FPF, Arena PE e Náutico: arbitrariedade e dependência

Relação dos clubes pernambucanos com a Arena vem dando ensejo ao autoritarismo da FPF. (Foto: Pedro Galindo)

Relação dos clubes pernambucanos com a Arena vem dando ensejo ao autoritarismo da FPF. (Foto: Pedro Galindo)

A última semana de janeiro vem sendo dominada por um único assunto no futebol pernambucano. A atribulada relação entre Náutico e Arena Pernambuco viveu mais um episódio de conflito, com a intenção de Sport e Santa Cruz de fazer do Timbu visitante no estádio em que costuma mandar seus jogos. E a crise expôs muito da atual relação de forças entre os três grandes da capital, a administração do moderno estádio e a Federação.

De um lado, o poder econômico do Consórcio Arena PE que, enquanto vai levando uma relação atribulada com os alvirrubros, vai conseguindo se tornar casa também para tricolores e rubro-negros. Do outro, a vocação monocrática de Evandro Carvalho, presidente da FPF, que mais uma vez mostrou que não liga para nada além do que seja “oportuno” – no seu entendimento – para o estabelecimento da “ordem” e os interesses da federação.

Divergências…
Após os grandes públicos que Sport e Santa Cruz conseguiram atrair nos para a Arena em 2014, houve um interesse natural dos dois em continuar mandando jogos em São Lourenço da Mata em 2015 – inclusive contra o Náutico, que ao menos em tese, é o dono da casa. A ideia não agradou nada à diretoria alvirrubra, que inicialmente alegou a configuração de inversão de mando de campo. Mas foi tudo jogo de cena: logo ficou evidente que o que estava em xeque era o orgulho timbu. E um aspecto importante do contrato entre o clube e o consórcio.

Com a Taça Ariano Suassuna, Sport usou muito do potencial da Arena (Foto: Reprodução/Instagram Oficial do Sport)

Com a Taça Ariano Suassuna, Sport usou muito do potencial da Arena (Foto: Reprodução/Instagram Oficial do Sport)

Quando acertou sua mudança para o novo estádio, o Náutico estabeleceu com a Arena uma condição: nenhum outro clube poderia fechar com o consórcio um contrato mais vantajoso do que o seu. Mas ao ver que Sport e Santa estavam conseguindo ter experiências positivas mandando apenas partidas isoladas em São Lourenço, começou a desejar uma revisão do que havia sido combinado com o parceiro. Sentimento que culminou com um pedido de vistas dos contratos dos rivais, o que foi aceito pela diretoria tricolor e prontamente negado pelo Leão.

A assessoria de imprensa do Consórcio Arena PE, por sua vez, também informou que não vai abrir os contratos. Tudo em função de uma cláusula de confidencialidade que existe nos dois. Além disso, alegou que vê dificuldades em mensurar qual contrato é mais vantajoso. De fato, é complicado comparar termos tão distintos.

Com o Timbu, a vantagem é a estabilidade de um acordo de 30 anos que vem praticamente sustentando o clube, sem grandes contrapartidas. Já com Santa e Sport, a liberdade de poder escolher jogos pontuais, com maior apelo. Modelos diferentes, fechados em circunstâncias diversas. Mas o Náutico, insatisfeito, seguiu pressionando. Até que a Federação resolveu intervir para resolver a celeuma. Convocou uma reunião extraordinária do Conselho Arbitral em que, teoricamente, só uma decisão unânime de todos os clubes poderia validar, ou não, as pretensões tricolores e rubro-negras. Ficou na teoria.

… e “ordem”!
Doze clubes votaram. Onze foram a favor de Sport e Santa. O Náutico foi contra, o que seria suficiente para vetar a ideia. Mas assim como convocou a reunião do Conselho Arbitral e definiu suas regras, Evandro Carvalho simplesmente ignorou o veto alvirrubro e confirmou as partidas na Arena. Mais: para isso, vai alterar o regulamento do Estadual, em andamento desde dezembro – algo proibido pelo Estatuto do Torcedor. Só que Pernambuco é um estado onde o entendimento do presidente da FPF vale mais do que qualquer regra ou lei.

Em nome da "ordem", Evandro Carvalho, ao centro, ignorou a votação da reunião do Conselho Técnico da FPF (Foto: Divulgação/FPF)

Em nome da “ordem”, Evandro Carvalho, ao centro, ignorou a votação da reunião do Conselho Técnico da FPF (Foto: Divulgação/FPF)

Segundo o estatuto da Federação Pernambucana de Futebol, o dirigente está investido de poderes mais do que suficientes para modificar o que ele julgar pertinente nos regulamentos das competições organizadas no estado. É o que diz o artigo 39, em seu inciso I:

Art. 39 – Ao Presidente, além das demais atribuições previstas nestes Estatutos e na legislação desportiva, compete:

I. Tomar decisão julgada, no seu entendimento, oportuna à ordem e aos interesses da FEDERAÇÃO, inclusive nos casos omissos;

Com base nessa prerrogativa, Evandro Carvalho está em vias de publicar o Regulamento Geral de Competições (RGC) de 2015, que deve entrar em vigência imediatamente, revogando o RGC-2013, que norteou todo o primeiro tuno do Pernambucano até então. O novo documento tira dos clubes e outorga à Federação a responsabilidade de definir os mandos de campo no Estadual. E deixa o Náutico sem argumentos para prosseguir em seu pleito. Aos dirigentes alvirrubros, restou colocar o rabo entre as pernas, se recusar a fazer maiores comentários e desejar “boa sorte”, em declaração ao Superesportes.

Dependência
Desde o início da crise, no entanto, a luta do Náutico era para lá de inglória. Afinal, é complicado ser questionador em uma relação de forças tão desigual. A Arena já pagou para o Timbu a construção de um hotel no CT Wilson Campos e vem bancando, com repasses de R$ 500 mil mensais, a sobrevivência alvirrubra. Nenhuma outra fonte de receita do clube tem tanto peso, nem de longe.

Além disso, mandar jogos em São Lourenço significa não utilizar os Aflitos, evitando custos como segurança e iluminação. Ainda assim, no discurso da atual diretoria alvirrubra, a Arena parece mais vista como problema. A realidade, no entanto, mostra exatamente o oposto. E por isso, prevaleceram o poder econômico do consórcio e a pressão política de Evandro Carvalho, que agora está investido da competência para definir todos os mandos de campo no Estadual.

Provavelmente, muita água ainda vai rolar. Pois caso o regulamento do Pernambucano mude com a competição em curso, a Federação estará desafiando as leis – apesar de não ser nada que a entidade não já tenha feito antes. “Ele vai terminar podendo ser questionado. Tanto pelos clubes, na Justiça Desportiva, quanto por qualquer torcedor, por causa do Estatuto. Ele está modificando o regulamento com a competição em andamento”, contou Fred Dias, especialista em direito desportivo, ao Superesportes. Ou seja, a qualquer momento o Náutico ou qualquer torcedor pode contestar a modificação.

Mas o que o Timbu precisa mesmo é virar a página dos Aflitos e trabalhar para se adaptar à Arena. Um estádio administrado por um consórcio que, acima de tudo, precisa dar lucro para que a sua conta feche sem precisar do dinheiro do contribuinte pernambucano. Sport e Santa Cruz estão fazendo sua parte, levando cada vez mais partidas para São Lourenço da Mata, acostumando suas torcidas ao clima da arena e até preparando o terreno para a modernização de suas próprias casas. O Náutico também tem que trabalhar nesse sentido, para se fortalecer antes de levantar novos questionamentos.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.