Entre as sombras e a luz, um coadjuvante é herói

Arte: Doentes por Futebol

Arte: Doentes por Futebol

Por O Futebólogo

Há jogadores que nasceram para enfrentar os holofotes. Seja pela grandiosidade de seu futebol, por suas estranhas manias, roupas, cabelos ou estilos de vida, o mundo do futebol está repleto de popstars. Invariavelmente, quase todos os grandes clubes do futebol mundial contam com essas figuras. Todavia, há nomes que comumente permanecem nas sombras. Não obstante, alguns deles são vitais para o bom andamento das luzes dos outros cantos e, quando menos se espera, um holofote vira-se para suas faces. Inegavelmente, um desses sujeitos é Branislav Ivanovic.

Contratado pelo Chelsea em meados da temporada 2007/2008, o sérvio, que até então tinha como time de maior currículo em sua carreira o Lokomotiv Moscou, chegou sob suspeitas. Vivendo momento conturbado – a confusa transição após o final da primeira “Era José Mourinho” – o Chelsea, treinado por Avram Grant, viveu uma temporada sem glórias e o sérvio demorou para entrar na equipe. Opção para a zaga e para a lateral direita, Ivanovic aguardou oito meses para estrear e, quando o fez, foi sobretudo uma opção para o banco de reservas.

Sua trajetória no Chelsea começou a mudar na temporada 2009/2010, com a contratação do treinador Carlo Ancelotti e com uma lesão sofrida por José Bosingwa, então a opção preferencial para a lateral direita. Firme pelo flanco destro da defesa londrina – sendo raramente usado pelo miolo da zaga – Ivanovic começou a mostrar o porquê de merecer ter seu nome marcado na história do clube. Desde sua afirmação no onze inicial, o Chelsea conquistou uma Premier League, duas FA Cup, uma Community Shield, uma Europa League e a mais importante glória da história do clube: a UEFA Champions League.

View image | gettyimages.com I Ivanovic em ação na final da FA Cup 2009-2010

Perguntado certa vez sobre sua preferência posicional, Ivanovic mostrou não ter qualquer prioridade, deixando claro que sempre deixa o melhor de si no gramado:

“Durante toda a minha carreira eu me movi para dentro e para fora (da área). Estou muito feliz porque é bom para mim que eu possa jogar nas duas posições. Eu sempre tento dar o meu melhor independentemente do lugar onde jogo. No final, estou feliz porque gosto de defender e estou realmente gostando de defender esse time,” falou em entrevista ao site oficial do Chelsea.

Não bastasse sua importante presença no time, o sérvio, que normalmente passa despercebido, foi decisivo em vários momentos-chave de seu percurso azul. Atual capitão de sua seleção, Ivanovic foi fulcral na conquista da Champions. Graças a um gol seu (na prorrogação), os Blues conseguiram avançar às quartas de finais da competição eliminando o Napoli, em uma senda que terminaria na vitória contra o Bayern de Munique. No ano seguinte, anotou o gol do título da Europa League, contra o Benfica – é também importante lembrar que nas quartas de finais da Champions de 2008-2009 Ivanovic marcou duas vezes contra o Liverpool, em pleno Anfield Road.

Já na temporada passada, em momento decisivo para as pretensões do clube na Premier League, o lateral marcou o único gol do encontro contra o Manchester City, mantendo a equipe na disputa pelo título. E agora, mais uma vez, o sérvio vai deixando sua marca de forma inesperada. Em um time que conta, atualmente, com Diego Costa, Eden Hazard, Cesc Fàbregas, Oscar e Willian, quem apostaria que o decisivo gol que colocou a equipe na final da Capital One Cup 2014-2015 sairia da cabeça de Ivanovic?

Longe das câmeras, dos microfones e dos holofotes, o jogador de 30 anos trilha uma trajetória irretocável no Chelsea. Conhecido por sua confiabilidade, trabalho duro e concentração, o atleta demonstra uma pulsação sempre especial pelo clube. Sua seriedade, traduzida pelas poucas palavras e pelo jogo duro, mas, via de regra, leal, impressiona muitos torcedores e sobretudo seu treinador, que por vezes deixou evidente sua admiração pelo atleta, tentando, inclusive, levá-lo para o Real Madrid em seu período como comandante merengue.

View image | gettyimages.com I Em 2012, Ivanovic comemorou o título da Champions com Drogba

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Segundo jogador titular com mais tempo de casa (atrás apenas de ninguém menos que John Terry), no início da temporada, após o triunfo contra o Leicester City, viu Mou derreter-se por seu futebol:

“Ele tem sido imenso. Ivanovic é forte indo à frente e é forte defensivamente. Penso que espero isso dele porque ele um dos membros de nossos dias importantes, pelo ponto de vista mental ele pertence a essa base forte. Eu não sei se ele recebe os créditos que merece, mas não penso que ele se preocupa muito com isso. (…) Isso não é um problema e por muitos anos ele tem atuado no mais alto nível,” disse em entrevista coletiva.

Fiável, Branislav Ivanovic tem demonstrado ao longo dos últimos sete anos que, apesar de na maior parte das vezes vagar pelos cantos menos lembrados do campo, permanecendo muitas vezes à margem do sucesso da equipe, é um grande exemplo de trabalho duro e entrega. Sua predisposição por aparecer em momentos-chave parece uma recompensa, o prêmio para aquele que vaga nas sombras e por vezes encontra a luz, o coadjuvante que também é herói.

Atualização: 17/02/2015

Mais uma vez, Branislav Ivanovic mostra sua veia heroica. Após o Chelsea vir sofrendo pressão do PSG, com Courtois operando alguns milagres em cabeçadas de Cavani e Matuidi, o lateral direito sérvio marca mais um gol que tem tudo para entrar no hall de tentos decisivos em prol dos Blues:

https://www.youtube.com/watch?v=YcsPKQR9Nkg

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.