Sobre escolher e ser escolhido

  • por Doentes por Futebol
  • 6 Anos atrás

Por Rebecca Garcez

Futebol é uma coisa engraçada… Por ser de São Paulo e gostar demais daqui, muitas vezes estranham quando digo que torço para um time carioca. Arregalam os olhos e perguntam “Por que você não torce pra um dos nossos grandes? Pô, você poderia até torcer pro Guaratinguetá, mas pra algum daqui.” Não, eu não torço pra nenhum daqui. Sou de um lugar e minha maior relação de amor e ódio é de outro.

Joy, Mariana e Rebecca (Foto de Rebecca Garcez)

Joy, Mariana e Rebecca (Foto de Rebecca Garcez)

Certas coisas a gente não escolhe. Certas coisas NOS escolhem, e acredito que propositalmente, vejam bem: eu sou Fluminense e não tenho doença cardíaca. Talvez por isso o Fluminense tenha me escolhido lá em 1902 para vestir uma camisa mesmo que eu ainda nem tivesse nascido.

Não escolhi várias coisas para mim e ainda assim as tive. Uma dessas escolhas não feitas foi ter vindo ao mundo mulher. É bastante complicado ser do sexo feminino e ter uma paixão tão latente por um esporte cuja maioria esmagadora de adeptos é do sexo oposto.

Eu explico: a gente vive em uma sociedade retardatária, que acha que mulher não pode hastear uma bandeira na beira do campo, mas pode hastear a roupa para colocar no varal. Quando conseguimos um cargo culturalmente destinado a homens, vem um estádio lotaaaaaaado proferindo julgamentos ao mesmo tempo. Até quando não é esse o caso isso acontece. Afinal, qual é o alvo principal de xingamentos pelo erro de um árbitro? Uma mulher que não interfere em nada no que está rolando ali. Uma mulher que talvez nem exista mais nesse plano.

Para os machistas, nós não deveríamos nos meter no que é dito “deles”. Imaginem a discriminação e preconceito que a modelo italiana Claudia Romani – árbitra recém-certificada que pretende abandonar a carreira de modelo para se dedicar somente ao futebol – deve estar sofrendo. E ela, além de tudo, teve o azar de nascer bonita. Aí já viram, né? Mulher, bonita, ocupando um cargo incomumente ocupado por mulheres… Só pode ter se aproveitado da própria beleza para chegar lá, porque, em casos como este, mérito não existe.

Recebemos rótulos e ofensas só por nosso gênero, mas somos fortes demais pra nos acostumarmos. Desde sempre, a mulherada se preocupa em reeducar a sociedade, mostrando seu valor. Foram muitas e muitas lutas, mas ainda assim a insistência em propagar uma cultura que não condiz com os fatos perdura.

Quando ouvi a palavra “feminismo” pela primeira vez eu tive uma impressão errada. Achei que se tratava em enaltecer o feminino, nos julgar superiores aos homens, e só depois de muita leitura pude entender em verdade o que essa palavra significa. É sobre igualdade. É sobre liberdade e respeito. É SOBRE SERMOS RAZOÁVEIS.

E por isso eu estou aqui. Porque eu discuto, escarro e sei tantos palavrões quanto qualquer outro doente por futebol. Porque eu e todas as mulheres somos igualmente capazes de realizar qualquer tarefa que nos seja atribuída dentro e fora de campo. Porque o machismo prejudica todo mundo, estabelecendo uma relação de dominação ao invés de parceria. Estamos aqui por nós mesmas e por vocês, homens. Por todos vocês. E por suas mães, irmãs, sobrinhas e filhas. E filhos, sobrinhos, irmãos e pais. Mulheres não são frágeis e inferiores, e nem homens são obrigados a provar sua força e virilidade o tempo inteiro. Todos deveriam ser e sentir da forma que acham melhor.

Bom, meu time e meu sexo não foram escolhidos por mim. E mesmo que eu pudesse fazer uma nova escolha, não levantaria a plaquinha de substituição. Se somos convocados, devemos ser fortes para lidar com o peso da camisa, nos posicionar, pedir o passe, driblar as adversidades e meter a bola no ângulo.

E eu tenho feito tudo isso com louvor. Sou uma mulher que torce, joga, apita e convoca. E como torcedora, canta nos 90 minutos de jogo e não se cala. Não vim pra gritar que sou superior a ninguém.

A não ser que eu esteja no estádio.

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