Religião, Futebol e Fanatismo

  • por Marcelo Fadul
  • 6 Anos atrás

Se você faz parte da grade maioria que acredita que futebol e religião não se discutem, então é melhor parar sua leitura por aqui. Neste texto, vamos falar dos dois temas e, sim, discuti-los, separadamente, mas reunindo suas semelhanças.

Dias atrás, dois muçulmanos fundamentalistas reacenderam o medo na população pelos seus atos terroristas, que, de tempos em tempos, são promovidos no lado ocidental do mundo. O intuito é nos lembrar de sua capacidade de semear o medo e implantar temor e insegurança em nossas vidas. Desta vez, o ponto geográfico escolhido para os ataques foi a capital francesa, e o alvo cartunistas. Morreram célebres e corajosos cartunistas que, em tom de humor, empregavam a fundo o que entendemos como “liberdade de imprensa” e, principalmente, a “liberdade de expressão”, um fator determinante para uma sociedade democrática.

Resultado final: 12 mortes, sendo uma delas, inclusive, registrada em vídeo que demonstra o grau de frieza e crueldade dos terroristas. O fanatismo religioso parece ser o único conhecimento destes homens, que creem cegamente em ensinamentos milenares e imutáveis como caminho único para alcançar o Paraíso.

Sem dúvida, um triste momento. Mas onde entra o nosso futebol? Guardada as devidas proporções, o fanatismo não é nem será exclusividade religiosa, pois há muitos fanáticos inseridos nas torcidas. Vale dizer que também não é exclusividade das torcidas organizadas – eles podem ser vistos em bares, entre vizinhos, colegas de trabalho, familiares.

Se ainda não está convencido na comparação dos atentados em Paris que mataram doze pessoas com as brigas entre torcidas, então aí vai um trecho da reportagem de Carolina Oliveira Castro (O Globo) sobre o futebol “brazuca”:


“O Brasil encerra 2014, mais uma vez, como a nação que mais mata por causa de futebol em todo o planeta. Este ano, foram 18 mortes comprovadamente motivadas por rivalidades clubísticas, como atestam números oficiais tabulados pelo professor e sociólogo Mauricio Murad. Seis outras ainda são investigadas. Segundo o comandante do Grupamento Especial de Policiamento em Estádios (Gepe), do Rio, tenente-coronel João Fiorentini, a previsão para 2015 é de mais violência.”


Em 2013, os números foram ainda mais alarmantes, com 30 mortes comprovadamente relacionadas ao futebol, sendo a maioria por tiro e espancamento. É importante deixar claro que o uso da palavra “comprovadamente” indica que se tratam de dados oficiais, fornecidos pelo Estado. Imagine, portanto, quão altos serão os números extraoficiais e quantas mortes ligadas ao futebol não esclarecidas podem ter existido ao longo dos anos. De toda forma, somos campeões mundiais de mortes no futebol – sem marcha de milhões na rua, sem volta olímpica, só lágrimas de luto.

https://www.youtube.com/watch?v=Tu-Xp7IyUWw

Há que se fazer uma ressalva: no atentado de Paris, as vítimas eram cartunistas, jornalistas e policiais; a imprensa, a informação e o humor foram o alvo. O objetivo inicial parece ser atestar que não haverá tolerância (também) ao humor atribuído a um símbolo ou uma personalidade sagrada que se refira ao islã. Já as vítimas que produzimos no nosso quintal gramado são, geralmente, pessoas que se dispuseram ao confronto, que estavam ali pelo embate, pelo “matar ou morrer”, com passagens pela polícia e com o fanatismo incrustado em si, à semelhança de seus algozes. Aqui, o objetivo da violência é impor temor e “respeito” àquele que escolheu o outro lado da arquibancada. Aqui, a gente fabrica nosso próprio terrorismo.

O fato a ser notado é que vivemos num mundo onde dizer o que pensa, dizer para quem torce ou desenhar uma charge pode ser sua sentença de morte. Discordar de alguém passou a ser um ato de grande ofensa moral e pode ter como consequência ofensas físicas. Enquanto dissermos que “religião e futebol não se discutem”, no fundo queremos dizer que somos intolerantes e imaturos demais para ouvir uma opinião contrária. Isso deve (e tem) que mudar.

Por fim, a liberdade de um modo geral vem sendo atacada, o extremismo e a violência vem ganhando cada vez mais território. Se o objetivo é celebrar a fé para quem é religioso e torcer com afinco para quem é do futebol, para quê pôr fim na vida do próximo? Por isso, podemos até ser Doentes, mas nunca fanáticos extremistas. #JeSuisCharlie #JeSuisCharlesMiller… E ai de você se discordar de mim.

Comentários

Advogado, auditor do TJD/MG e professor. Atuante do Direito Desportivo e Trabalhista. Amante do futebol e da arte de informar.