ajudar Alba após a perda de bola.

Luis Enrique testa variações táticas que ainda precisam ser mais treinadas. Contra o PSG, no Camp Nou, improvisou um 3-4-3 que não ofereceu muitas vantagens aos blaugranas. Foi muito mais uma partida vencida através das individualidades (o golaço de Neymar que deu a vantagem ao Barça no marcador, a grande exibição de Messi no primeiro tempo) do que construído a partir do coletivo. Após o jogo, Laurent Blanc, treinador do time francês, afirmou que “o novo sistema de Luis Enrique confundiu mais sua equipe que a minha”. Faz sentido. O Barça não criou linhas de passes e triangulações e só fez a bola correr com ligação direta ou lançamentos verticais, como no de Mascherano para Suárez no gol de Messi. Não foi surpreendente a melhora quando Xavi entrou em campo: ele ainda é fundamental, com as peças à disposição no elenco, para gerar ordem e conceito.

Reprodução: Espn | Contra o PSG, Luis Enrique improvisou um 3-4-3. Vimos, talvez, o Neymar mais recuado da temporada - e desde que chegou à Europa

Reprodução: Espn | Contra o PSG, Luis Enrique improvisou um 3-4-3. Vimos, talvez, o Neymar mais recuado da temporada – e desde que chegou à Europa

Os azuis-grenás estão longe de um time ideal e que possa competir com força contra os principais clubes europeus na Liga dos Campeões da Uefa. Em modo heróico, Messi pode decidir e levar nas costas, mas precisará da ajuda de seus companheiros no mata-mata do torneio. Em janeiro, o Barcelona terá uma sequência de jogos por Liga e Copa do Rei. Talvez a maratona de partidas faça Luis Enrique criar um sistema forte e competitivo. Caso contrário, lá se vai mais uma temporada sem títulos e com crise ao final dela.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.