A regionalização do Campeonato Brasileiro

  • por Rafael Rodrigues
  • 4 Anos atrás

REGIONALIZAÇÃO BRASILEIRÃO

Em 2015, será a quarta vez, desde que começou a ser disputada no sistema de pontos corridos, que a Série B do Campeonato Brasileiro contará com equipes de todas as cinco regiões do país. Esta também será a primeira edição, posterior à outra que tenha sido disputada por pontos corridos, em que o número de participantes de fora dos principais centros futebolísticos – o Sul e o Sudestesupera a quantidade de clubes dessas duas áreas (11 contra 9). Em 2006, o número de clubes das outras regiões (Centro-Oeste, Nordeste e Norte) também foi maior, mas a edição de 2005 da Série B não foi disputada por pontos corridos. 

 

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Enquanto a Série B parece mostrar uma melhor divisão, em termos de regionalização, do futebol brasileiro, a Série A retrata exatamente o contrário. Das 20 equipes que vão jogar a primeira divisão em 2015, apenas duas não fazem parte do eixo Sul-Sudeste: Sport e Goiás. É a primeira vez, desde que a Série A adotou os pontos corridos, em 2003, que as regiões fora do eixo principal do futebol do país vão ser representadas por menos de três clubes.

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Outro aspecto interessante da regionalização causada pelos pontos corridos, além do fato de nenhum clube de fora do Sul e Sudeste ter sido campeão do Brasileirão, é que apenas uma equipe “de fora” conseguiu se classificar, através do Campeonato Brasileiro, para a Libertadores da América. Em 2005, o Goiás terminou a competição em terceiro lugar, conquistando o direito de ser um dos representantes do país no principal torneio da América do Sul, na edição de 2006.

A última vez que um clube do Norte disputou a primeira divisão foi há 10 anos. Em 2005, o Paysandu, tradicional equipe do Pará, terminou a Série A em penúltimo lugar, ficando à frente apenas do Brasiliense, e foi rebaixado para a Segundona.

O sistema de pontos corridos mostrou, desde que foi adotado na Série A (2003) e na Série B (2006), a enorme desigualdade que assola os clubes de futebol do Brasil. Equipes com menor aporte financeiro passaram a não ter tanto espaço nas principais divisões, fazendo com que as épocas em que estas chegavam às fases finais dos campeonatos nacionais pareçam ainda mais distantes. Para quem olha o futebol de hoje é praticamente impossível acreditar que o São Caetano tenha sido vice-campeão por dois anos seguidos do Brasileirão, que Bragantino e Portuguesa também bateram na trave e ficaram com o vice e que o modesto Operário, do Mato Grosso do Sul, já foi terceiro colocado na principal competição do país.

Outra mudança notável na Série B de 2014 e que deve continuar para 2015 é o aumento da dificuldade da competição. Desde 2006, a segunda divisão não se mostrava um grande desafio, dentro de campo, para os chamados 12 gigantes do futebol brasileiro. Atlético Mineiro, em 2006, Corinthians, em 2008, Vasco, em 2009, e Palmeiras, em 2013, não mostraram dificuldades para voltarem à Primeirona com antecipação. Em 2014, o Vasco teve muitos problemas para garantir sua volta à elite, ficando apenas em terceiro lugar. Além da qualidade mostrada por alguns dos adversários tidos como inferiores ao time de São Januário, a equipe sofreu muito desgaste por conta das viagens que realizou durante a competição, com muita reclamação por parte dos atletas.

Um exemplo: nas rodadas 16, 17 e 18 da Série B de 2014, o Vasco jogou, respectivamente, no Rio de Janeiro (no sábado), em Brasília (na terça) e em Juazeiro do Norte (na sexta), totalizando cerca de 2911 quilômetros viajados em apenas 6 dias. Por conta dessa melhor distribuição regional na competição, ela acaba se tornando mais desgastante, atrelando viagens longas e pouco tempo para treinar a maus resultados em campo.

A compra de determinadas partidas por parte das empresas que administram as novas arenas também promete dar fortes dores de cabeça aos grandes que disputarem a Segundona, por conta da distância das viagens. Mesmo sem ter times de Amazonas nas duas primeiras divisões do campeonato nacional, a Arena da Amazônia, por exemplo, foi palco de alguns jogos das competições, pagando a times de menor expressão para que levassem suas partidas para Manaus.

O fato é que, aos poucos, o Brasileirão vai perdendo a sua identidade de campeonato de âmbito nacional, ficando restrito a duas regiões do país, e parece que ninguém realmente se preocupa com isso. O futebol brasileiro vai perdendo muitas de suas equipes mais tradicionais, deixadas no esquecimento, até que sobrem apenas as que tiverem dinheiro para sobreviver.

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Estudante de Jornalismo, carioca e torcedor apaixonado do Vasco da Gama. Trabalha no projeto "Embaixadores da Colina", do próprio Vasco, representando a faculdade ESPM. Sócio e frequentador assíduo de jogos do clube