A Máquina Bávara de Pep Guardiola

  • por Lucas Sousa
  • 5 Anos atrás

PEPENSADOR

Em seu segundo ano à frente do Bayern de Munique, Pep Guardiola aprimora cada vez mais o estilo de jogo bávaro e, nesta temporada, continua surpreendendo ao mudar alguns jogadores de posição. Alaba, Lewandowski e até Ribéry já passaram por isso com o treinador. Se os três jogavam tão bem nas suas posições de origem, por que mudá-los? Por causa do jogo coletivo, a filosofia que norteia o trabalho de Guardiola.

Basicamente, o catalão adapta o jogador à tática – respeitando as características de cada um, claro. O resultado é uma grande máquina, onde cada jogador é uma engrenagem e todos trabalham para o bom funcionamento do time. Na histórica goleada frente ao Hamburgo por 8 x 0, Pep demonstrou isso.

O Bayern foi a campo no 4-3-3 e teve duas modificações das citadas acima. O lateral esquerdo Alaba foi meio-campista e o atacante Lewandowski ponta pela esquerda. Muller e Götze também poderiam estar nesta lista. Eles não jogaram na posição de origem, mas já estão mais acostumados a ocupar as devidas posições.

Arte: Doentes por Futebol - Formação do time que goleou o Hamburgo

Arte: Doentes por Futebol – Formação do time que goleou o Hamburgo

A coletividade já está presente logo no início da fase ofensiva. Enquanto muitos treinadores deixam a saída de bola a cargo de um jogador, Guardiola divide esta responsabilidade. Basicamente, três homens participam (Rafinha, Schweinsteiger e Alaba) e ela é diferente de acordo com o setor. O brasileiro comanda pelo lado direito, o austríaco pela esquerda e o alemão auxilia os dois.

Pela esquerda, Alaba recua até os zagueiros e libera o lateral Bernat (circulado) para avançar. Essa movimentação já cria a primeira vantagem para o time. Se o adversário do setor acompanhar o lateral esquerdo, Alaba ganha terreno para avançar e acionar um companheiro mais avançado. Se ele for atrapalhar a saída ou tentar a roubada de bola, o espanhol vira opção para o passe.

Foto: Reprodução - Alaba recua até os zagueiros e comanda a saída de bola pela esquerda

Foto: Reprodução – Alaba encosta nos zagueiros e comanda a saída de bola pela esquerda

Do outro lado, os papéis se invertem. Quem faz a saída é o lateral (Rafinha) e quem se manda é o meia. Observe o posicionamento de Gotze (circulado), praticamente na linha dos homens de frente, criando possibilidade de tabelas rápidas entre eles. Cabe ainda outra observação: nem sempre a saída é curta. O Bayern também faz uso da ligação direta e este frame mostra isso. Note como Lewandowski, no canto inferior, sinaliza pedindo o lançamento – e é atendido por Rafinha na sequência do lance.

Foto: Reprodução - Pela direita, Rafinha vem para dentro e faz a saída

Foto: Reprodução – Pela direita, Rafinha vem para dentro e faz a saída

Mas também não é uma ligação direta qualquer. Quase sempre são diagonais e o alvo é um ponta, não o centroavante. Isso representa algumas vantagens para quem ataca. Primeiro, o espaço para receber a bola é maior, assim como as chances dela ser dominada por quem recebe. Segundo, geralmente os laterais são mais baixos em relação aos zagueiros, facilitando uma disputa pelo alto – ainda mais com Lewandowski na pelo lado. É utilização inteligente de jogadas simples.

Por conta das características dos jogadores, o Bayern ataca diferente de acordo com o lado da jogada. O direito é o mais forte e o time costuma forçar bastante o jogo por ali. Robben já está na frente e conta com as subidas de Gotze e Rafinha e a aproximação de Muller. Dessa forma, Guardiola coloca quatro jogadores próximos para desestabilizar a defesa adversária e, a partir disso, faz tudo o que uma defesa odeia: movimentação intensa, tabelas rápidas, ultrapassagens, jogadas individuais e infiltrações. É perigo vindo de todas as direções.

Enquanto isso, Lewandowski faz a diagonal em direção à área e se posiciona como o centroavante que é. A opção por utilizar Muller centralizado e deslocar Lewandowski fica mais clara agora. O alemão é mais dinâmico, mais ágil, mais driblador e trabalha melhor em espaço curto, escolha mais óbvia para fazer toda àquela “bagunça” descrita acima. Por outro lado, o polonês oferece mais poder de fogo e consegue ocupar seu espaço de origem vindo da beirada. Movimentação muito inteligente criada por Pep.

Foto: Reprodução - Bayern coloca quatro jogadores no lado direito para atacar

Foto: Reprodução – Bayern coloca quatro jogadores no lado direito para atacar

Se Lewandowski foi deslocado para o lado esquerdo justamente por não ser tão dinâmico assim, não dá para tentar reproduzir o que é feito do lado direito. Por isso, o ataque pela canhota é diferente. Bernat é um lateral bastante ofensivo e chega muito à frente. Quem o ajuda é justamente um outro lateral, que agora é meia: Alaba.

O austríaco foi um dos melhores laterais do mundo com Jupp Heynckes, mas é tão completo que Guardiola o colocou no meio-campo, atribuindo-lhe mais funções. Entre elas, está ajudar o novo lateral esquerdo nos ataques.

Bernat e Alaba avançam, dão profundidade ao ataque e “empurram” Lewandowski (circulado) para o centro, como um centroavante. Assim, os bávaros têm dois jogadores para fazer a jogada na linha de fundo e mais dois de boa estatura esperando a bola na área (Lewandowski e Muller). Ou seja, o camisa 9 só parte da ponta, mas está quase sempre nas redondezas da área.

Foto: Dobradinha Alaba-Bernat cria muitas jogadas de linha de fundo

Foto: Dobradinha Alaba-Bernat cria muitas jogadas de linha de fundo

Quando o ataque dá errado e a bola é perdida, a ordem é sufocar o adversário logo na sequência, impedindo que ele se organize para tentar atacar. Mas não basta só pressionar o portador da bola, é preciso fechar as linhas de passes próximas e forçar o chutão apressado. Trabalho coletivo que exige muito treinamento para sincronização.

Na imagem abaixo, observe como os três jogadores mais próximos só cercam o homem da bola e as opções de passe mais claras. Com os companheiros marcados, existem duas opções: tentar a jogada individual ou lançar a bola para o ataque. Alaba (o mais distante) está ali para impedir a primeira opção e tentar o bote. No decorrer do lance, o jogador do Hamburgo tentou o passe curto, interceptado por Bernat.

Foto: Reprodução - Pressão intensa no campo de ataque dificulta saída de bola adversária

Foto: Reprodução – Pressão intensa no campo de ataque dificulta saída de bola adversária

Se a pressão no campo de ataque já é intensa, imagina na defesa. Na imagem abaixo, são quatro bávaros cercando o adversário na entrada da área. É quase impossível escapar desse quadrado – e é claro que o Bayern tomou a bola aqui. Também é interessante observar que Muller (número 4), o atacante que, em tese, teria que ficar lá na frente, participa da retomada da posse na entrada da sua área. Mais um indício do futebol coletivo. Todos trabalham em prol do time.

Foto: Reprodução - Cerco ao oponente na entrada da área. Quase impossível escapar

Foto: Reprodução – Cerco ao oponente na entrada da área. Quase impossível escapar

Para fechar, um frame que ilustra a intensa movimentação do ataque alemão. A jogada começa na direita e, quando chega à esquerda, quase todo mundo está fora de posição. Optei por colocar a posição e não o nome do jogador para ficar mais fácil a visualização. É meia passando como lateral, centroavante abrindo como ponta, lateral se apresentando como meia e a defesa do Hamburgo totalmente perdida.

Observe que existem três jogadores do Hamburgo “se marcando” enquanto Alaba e Bernat têm imenso espaço no lado esquerdo. É a bagunça organizada, fruto de muito treinamento.

Foto: Reprodução - Movimentação intensa no ataque bávaro bagunça a defesa adversária

Foto: Reprodução – Movimentação intensa no ataque bávaro bagunça a defesa adversária

O jogo é cada vez mais coletivo e times que entregam a bola para o craque decidir estão fadados ao fracasso. Nesta linha, Guardiola utiliza todos os craques que tem à disposição para criar um megajogo coletivo, como havia feito no Barcelona. Agora, com ainda mais repertório. Tem ligação direta, contra-ataque em velocidade, bola aérea perigosa e um goleiro muito participativo. Desde que haja treino, tudo é possível.

O futebol evoluiu e Guardiola não ficou parado. O homem que conquistou tudo o que podia com os Culés, quer repetir a dose com os Bávaros. Para isso, modifica seu jogo, busca alternativas, mas sem perder a essência da escola holandesa de posse de bola e ofensividade.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.