Criciúma 2015: Uma ode às categorias de base

Foi em janeiro de 2012, mas lembro como se fosse semana passada. Falo do primeiro texto que escrevi para o site Olheiros.net, página que era referência em futebol de base. Falei do meia-atacante peruano Édison Flores, do Universitário de Sucre. Recordo do tanto que pesquisei em sites do Peru para conhecê-lo. Já tinha ouvido falar dele porque o time peruano havia enfrentado o Vasco nas quartas de final da Copa Sul-Americana do ano anterior, mas não tinha conhecimento suficiente para escrever uma matéria. Fui atrás, pesquisei e dei um jeito de ter embasamento suficiente para falar do tal jogador.

Quase três anos depois, Édison Flores ainda não deu em nada. Entretanto, a matéria que fiz a respeito dele foi o pontapé inicial para que meu gosto pelas categorias de base se aflorasse. Desde o dia em que fui convidado a escrever no site por um dos cabeças do projeto, Dassler Marques, nunca havia criado grande interesse pelo tema. Porém, a oportunidade era gigante, encarei o desafio e hoje me interesso bastante por jogos de base.

Esse interesse virou cobrança de torcedor e, mais tarde, de (projeto de) jornalista. Frequento as arquibancadas do estádio Heriberto Hülse nos jogos do Criciúma há mais de uma década e, desde que passei a escrever para o Olheiros, comecei a me atentar mais para a base do Tigre. Muitas e muitas vezes queria ver em campo algum garoto formado no clube ao invés de um figurão que veio de fora arrancar uns trocados do véio” Antenor Angeloni, presidente tricolor.

Infelizmente, notei que este não era o pensamento da maior parte da torcida. Quantas vezes ouvi “o Criciúma não forma jogador bom”, “essa garotada da base não presta” e outras coisas do gênero? Achava até engraçado porque a cobrança da torcida era tanta que os treinadores nem se sentiam confiantes para colocar os guris desde o início. Muitos deles deixaram o clube com míseros minutos no time profissional.

O mito da experiência

Outra coisa que me irritava profundamente (e ainda irrita) era o papo de que os atletas da base “precisam de experiência com empréstimos para outros clubes”. Ok, uma mudança de ares muitas vezes é válida, mas esse tipo de estratégia se mostrou furada na maioria das vezes. Dois exemplos aconteceram em 2014. O Criciúma emprestou o volante Luizinho Mello e o meia-atacante Vitor Michels para o Náutico para disputar a Série B do Campeonato Brasileiro. Os dois faziam parte do time que foi vice-campeão da Copa do Brasil Sub-20 em 2013 e passaram pelo time profissional, ambos com poucos minutos. Em Pernambuco, entretanto, Luizinho fez dois jogos e Vitor três. “Bela” experiência, hein?! Nem pisaram em campo direito.

Querem outro exemplo? Quem acompanha o Criciúma certamente já ouviu falar do centroavante Anderson Baiano. O atleta teve muito destaque na base, empilhando gols pelo clube. Em fevereiro de 2013, ele foi emprestado ao Nacional de Rolândia, que disputava o Campeonato Paranaense da primeira divisão. O time para onde o rapaz foi despachado terminou o estadual com apenas seis pontos e 11 gols marcados. A decepção com o rumo que a carreira estava tomando foi tão grande que Anderson Baiano quase parou de jogar… tendo apenas 20 anos! Foi preciso o Inter de Lages resgatá-lo no meio de 2014 para disputar a segunda divisão do Campeonato Catarinense.

Caso Fernando Fonseca

Foto: Paulo Akira

Foto: Paulo Akira

Uma das situações mais emblemáticas do descaso dos treinadores que passaram pelo Criciúma com os atletas formados no clube é o do zagueiro Fernando Fonseca. Capitão do time sub-20 do Tigre por algum tempo, o defensor chegou a treinar entre os profissionais em 2013.

Ultrapassando o limite de idade para estar na base, Fernando era aposta certa para, pelo menos, compor o elenco em 2014. A diretoria do Tigre, entretanto, não pensou assim. Apostou em nomes calejados e já conhecidos (por terem fracassado em clubes maiores) como Fábio Ferreira, Ronaldo Alves e Sergio Escudero e emprestou o atleta da base para o Moto Club.

No time maranhense, Fernando se encontrou. Mesmo jovem e longe de casa, o zagueiro de 20 anos se tornou titular e um dos destaques da equipe, jogando até no meio-campo. Não à toa, o Moto o contratou de forma definitiva no meio do ano, fazendo com que o defensor não tivesse mais vínculo algum com o Criciúma. É verdade que ser destaque no futebol maranhense (com todo o respeito) não é aqueeeeeeela coisa, mas, poxa vida, custava ter colocado o guri pra jogar aqui?

Claro que a vontade do jogador e estar atuando fez com que esse vínculo fosse rompido, mas chega a ser cômico – para quem não torce – ver um atleta tão bem cotado nas categorias de base nem mesmo a jogar pelo time profissional do Criciúma.

Foto: Fernando Ribeiro

Foto: Fernando Ribeiro

Outro exemplo escancarado de como essa história de “ganhar experiência” não passa de um grande papo furado é o caso do lateral direito Ezequiel. Com apenas 19 anos, foi titular durante boa parte da campanha do Tigre na Série B do Campeonato Brasileiro de 2012. Em seguida, se transferiu para Portugal, onde ficou seis meses jogando no time B do Sporting Braga. Retornou para a equipe catarinense para disputar a Série A. Foi reserva do ótimo Suéliton, mas, quando precisou entrar, cumpriu seu papel.

Para 2014, o Tigre foi atrás de Eduardo, que estava no Joinville. Ele veio para ser titular, mas nunca agradou. Ezequiel tomou a posição no decorrer do Campeonato Catarinense e novamente não decepcionou. Inesperadamente, ao término do Estadual, o Criciúma anunciou Maicon Silva do Londrina (mais tarde viria Luís Felipe, do Benfica) e o lateral da base tricolor foi emprestado ao Oeste, pelo qual disputou a Série B nacional.

Resultado? Apesar das três assistências, Eduardo mostrava muitas dificuldades em concluir cruzamentos (o FootStats apontou 83 cruzamentos errados) e era ponto vulnerável na defesa do Tigre, enquanto Luís Felipe mostrou deficiência tanto no ataque quanto na defesa, ficando marcado por ter sido “engolido” por Zé Roberto na corrida (!) na derrota por 3×0 para o Grêmio. Ezequiel, em contrapartida, foi o jogador que mais acertou passes e desarmes no Oeste, algo que é básico: ele rouba a bola e sai jogando corretamente.

Me perguntei o ano inteiro sobre esse caso específico: experiência para quê? Ele tem experiência e, o principal, tem bola! O Criciúma ficou seis meses sem um lateral direito decente e ignorou que o dono da posição sempre esteve no clube, e o principal: foi formado lá.

Por que essa rapaziada não pode ganhar experiência no próprio Criciúma? Por que não fazer isso na disputa do estadual? Nos últimos anos, o Tigre gastou algumas Dilmas com jogadores como Daniel Carvalho, Sergio Escudero, Amaral e outros figurões que poderiam ser substituídos, tranquilamente, por jogadores da base que acrescentariam muito mais.

Por linhas tortas

Mas depois de algum tempo insistindo que os garotos criados no clube deveriam ser aproveitados, finalmente isso acontecerá. Minhas preces foram atendidas… por linhas tortas. Com a queda para a segunda divisão, o Criciúma sofreu duros cortes na folha salarial. Os atletas com maiores salários devem ser negociados pelo clube, assim como aqueles com contratos mais longos. Sobrou para os meninos da base, que assumirão a bronca durante o Campeonato Catarinense de 2015.

Ao menos eles estarão na batuta de um profissional que os conhece: Luizinho Vieira, ex-técnico do time sub-20. Era ele o treinador do Tigre quando o time foi vice-campeão na Copa do Brasil da categoria, em 2013. Luizinho ainda foi campeão estadual no mesmo ano e foi eliminado da Taça Belo Horizonte na única derrota que sofreu em seis jogos na competição.

De 2013 para cá, caminharam junto dele atletas como o goleiro David, o zagueiro Iago Maidana, os volantes Barreto e Luizinho Mello, os meias Roger Guedes e Vitor Michels e os atacantes Gustavo e Andrew, que são apenas algumas das apostas do Tigre para 2015. Todos eles são talentosos, em especial David, Barreto e Roger, que são os três em que mais deposito minhas confianças.

Se eu, por acaso, pudesse entrar na mente do Luizinho e montar o time pro Estadual, começaria o time com nove jogadores da base. Isso mesmo, nove! Armaria a equipe no 4-2-3-1. Apenas Luiz e Perea seriam os “estrangeiros” do time.

Foto: Football User

Foto: Football User

Muitos perguntariam sobre o zagueiro Rafael Pereira, que renovou com o clube. Honestamente, não vi muita qualidade nele em 2014. É mordedor na marcação, bom no jogo aéreo, mas é lento e tem muita dificuldade com a bola no pé. Ainda assim, pode ser útil. Não abriria mão dele.

Sobre Cléber Santana, já fui contrário à sua contratação, mais contrário ainda com o tempo de contrato (até metade de 2016 para um atleta de 33 anos é um escárnio). Em campo, não mostrou muita coisa. Se o Criciúma achar alguém que tope pagar o tanto que paga, melhor. Se não rolar, prefiro apostar no menino Vitor, que sempre foi destaque na base por ter muita habilidade e boa chegada à área adversária.

Talvez os torcedores carvoeiros reprovem totalmente as ideias que sugeri acima, assim como muitos torceram o nariz para a decisão da diretoria em efetivar Luizinho Vieira. Eu, particularmente, enxergo com bons olhos essa decisão. Se a ideia é apostar na base, que traga junto alguém que conheça os jogadores e que não vá aparecer exigindo a contratação de atleta A, B e C e de mais tantos profissionais para a comissão técnica. Além do mais, Luizinho mostrou ter seu valor nos poucos jogos que esteve à frente do time profissional em 2014. A opção se mostra muito válida dentro das circunstâncias.

O mercado de técnicos está viciado. Os mesmos nomes passam pelos mesmos clubes ano após ano, as ideias não circulam, permanecem intactas. É necessário pensar fora da casinha, agir diferente e apostar no novo. O Criciúma fez isso com Luizinho Vieira e dando oportunidade à base. Sinto como se o sonho gerado quando escrevia aquele texto do Édison Flores estivesse se realizando. Verei garotos com a camisa do Tigre. Meu sonho pode virar um pesadelo, mas pode ser amostra de que tudo o que falei enfim fez sentido.

Obs.: impressionante como a discussão sobre a inserção de atletas de base no time profissional causa grande hipocrisia entre os torcedores. Não falo exclusivamente do Criciúma, mas dos times brasileiros em geral. O torcedor cobra a presença de pratas da casa no time principal, mas quando o clube abre mão de grandes investimentos para finalmente aproveitar a meninada, a diretoria é alvo de críticas e os garotos não prestam mais. Só reforça minha tese de que a vida do torcedor é reclamar. Se não tem algo para criticar, encontra-se algo. Se estiver bom, reclama. Se fizer diferente, reclama. É a essência, a razão de viver do torcedor.

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Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.