Cavalo Paraguaio?

  • por Matheus Mota
  • 7 Anos atrás
Ramón Diaz, técnico da Seleção Paraguaia. Foto - Asociación Paraguaya de Fútbol - Divulgação

Ramón Diaz, novo técnico da Seleção Paraguaia. Foto – Asociación Paraguaya de Fútbol – Divulgação

Os últimos anos foram no mínimo estranhos no futebol paraguaio. Enquanto víamos performances consistentes de seus clubes em competições continentais, a seleção fazia a pior campanha em anos, mesmo com um plantel competente, com alguns remanescentes da Copa de 2010. Vale lembrar que, naquele Mundial, o Paraguai chegou às quartas de final, vendendo caro a derrota para a futura campeã Espanha.

É difícil apontar o porquê de um desempenho tão pífio. A base que fez uma grande Copa do Mundo estava lá, mas o artífice dela, o argentino Gerardo Martino, não se encontrava mais à frente do escrete. Martino ficou no comando até o fim da Copa América de 2011, na qual, embora tenha sido vice-campeã, a seleção paraguaia teve uma trajetória conturbada, classificando-se em 3º no seu grupo e decidindo todos os jogos do mata-mata nos pênaltis.

Encarando o desempenho na Copa América como um sinal de desgaste, a APF (Asociación Paraguaya de Fútbol) resolveu apostar no ídolo local Francisco “Chiqui” Arce, que tinha começado há pouco a carreira de técnico, tendo feito bons trabalhos no Rúbio Ñu e só. A contratação de Arce se deu em meio a um discurso de renovação do futebol paraguaio, para evitar uma campanha com a da Copa de 2006, quando uma seleção repleta de veteranos não conseguiu passar de fase.

O projeto de Arce se mostrou coerente dentro das possibilidades. O treinador apostou em jovens jogadores que atuavam no futebol paraguaio ou estrangeiro, casos do meio-campista Richard Ortíz, do Olímpia, e do meia direito Hernán Perez, do Villareal, sem esquecer de veteranos, como os atacantes Cardozo e o interminável Santa Cruz.

A iniciativa de inovar sempre deve ser louvada, mas, no caso em questão, acabou não dando certo. Sob o comando de Arce, a Albirroja conseguiu 1 vitória e 1 empate em 5 jogos válidos pelas eliminatórias, e ele acabou demitido. Ainda que o desempenho de Arce como técnico da seleção possa não ter sido dos melhores, sua carreira voltou à ascendente depois do bom trabalho com o Cerro Porteño, mostrando que o insucesso do ex-lateral não foi por falta de qualidade.

Partindo do princípio de que o novo não funcionou, a entidade maior do futebol paraguaio resolveu apostar na experiência, e trouxe o uruguaio Gerardo Pelusso. Tendo em vista que Pelusso conquistou o campeonato paraguaio de 2011 pelo Olímpia, sua contratação não foi descabida. Trabalhando no futebol local, o uruguaio estava por dentro do que estava acontecendo no futebol do país e poderia executar o tão almejado trabalho de renovação.

As expectativas não se cumpriram e o trabalho de Pelusso também não deu certo: em 7 jogos, o treinador conseguiu apenas 1 vitória e 1 empate. A única diferença da experiência de Arce é que, no caso de Gerardo, foi ele quem pediu para ir embora. O projeto de renovação efetuado por Pelusso era bem similar ao de seu antecessor, à exceção do estilo de jogo. Após os fracassos dos dois técnicos, parecia evidente que o problema estava na safra de jogadores, já que nenhum dos dois deixou de convocar atletas cujo ciclo já estava no fim (ou perto dele).

Pensando nisso, os dirigentes paraguaios decidiram dar uma chance para Victor Genés, treinador da seleção sub-20 que havia comandado a campanha na Copa do Mundo da categoria, na qual o grupo chegou até as oitavas de final. Após conquistar 8 pontos em 12 jogos, a vaga para o Mundial estava praticamente perdida, então, Genés não teria muita pressão para fazer experimentações de todo tipo. O resultado de mais impacto foi o 3×3 ante a Alemanha na casa do rival, com direito a sufocar os germânicos nos 15 minutos iniciais e abrir 2×0 em um jogo em que o treinador foi fiel à forma paraguaia de jogar, mas com outro esquema tático, um 3-5-2 similar ao visto no Olímpia finalista da Libertadores. Genés tinha contrato até novembro deste ano, e ainda que houvesse a possibilidade da Federação Paraguaia renovar com ele, os cartolas locais, talvez receosos de um insucesso semelhante ao de Arce, resolveram optar por um treinador com mais tarimba.

O técnico escolhido para obter um bom desempenho na Copa América e buscar uma vaga no próximo mundial é o argentino Ramon Diaz, treinador com um currículo vencedor, mas que não engata um bom trabalho há algum tempo, sendo acusado de estar defasado. Seu último título foi com o River, mas, para os críticos, essa conquista foi muito mais por Diaz conhecer as engrenagens do clube como ninguém do que por ter montado um padrão de jogo eficiente. Além do mais, o argentino preza pelo jogo bem jogado, coisa que a seleção do Paraguai tradicionalmente não faz.

Assim como o 4-3-3 é o esquema padrão da maioria dos times holandeses e quase sempre é visto na seleção, o mesmo se dá com o Paraguai e o 4-4-2 de raiz, aquele com duas linhas de quatro, compacto, saindo rápido para o contra-ataque, jogando mais com a velocidade e com a força física. O novo treinador, no entanto, gosta mais de uma variante do 4-4-2, a que usa um losango no meio de campo, forçando a presença de um enganche, sendo que, no momento, não há muitos jogadores paraguaios capazes de cumprir essa função. No entanto, sabe-se que Diaz é um treinador do tipo meticuloso, ao ponto de, segundo o presidente da APF, ter visto 53 vídeos de jogos da equipe em apenas 2 dias.

O desafio de Diaz não será pequeno (ele mesmo afirma ser o maior de sua carreira), e haverá forte pressão por uma boa campanha na Copa América. O processo de renovação deve continuar, até por não haver outra opção – a atual geração, pelo menos teoricamente, tem qualidade suficiente para conseguir atingir essa meta.

Sobre brigar por vaga na próxima Copa do Mundo, o buraco é mais embaixo. Por conta do desempenho pífio das últimas eliminatórias, em que a equipe ficou atrás até da Bolívia (cujo processo de decadência é o mais acentuado da região), existe uma enorme pressão sobre um trabalho que exige tempo e paciência. Diaz provou ser capaz de suportar o peso das cobranças em clubes, mas ainda não se sabe como reagirá no comando de uma seleção.

O fato é que os torcedores e mídia terão que entender que o momento não é dos melhores, e que qualquer exigência deve ser feita com a coerência necessária para uma equipe que já não figura entre as mais fortes do continente.

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Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.