Entenda por que “Corinthians campeão da Copinha” é a notícia mais inútil do ano

Maycon marcou o gol do título da Copinha (Foto: Rodrigo Coca/ Agência Corinthians)

Maycon marcou o gol do título da Copinha (Foto: Rodrigo Coca / Agência Corinthians)

Maior faturamento dentre todos os clubes, aliado ao maior número de títulos da competição que revelaria os talentos em determinado país, na teoria, deveria ser sinônimo de hegemonia também entre os profissionais. Para qualquer outro clube, talvez, isso fosse verdade, mas não para o Corinthians e para o grupo que controla o poder da agremiação há quase uma década.

Eneacampeã da Taça São Paulo de Juniores, a equipe é, dentre aquelas 12 consideradas grandes do país, talvez a que menos revele jogadores para o time principal, embora seja uma das que mais investe nas categorias de base e que mais fácil perde seus talentos para outros clubes.

Mas, afinal, o que faz o Corinthians aproveitar pouco as suas revelações, e quando isso começou a acontecer?

O histórico

Voltemos, por um instante, à década de 90. Em 1995, o Corinthians revelou nomes como Sylvinho, André Santos e Cris, aproveitados no time profissional que foi campeão da Copa do Brasil e do Paulista no mesmo ano. Na equipe campeã em 1999, os frutos foram ainda maiores: Índio, Kléber, Edu, Ewerthon, Anderson, Gil e Fernando Baiano não só subiram bem para os profissionais como atuaram em Libertadores e/ou Mundial pelo Timão.

Entre 2000 e 2003, a equipe não chegou a nenhuma final da Copinha e alguns jogadores até foram aproveitados, mas não agradaram, como Wilson, Wendel, Abuda, Elton, Eduardo Ratinho, Bruno Otávio e Fininho. Durante essa fase, também subiram Bobô e Jô, jogadores que, embora criticados na equipe paulista, tiveram certo destaque no cenário europeu e atuaram na Seleção Brasileira. Aconteceu, portanto, a ordem natural das coisas na equipe paulista: revelar e testar, para achar algumas joias entre dezenas de jogadores.

Durante essa fase, começou-se a perceber também a impaciência da torcida corintiana com os, segundo ela, “latas da base”. No time de 2005, por exemplo, Dinélson foi importantíssimo na primeira arrancada de cinco vitórias consecutivas no Campeonato Brasileiro, enquanto Coelho fez o “gol do título” contra a Ponte Preta, em um time que tinha Tévez e Nilmar para marcar gols. Ambos sempre foram considerados inúteis pela torcida.

Após a saída da MSI, o Corinthians acabou promovendo bons meninos da base e, com eles, começou bem o Brasileirão de 2007. Porém, os garotos tinham que ser os atores principais naquela fraca equipe, e não coadjuvantes, como reza o bom planejamento, e, após a saída de Willian, única venda significativa do Corinthians nos últimos 20 anos, a equipe logo começou a mostra suas deficiências.

Assim, Fábio Ferreira, Bruno Otávio, Betão, Éverton Ribeiro e Lulinha tiveram que ser titulares no jogo contra o Grêmio, com a companhia de craques como Zelão, Carlos Alberto (o lateral), Moradei e Clodoaldo.

Todos eles acabaram “queimados” após o rebaixamento e logo foram emprestados para equipes menores para, em sua maioria, nunca mais voltar. Salvaram-se, dentre alguns, Júlio Cesar, depois fundamental no título brasileiro de 2011, e Dentinho. E essa passou a ser a tônica dos juniores corintianos desde então: estouram a idade da base, são emprestados e nunca mais voltam.

Com isso, nomes como Everton Ribeiro, Nilton e Dodô, hoje realidades, nunca foram valorizados o quanto deviam e sequer tiveram suas chances. Mais que isso, jogadores com destaque nas categorias de base e que poderiam compor o elenco têm seus contratos de três ou quatro anos integralmente pagos, mas nunca jogam pela equipe. Para completar, são contratados jogadores ainda piores, com salários, na maioria das vezes, maiores, e sem qualquer critério técnico. Esses jogadores não vingam, são emprestados, e o ciclo persiste, com novas contratações erradas, o que culmina em salários pagos a dezenas de jogadores emprestados a outras equipes.

Vejamos uma pequena comparação entre jogadores “emprestados para sempre” (coluna da direita) e “contratados sem nexo” (coluna da esquerda) no Corinthians pós-rebaixamento, um dos ciclos mais vencedores do clube. Não colocarei na lista contratações que poderiam ter dado certo, como Rodriguinho, Wallace, Jocinei, Bill, Élton e Wellington Saci. Esses jogadores foram contratados de forma natural, ou seja, a partir de determinada análise técnica, e faz parte do futebol não darem certo, da mesma forma que caras como Bruno Henrique, Paulinho e Romarinho, contratados em circunstâncias parecidas, deram certo.

Não estão incluídos também atletas que vieram para dar um pouco de experiência ou suprir uma ausência temporária, mesmo contratados em momentos errados (ou mal contratados) e com atuações pífias, como Iarley, Thiago Heleno, Bobadilla e Anderson Polga, ou jogadores que tiveram suas chances e foram vendidos, como Jô e Willian, que atuaram na Copa.

Corinthians base

A intenção da lista não é dizer que todos os que estão na coluna da direita são craques, e talvez alguns nem sirvam para o time do Corinthians. Porém, todos se destacaram na base e mereciam mais chances do que tiveram. Além disso, comparados com contratações semelhantes feitas no mesmo período, eram melhores opções.

Enquanto o time se atola em dívidas financeiras, pagando salários para seus atletas atuarem em outras equipes, o dinheiro recebido pela venda de seus atletas beira o nulo. Casos como o de Marquinhos e o de Éverton Ribeiro são emblemáticos e mostram que o objetivo principal da diretoria corintiana é se livrar desses garotos o mais rápido possível, por qualquer troco que ofereçam.

 No caso de Éverton Ribeiro (jogador cedido ao Coritiba, aos 21 anos, por 1,5 milhão de reais), o Cruzeiro acaba de acertar a venda de 60% de seus direitos por R$ 26 milhões , enquanto Marquinhos foi vendido pelo Corinthians por 7,5 milhões de reais e posteriormente contratado pelo PSG por 30 milhões de euros, na época R$ 89 milhões.


O que esperar?

Será que em 2015 a história vai ser diferente e os jogadores campeões irão ter chances entre os titulares? Muito provavelmente não.

Diferente da equipe de 2012, na qual jogadores como Marquinhos, Matheus Caldeira, Anderson, Antônio Carlos, Gomes, Matheuzinho e Giovanni poderiam claramente subir para os profissionais mas estão sendo mal aproveitados, a safra de 2015 parece um pouco mais limitada. Além disso, há poucas posições carentes hoje no time profissional.

Quatro apostas, porém, poderiam ter chances no mundo ideal, com uma boa política de aproveitamento de jogador da base, e mostrar se merecem ou não atuar entre os profissionais: Guilherme Arana (lateral esquerdo), Pedro Henrique (zagueiro), Gustavo Tocantins e Gabriel Vasconcelos (atacantes) poderiam compor o elenco, em posições que são carentes no elenco de Tite. O meia Matheus Cassini e o volante Marciel atuam em posições repletas de jogadores no elenco profissional e não devem ter chances de jogar, mas merecem ser bem observados também.

Na realidade, porém, o histórico mostra duas coisas preocupantes: além do mau aproveitamento de seus atletas da base, a equipe atual do Corinthians é quase um balcão de negócios, com jogadores fatiados ou apenas de empresários, tanto que boa parte do time campeão foi contratada nos últimos meses, então a esperança de que algo de bom realmente aconteça com esses garotos é quase nula. Isso, porém, seria tema para diversas outras matérias…

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Sergio Rocha é torcedor do Madureira e sempre teve o sonho de escrever sobre esportes em geral, embora tenha optado pela carreira de engenheiro civil. No "currículo", cadernos recheados de resultados esportivos e agendas da década de 90, quando antes da internet acessava rádios de diversos locais do país buscando os resultados esportivos do Acre à Costa Rica. Além de fanático por futebol, é fanático por praticamente todos os esportes, e no tempo livre que sobra sempre busca os últimos resultados esportivos do PGA Tour ou dos futures da ATP. Além disso, coleciona quadrinhos da Disney e é louco por astronomia.