Quando a Seleção deixou de ser prioridade?

Fotos: Rafael Ribeiro/Divulgação CBF

Fotos: Rafael Ribeiro/Divulgação CBF

Chocou muita gente o anúncio das transferências de Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart, protagonistas do Cruzeiro que conquistou os dois últimos títulos nacionais e que vinham figurando nas últimas convocações de Dunga, e Diego Tardelli, atual dono da camisa 9 da Seleção, para o futebol dos Emirados Árabes e da China, respectivamente. Destinos que, outrora, só seduziam jogadores em fim de carreira. Mas que hoje mostram cada vez mais capacidade de, com seus cifrões, convencer talentos de qualquer idade – mesmo aqueles em ascensão.

Esse novo fluxo de mercado é duplamente lamentável para o futebol nacional. Primeiro, porque – mais uma vez – está se constatando um velho problema: os clubes do país seguem enfrentando muita dificuldade para manter seus principais jogadores. E depois, porque revela ao torcedor uma faceta desanimadora de uma geração de atletas que cresceu num contexto extremamente mercantilizado. Filhos de um futebol em que o desafio de aprender, se aprimorar e superar barreiras fica em segundo plano diante da busca (sua e de seus empresários) pela chamada “independência financeira”. Realidade que vem colocando em xeque a importância de nada menos do que Seleção – ao menos teoricamente, a principal instituição do esporte no Brasil.

(Independência financeira entre aspas, já que não estamos falando de profissionais que já não tenham uma receita mensal superior a de esmagadora parcela da população brasileira e, portanto, uma condição privilegiadíssima).

Obviamente, há de se respeitar a escolha de cada um deles. Éverton Ribeiro, por exemplo, vai ganhar um salário de mais de R$ 1 milhão mensal, num contrato de quatro temporadas. Tempo mais do que suficiente para fazer um belo pé de meia e garantir o futuro de pelo menos duas gerações de sua família. E se a oferta foi financeiramente muito boa para os jogadores, também o foi para os clubes. Com a venda de seus dois craques, o Cruzeiro embolsou quase R$ 60 milhões. Ambas as negociações, portanto, foram também excelentes para a Raposa, que perde seus dois craques, mas enche seus cofres e pode trazer reposições de qualidade. Enfim: se foi boa para todas as partes envolvidas, não há o que discutir. Só o que lamentar.

Éverton topou quatro anos no ostracismo de um futebol semi-profissional. (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Éverton topou quatro anos no ostracismo de um futebol semi-profissional. (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Ao optar pelo futebol asiático, os três praticamente deram adeus à condição de selecionáveis, que todos eles só alcançaram depois de muita ralação, principalmente nos últimos dois anos. E aqui não cabe a ilusão de achar que Dunga vai continuar acompanhando o desempenho deles em campeonatos de baixíssimo nível técnico. A não ser que o treinador mostre uma boa vontade acima da média, eles dificilmente voltarão a ser convocados enquanto não voltarem às competições de elite do futebol mundial. Ainda mais quando todos sabem que estão à disposição do comandante outras opções de mesma ou maior qualidade, brilhando semanalmente nas principais ligas europeias.

Essa constatação é facilmente verificável para qualquer fã de futebol bem jogado. Quem gosta de assistir às competições do Velho Continente sabe como é difícil organizar, num fim de semana, um cronograma que concilie o máximo de partidas importantes. Dunga, que tem a obrigação de monitorar os melhores atletas brasileiros, certamente não vai perder seu tempo assistindo ao campeonato chinês enquanto há pelo menos uma dezena de ligas mais importantes, mais fortes tecnicamente e com mais brasileiros do que China ou Emirados Árabes, por exemplo.

Situação financeira do Galo forçou a venda de Tardelli. E a Seleção vê seu camisa 9 ir para uma colônia de férias. (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Situação financeira do Galo forçou a venda de Tardelli. E a Seleção vê seu camisa 9 ir para uma colônia de férias. (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Sendo assim, só é possível concluir que a possibilidade de se tornar figura regular na seleção pentacampeã mundial pesou pouco, ou nada, na decisão de três dos principais talentos em atuação no país. Atletas de alto rendimento que abdicaram de jogar futebol movidos pelo desafio de se superar sempre. E que passarão a treinar em ritmo bastante reduzido, entrando em campo apenas para desfilar sua classe contra jogadores semi-profissionais. Com nenhuma outra expectativa além de ver seu extrato bancário engordar, mês a mês. O que não é pouco, mas também não é tudo. Todos eles certamente tiveram seus motivos e, sempre é bom repetir, há de se respeitar. Mas ao tomar essa decisão, optaram também por jogar fora anos preciosos de uma carreira curta, desprezando um sonho que já foi de muitos, dos piores peladeiros aos melhores profissionais: vestir a mítica camisa amarelinha.

Cultura

Esse desprezo pode ser visto como uma consequência de uma somatória de valores amplamente difundidos na cultura brasileira. É o velho confronto entre o desafio de se superar fazendo o que se ama ou escolher o que “dá dinheiro”, que muitos devem ter vivido em algum momento da vida. Só que, no caso desses três jogadores, não se pode dizer que não havia outra opção financeiramente viável – eles continuariam recebendo um senhor salário se tivessem optado por continuar em Belo Horizonte ou por ir ao futebol europeu, onde também tinham mercado.

Fechando com os asiáticos, os três tomaram o rumo da extrema segurança econômica. Mas se esqueceram de que o dinheiro nem sempre é suficiente para extrair de um jogador o máximo de motivação – tudo o que ele precisa para trabalhar em alto nível. Afinal, estamos falando de um esporte, cuja natureza é de competição e desafio. É claro que o dinheiro já virou elemento central do jogo, mas não pode ser levado em conta tão isoladamente.

Protagonismo no Goiás, consagração no Cruzeiro. Goulart trocou as atenções de Dunga pelos milhões da China. (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Protagonismo no Goiás, consagração no Cruzeiro. Goulart trocou as atenções de Dunga pelos milhões da China. (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

O problema é que isso vem acontecendo com frequência cada vez maior, já que geralmente está em jogo não só a vida financeira do atleta e sua família, mas também o ganha-pão de empresários que recebem vultosas comissões quando fecham uma transferência desse porte. Assim, pressionados pelas necessidades suas e de seus próximos, em detrimento de sua própria evolução técnica, dos sonhos de atuar em grandes ligas e na Seleção, os três principais craques das Minas Gerais renegaram o futebol de alto rendimento e foram tirar férias (muito bem) remuneradas no “mundo asiático”.

Instituição abalada

Outra forma de analisar essa desânimo demonstrado por alguns jogadores diante da oportunidade de vestir a camisa amarelinha tem menos a ver com a motivação de cada um, e está mais relacionada ao descrédito que vem atingindo a própria Seleção ao longo dos últimos anos. Ao que parece, as denúncias de corrupção, os conflitos de calendário e outros erros de gestão vêm distanciando essa centenária instituição não só do torcedor, mas também dos próprios atletas profissionais. Para muitos deles, uma convocação é mais comemorada enquanto meio – instrumento de valorização para futuras transferências – do que como sonho realizado, finalidade em si. E quando a proposta esperada chega a esses que não colocam a Seleção em primeiro plano, a grana fala mais alto e o dilema evapora de vez.

Difícil dizer quando essa cultura de desprezo começou a se consolidar, ou em que medida essas duas hipóteses podem estar corretas. É bem provável, inclusive, que elas tenham uma conexão umbilical: afinal, é a omissão da CBF para com a formação de atletas que permite que esses jovens sejam cada vez mais assediados por agentes mais preocupados com seus lucros do que com a carreira de seus clientes. O certo é que é preciso dar às promessas do nosso futebol a noção de que a tal “independência financeira” pode ser perseguida ao mesmo tempo em que se persegue sonhos, alto rendimento e competitividade no mais alto nível do esporte. Porque uma Seleção de alto padrão precisa ser vista pelos seus selecionáveis como sonho, obrigação e momento de apogeu, e não apenas uma simples opção.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.