As Pelejas do Diabo no Inferno

  • por Matheus Mota
  • 5 Anos atrás

Todo rebaixamento é traumático, não importa o tamanho do clube. No entanto, o torcedor de um clube pequeno, que costuma militar nas divisões de acesso, sabe que um descenso pode vir a qualquer hora. Se por um lado é um pensamento desagradável, por outro faz com que esse torcedor aproveite cada momento. Em contrapartida, o torcedor do time grande sofre desgradaçamente, pois passa por um turbilhão de emoções, variantes de raiva, decepção e vergonha, entre outras. Pelo menos aqui há a certeza de que o time ficará pouco tempo no limbo, e que o acesso será obtido com facilidade, o que é o que ocorre na maioria dos casos.

Mas o torcedor, essa criatura que jogo a jogo acredita no imponderável, convenientemente o ignora nessa situação, e sequer cogita que a estadia de seu clube, um gigante de seu país, não siga esse script. Quando o acesso vem com dificuldade, o torcedor acostumado com conquistas não compartilha do otimismo daquele que roeu um osso por anos e enxerga uma singela participação na 1ª Divisão como um prato fino. E a coisa só piora quando o time grande permanece mais de um ano longe daquele que é tido como seu lugar de direito.

Essa é a situação do América de Cali. Os mais jovens podem não conhecer, mas o América é um dos gigantes colombianos, e já foi um dos mais temidos clubes sul-americanos, e assim como seu homônimo carioca, tem um Diabo como mascote, assim como também vive seu inferno astral. Os 13 campeonatos nacionais, além das campanhas na Libertadores parecem perdidas em um tempo remoto. Talvez haja alguma relação com o carma: o período mais glorioso dos Diablos foi quando eram financiados pelos cartéis de Cali, em um período da História colombiana em que o tráfico dominava a vida do país. A guerra entre os vários cartéis se estendeu ao futebol, onde vários traficantes injetavam dinheiro em diversos clubes, formando verdadeiros esquadrões respeitáveis até mesmo em nível continental. Desde os tempos da Liga Pirata, o futebol colombiano não era tão atrativo, mas verdade seja dita: ainda que os cartéis gostassem de ver “seus” times vencerem, os negócios não eram deixados de lado, e a lavagem de dinheiro comia solta. Pode-se dizer que o América foi o principal beneficiado desse cenário, pois todas as suas conquistas ocorreram a partir da injeção do dinheiro do tráfico.

Esse passado fez com que o América fosse posto na Lista Clinton em 96, uma lista em que o governo dos EUA colocava pessoas ou instituições que julgasse possuírem envolvimento com o tráfico internacional. Uma vez com o nome nessa lista, as finanças dessa pessoa/instituição nos EUA eram congeladas, além de ser impedida de receber investimentos. Aos Diablos nem houve a sorte de ver os rivais na mesma situação, pois quando a lista foi feita, equipes como Atlético Nacional já não recebiam apoio do narcotráfico, fenômeno que não ocorreu no lado vermelho de Cali. Em âmbito esportivo, nesse mesmo ano, o último brilho internacional: o vice da Libertadores, ante o River de Francescoli.

Sem poder movimentar contas bancárias ou receber capital, a agremiação não sentiu o baque em um primeiro momento, fato que os 5 títulos colombianos conquistados entre 97 e 2008 revelam. No entanto, a situação estava ficando insustentável, e a diretoria teve de começar a negociar precocemente as promessas das categorias de base para conseguir algum dinheiro. Era evidente que essa era uma solução paliativa, e o rebaixamento veio em 2012, e desde então o América permanece lá. Os torcedores estavam cientes das dificuldades, e por isso apoiaram incondicionalmente a equipe, mas o acúmulo de fracassos tirou a paciência da torcida, e o estopim ocorreu na última Primera B, que ocorreu em 2014, mas que por motivos que serão explicados a seguir, se estendeu até esse ano. Na temporada passada, o América não conseguiu o acesso em um campeonato com duas fases, uma em pontos corridos e outra com mata, em que os turnos eram divididos nos clássicos Apertura e Clausura, nesse caso denominado de Finalización. Era um regulamento maluco, que tentaremos explicar: os 8 primeiros colocados do Apertura fazem um mata-mata, e o campeão vai pra final geral. No Finalización, os 8 primeiros são separados em 2 grupos de 4, em que os 2 primeiros fazem uma decisão para ver quem vai jogar com o campeão do Apertura. O vencedor tem vaga direta e o perdedor disputa um play-off com o penúltimo da Primera A. Podemos dizer que o América fez força para não ficar com a vaga, que foi para o Jaguares de Montería, clube fundado em 2012, pelo menos com esse nome, já que surgiu em 95 como Girardot FC, colecionando mais 3 mudanças de cidade até parar na atual.

Após a última edição da Primera A e da Primera B, a Federação Colombiana decidiu aumentar o número de clubes na 1ª Divisão, indo de 18 para 20. Para decidir quais seriam as equipes que entrariam nessa expansão, foi marcado para o início de 2015 um torneio de 2 grupos de 4 times, somente com partidas de ida em campo neutro, no caso, em Bogotá. O América, por ter uma das maiores torcidas do país, foi beneficiado involuntariamente (a honestidade dos dirigentes colombianos não será posta em dúvida, afinal, não houve acesso aos autos das reuniões que decidiram por essa medida). Não adiantou, já que o clube conseguiu vencer nenhum dos três jogos (foram 2 empates e 1 derrota), contra Cortuluá – que ficou com a vaga -, Unión Magdalena e Deportivo Pereira. O outro promovido foi o Cúcuta, relativamente conhecido por suas participações recentes em competições internacionais.

Os seguidos fracassos tem tirado a paciência da torcida, que critica duramente a diretoria nesse momento de transição. A instituição já saiu da Lista Clinton, e as finanças estão sendo colocadas em ordem, mas isso não é o bastante para os torcedores, nem para a mídia e os rivais, acostumados a ver os diabos de Cali brigando por grandes coisas. Ainda que esteja se organizando, o futuro do América é nebuloso, pois por mais que fora das quatro linhas as coisas estejam se encaminhando, é fato que o que ocorre dentro delas influencia, e muito, e se esse acesso não vier logo, ou se vier e ficar no bate – e – volta, não haverá paz, tão necessária para que o Diablo saia do inferno que se meteu.

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Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.