O Olimpia que conquistou o continente e o mundo

  • por Gustavo Ribeiro
  • 5 Anos atrás
Foto: Club Olimpia - Jogadores erguendo a taça

Foto: Club Olimpia – Jogadores erguendo a taça

Nas primeiras 19 edições da Copa Libertadores, era incontestável o domínio de Brasil, Uruguai e Argentina na conquista de títulos. Olimpia, Universitários, Colo Colo e Unión Española tentaram acabar com essa hegemonia, mas todos falharam. Coube ao futebol paraguaio, mais precisamente com o Olimpia, em 1979, roubar o protagonismo e entrar no rol de campeões do torneio mais importante do continente.

O CAMPEÃO COMEÇA A SER MOLDADO

Na maioria das vezes, um time campeão começa a surgir muito antes de levantar a taça. O Olimpia campeão da América começou a ser construído em 1976, quando Osvaldo Domínguez foi nomeado novo presidente. Luis Torres, um dos craques do time, havia chegado no ano anterior e em 76 chegaram Hugo Talavera, Pedro Alcides Bareiro, Julio Díaz, Mario Ricardo Berón, e Silverio Troche. Em 77, Carlos Kiese e Enrique Villalba voltaram de empréstimo junto ao Nacional, enquanto Alicio Solalinde, ao Libertad. Nesse período, nas categorias de base do clube, nomes como Rogelio Delgado e Ever Hugo Almeida se destacaram.

Em 1978, Luis Alberto Cubilla foi contratado para assumir o comando técnico e logo em sua primeira temporada levou o time à conquista do Campeonato Paraguaio, o que deu direito ao time disputar a Libertadores do ano seguinte. O destaque daqueleelenco foi o atacante Enrique Villalba, artilheiro do nacional com 10 gols.

INICIA-SE A CAMINHADA

Chegou 1979. O sorteio da Libertadores colocou o Olimpia no Grupo 2, junto com Bolívar (atual campeão boliviano), Sol de América (vice-campão paraguaio) e Jorge Wilsterman (vice-campão boliviano). A maior dificuldade seria contra os rivais bolivianos, pois teria que superar a altitude.

A estreia aconteceu em 23 de março contra o Sol de América, com uma vitória por 2×1. A escalação teve Ever Hugo Almeida no gol; Paredes, Flaminio, Sosa e Piazza na defesa; Talavera, Kiese e Domingo Samaniego no meio-campo; e Luis Torres, Isasi, Villalba e Eduardo Ortiz no ataque. Os gols foram de Talavera e Enrique Villalba.

Na segunda partida, o Decano foi até Cochabamba enfrentar o Jorge Wilsterman. O maior adversário contra o atual vice campeão boliviano seria a altitude, já que a cidade ficava a 2.560 metros do nível do mar. Mas a qualidade técnica prevaleceu e o time paraguaio venceu por 2×0. Enfurecidos, os torcedores locais invadiram o campo e a o jogo teve que ser suspendido a 19 minutos do final.

Na terceira rodada, o Olimpia conheceu sua primeira derrota. Além de enfrentar o bom time do Bolívar, tinha a altitude de La Paz como adversária. A academia tinha em seu time nomes como Jiménez, Borja e os atacantes Carlos Espínola e Jesús Reynaldo. A peleja terminou 2×1 para os donos da casa.

Nas duas partidas seguintes, contra Jorge Wilsterman e Sol de América, o Olimpia venceu e chegou na última rodada brigando pela classificação, justamente contra o Bolívar, o único que conseguiu vencê-lo até então . Como naquela época uma vitória valia dois pontos, o Decano chegou na última rodada com oito pontos, enquanto o Bolívar, com suas quatro vitórias e um empate, chegou na liderança com nove.

A partida decisiva foi disputada no dia 18 de abril de 1979, no Defensores del Chaco, em Assunção. Sem a altitude para interferir, os comandados de Cubilla não encontraram dificuldades para impor um contundente 3×0 e garantir a classificação para a fase seguinte. Os gols foram de Evaristo Isasi (2x) e Aquino.

A classificação para a segunda fase do torneio naquele ano também foi um alívio, já que não havia conseguido ao menos passar da primeira fase nas últimas seis edições de Copa Libertadores em que o clube havia participado,

SEGUNDA FASE

Passada a tensa primeira fase, com uma classificação garantida apenas na última rodada, as atenções foram voltadas para a semifinal. Eram dois grupos com três times cada, formados pelos primeiros colocados de cada grupo da primeira fase, além do campeão da edição anterior, que na ocasião era o Boca Juniors.

O Olimpia caiu no Grupo B, que além Palestino, contava com Guarani de Campinas, que conseguiu sua classificação ao ser o primeiro colocado no Grupo 3, que também tinha o Palmeiras. A estreia do Decano foi justamente contra a equipe brasileira, que mesmo com jogadores como Careca, Zenon e Zé Carlos não suportou a pressão no Defensores del Chaco e caiu por 2×1.

Com mais duas vitórias (2×0 e 3×0 sobre o Palestino) e um empate (1×1 em Campinas contra o Guarani), o Olimpia terminou na primeira colocação no Grupo B com sete pontos e já estava garantido na final. O adversário saiu do Grupo A, em que o Boca Juniors se classificou superando Peñarol e Independiente.

A FINAL

Em sua segunda final, o Olimpia ainda tentava superar o trauma de 1960, quando, na primeira edição da competição, caiu diante do Peñarol. Mas agora, com um time com mais talento e experiente, tinha que vencer o atual bicampeão Boca Juniors, Além dos dois títulos continentais em sequência, a equipe xeneize havia conquistado o Mundial de Interclubes de 1977, vencendo o Borussia Mönchengladbach,. A base do time era a mesma em 1979.

O primeiro jogo foi disputado em 22 de julho, em Assunção, no Defensores del Chaco. Cubilla manteve a base do time que chegou na final, entrando apenas “Toto” Jiménez no lugar de Flaminio na zaga. O primeiro gol saiu logo aos dos minutos da primeira etapa, com Aquino aproveitando uma confusão dentro da área e fuzilando para o gol de Hugo Gatti: 1×0 e o Olimpia fazia cair por terra o favoritismo que era dado ao Boca Juniors.

Aproveitando o apoio da torcida, que lotava o Defensores del Chaco, o Olimpia pressionava, e não demorou muito para sair o segundo gol. Aos 27 minutos, Piazza cobrou falta rasteira e o goleiro Gatti, em um frango clássico, viu a bola passar entre as suas pernas: 2×0 no placar e o Olimpia levou uma enorme vantagem para Buenos Aires.

A grande final foi disputada no dia 27, em La Bombonera. A torcida xeneize lotou o estádio, acreditando que a base do time que venceu o Mundial Interclubes dois anos antes teria condições de reverter o resultado. Mas os argentinos não esperavam encontrar um Almeida inspirado e fechando o gol, além de Paredes e Jiménez dificultando ao máximo a vida dos atacantes. O jogo terminou 0x0 e o Olimpia conquistava, naquela noite, a primeira de suas três taças de campeão da Libertadores.

ATRAVESSANDO AS FRONTEIRAS DO CONTINENTE

Com a conquista da Copa Libertadores, o Olimpia se classificou para a disputa da Copa Interamericana daquele ano contra o Club Deportivo FAS, de El Salavador. A partida de ida foi disputada no estádio Cuscatlán, na cidade de San Salvador, e terminou empatada em 3×3. Na volta, no Defensores del Chaco, o Olimpia não teve piedade e aplicou um sonoro 5×0, com destaque para o atacante Miguel Michelagnoli, autor de três gols.

Mas a cereja do bolo ainda estava por vir. Em novembro, o Olimpia viajou até a Suécia para enfrentar o Malmo, que ganhou o direito de disputar o Intercontinental, já que o campeão europeu Nottingham Forest desistiu de jogar a competição. No jogo de ida, no Malmö Stadion, um Olimpia com algumas modificações em relação ao time que conquistou a Libertadores venceu por 1×0.

Na volta, disputada apenas no ano seguinte, em Assunção, no Defensores del Chaco, o Olimpia venceu por 2×1, com gols de Solalinde e Michelagnoli. Foi o ápice de um time que, longe dos centros badalados do futebol sul-americano, conseguiu conquistar o continente e o mundo.

JOGADORES DESTAQUES:

Luis Torres:

O ano de 1979 foi especial para Luis Torres, que, além de conquistar uma inédita Copa Libertadores ao futebol paraguaio pelo Olimpia, foi um dos integrantes da seleção albirroja que conquistou a Copa América naquele ano. Torres começou sua carreira no Nacional, mas em 1975 se transferiu para o Olimpia. Habilidoso e com uma técnica acima da média, só foi titular na conquista da Libertadores após a lesão de Domingo Samaniego no primeiro jogo da competição. Junto com Talavera e Kiese, formou um dos melhores meios que o torcedores Decano já viu brilhar em Assunción.

Hugo Tavalera:

Todo grande time que se preze tem de ter um dez, um meia articulador, organizador, o cérebro do time. No Olimpia, esse cara era Hugo Tavalera. Contrato em 1976 junto ao rival Cerro Porteño, pelo qual havia conquistado um tricampeonato nacional ((1972, 73 e 74), Tavalera chegou como uma dos grandes reforços do clube na época e não demorou muito para se tornar ídolo. Mesmo sendo meia, foi um dos artilheiros do time com quatro gols marcados. Com passagens pelo futebol argentino, onde defendeu os rivais Newell’s e Rosario Central, Tavaelera também defendeu a seleção paraguaia, tendo como maior feito a conquista da Copa América de 1979. A curiosidade é que, mesmo sendo um dos craques do time, ficou de fora da final porque era um dos líderes da Agremiación de Futbolistas, que tinha sido criada naquele ano e buscava reivindicar melhores condições de trabalho aos atletas.

Enrique Villalba:

Vice-artilheiro na conquista daquela Libertadores com cinco gols, Enrique Villalba viveu em 1979 o melhor ano de sua carreira. Villalba retornou ao clube em 1977, após ser emprestado ao Nacional, e começou a ganhar espaço mesmo no ano seguinte, após a chegada de Cubilla para o comando técnico. Atacante forte, mas com velocidade e oportunismo, rodou por Anderlech, River Plate, Tecos de Guadalajara e Cerro Porteño, encerrando a carreira neste último, em 1986.

Evaristo Isasi:

Com seis gols marcados, Evaristo Isasi foi o artilheiro do Olimpia na conquista da Libertadores. Nascido em 1955, começou a carreira no General Artigas, passou pelo Atlético Juventud e General Caballero de Zeballos Cué, até chegar ao Olimpia, em 1974, de onde não saiu mais. Também defendeu as cores da seleção paraguaia, participando da conquista da Copa América de 79 e disputando o Mundial de 86.

Ever Hugo Almeida:

Nascido em Salto, no Uruguai, Ever Hugo Almeida construiu a maior parte de sua carreira no futebol paraguaio. Após começar no Atlético Cerro, se transferiu para o Guaraní em 1971 e depois ao Olimpia, em 1973, e por lá ficou até o início dos anos 90. Mesmo sendo alto, tinha um reflexo invejável e até hoje é considerado o maior goleiro da história do Olimpia. Pelo Decano foram duas Copas Libertadores (1979 e 1990), uma Copa Interamericana e um Intercontinental (ambos em 79), uma Supercopa e uma Recopa, em 1990, além de 10 campeonatos paraguaios.

Comentários

Projeto de jornalista, mineiro, 20 anos. Viu que não tinha muito futuro dentro das quatro linhas e resolveu trabalhar dando seus pitacos acompanhando tudo relacionado ao futebol, principalmente quando a pelota rola nas canchas dos nossos vizinhos sul-americanos. Admirador do "Toco y me voy" argentino, também escreve no Sudaca FC e tem Riquelme e Alex como maiores ídolos.