O injustiçado

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás

A premiação da FIFA que consagrou Cristiano Ronaldo teve seu lado obscuro. Como é frequente no evento, sempre há as injustiças cometidas pela entidade. Muitos criticaram as presenças de Thiago Silva, David Luiz e Andrés Iniesta na seleção do ano e o título de melhor treinador ao alemão Joaquin Löw. Talvez o nome que deveria estar no lugar do brilhante meio-campista espanhol (mas de ano apagado com Barcelona e Espanha) era o do também brilhante (e de ano brilhante, é bom mencionar) Luka Modric.

https://www.youtube.com/watch?v=jYYlndeUpAI

Modric chegou ao Real Madrid em julho de 2012, após boas temporadas pelo Tottenham. Pedido por José Mourinho, o croata, no entanto, não foi tão aproveitado quanto o esperado pelo treinador português. Conservador em certos contextos, Mourinho não fez questão de modificar a dupla de volantes formada por Xabi Alonso e Khedira para colocá-lo entre os titulares. Mais à frente, na linha dos três meias, Özil era intocável como camisa 10, centralizado no auxílio ao centroavante.

Sua primeira temporada no futebol espanhol, portanto, foi nota 6. Os lampejos, como o gol marcado em Old Trafford contra o Manchester United na Liga dos Campeões, foram significantes e deixaram no ar a sua qualidade.

Faltava um treinador para aproveitá-las. E ele veio. Demitido, José Mourinho deu lugar ao experiente e vencedor Carlo Ancelotti. A chegada do italiano resultou num novo rumo na carreira de Modric.

Desde o início, Carletto, acostumado a atribuir papéis principais em suas equipes a jogadores da estirpe do croata, fez questão de ressaltar a importância que o volante teria em seu novo projeto. Não à toa, montou o meio-campo madridista em torno de Modric. Uma aposta certeira. O 4-2-3-1 da época de Mou foi deixado de lado pelo 4-3-3 e o 4-4-2. No começo, Modric partia do vértice esquerdo do triângulo, com Khedira pela direita e Xabi Alonso à frente da defesa.

Com mais liberdade para avançar, o seu “um contra um” destacado por Ancelotti durante as coletivas da pré-temporada permitiu ao Real Madrid quebrar as linhas de compactação dos adversários. Porém, a lesão de Khedira o fez ser deslocado para onde viria sua melhor versão. No vértice direito, ganhou mais responsabilidade defensiva e de organização. Bastaram poucos minutos para perceber que ele, enfim, era protagonista e tinha peso sob o jogo merengue. Além do mais, indiretamente, tornou possível o recuo de Di María ao meio e o crescimento de Xabi Alonso. Foi o período em que Ancelotti, que começava a ser criticado por imprensa e torcida, virava de fase e caminhava rumo às taças.

A temporada de Modric foi culminada com as subestimadas exibições individuais nos confrontos contra o Bayern de Munich. Quando muitos tiveram um pé atrás sobre o que aconteceria quando o meio-campo do Real Madrid enfrentasse o meio-campo do time bávaro, Luka foi o grande nome dos duelos no setor. Para o Bayern de Guardiola, o croata foi um sério problema. A filosofia de jogo do catalão, como todos sabemos, inclui o avanço das linhas de forma intensa e rápida para recuperar a bola o mais cedo possível a fim de ter a posse e construir ataques.

A capacidade do madridista de girar sob pressão, capitalizar minutos essenciais com a pelota e verticalizá-la num momento crucial quebraram o planejamento de Pep, que se viu obrigado, nos dois duelos, a trocar um de seus homens de meio-campo por Javi Martínez para tentar contê-lo. Guardiola não falou sobre, mas o croata, possivelmente, foi o responsável por atiçar o pragmatismo de um treinador conhecido pela brilhantez num momento tão importante na Liga dos Campeões. Numa analogia à la Klopp, Modric é a orquestra e o heavy metal em um só jogador.

As últimas derrotas do Real Madrid na atual temporada, para Valencia (principalmente) e Atlético de Madrid, deixaram claro a falta que o camisa 19 faz a essa equipe. Com Kroos sobrecarregado, a saída de bola blanca, em determinados momentos, foi presa fácil aos rivais. Faltou alguém para acalmar e tirar os comandados de Ancelotti do cenário de desconforto.

Para a FIFA, Modric não teve desempenho grande o suficiente (um argumento que tentei formular para justificar a ausência do croata sob a visão de Joseph Blatter e cia) para fazer parte da seleção de 2014 e muito menos para estar entre os 23 melhores do mundo. Não importa. Seu dinâmico e plástico estilo foi responsável por condicionar a temporada merengue.

Moralmente, terminou a campanha como o melhor meio-campista de 2013/2014 na visão deste que vos escreve. Acima de tudo, suas atuações na Liga Espanhola e na UCL o fizeram entrar na galeria de heróis do Real Madrid. Pep Guardiola que o diga.

https://www.youtube.com/watch?v=Qqcck1xnz2I

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.