Anderson, do Grêmio ao Inter

Arte: Doentes por Futebol

Arte: Doentes por Futebol

Jogador de incontestável talento, Anderson se prepara para mais um capítulo de sua acidentada trajetória. Com altos e baixos, lesões e performances de grande calibre, em busca de retomar as rédeas de sua carreira, o atleta optou por retornar ao Brasil, onde sua estrela, tantas vezes posta à prova, pode reaparecer, como demonstra seu percurso, que começou em 2004 e teve como palcos Porto Alegre, Porto, Manchester e Florença.

Início fulminante e rusgas com Mano

O ano de 2004 não traz boas lembranças para o torcedor gremista. Com campanha fraquíssima no Brasileirão, o Tricolor Gaúcho foi rebaixado e reviveu o mesmo pesadelo pelo qual havia passado na década de 90. Apesar disso, o ano trouxe uma esperança para 2005: Anderson. O garoto estreou pelo clube em meio à crise e o curioso é que sua primeira oportunidade foi ganha em função de sua “ousadia”.

Então técnico do Grêmio, Cuca avistou Anderson com dois celulares e brincou com ele: “Já tem dois celulares. Você deve jogar muito.” A resposta? “Eu jogo melhor do que estes que estão aqui.” Dias depois, aos 16 anos, o talentoso prodígio estreou em um Gre-Nal e, apesar da derrota tricolor (3×1), marcou o tento gremista, de falta.

Apesar disso, como no início da carreira do imberbe Ronaldinho, que mais tarde ganharia o aditivo “Gaúcho”, quando a birra do treinador Celso Roth teimava em relegar o gênio de irreverente sorriso ao banco de reservas, o 2005 de Anderson no Imortal foi marcado pelo capricho de Mano Menezes, que resistia às pressões das arquibancadas encerrando a estrela do garoto no banco.

Não obstante a pitoresca preferência de Mano por outras figuras, o brilho final de uma temporada de muito sofrimento se manteve reservado à sua maior estrela. Com trancinhas e cara de garoto, o jovem foi protagonista na afamada Batalha dos Aflitos. Anderson (ou Andershow, como passou a ser chamado por parte da torcida gremista) levou o Grêmio ao tão necessário êxito do ano: o acesso à Série A.

Apesar disso, seu destino já estava selado e a torcida gremista logo se viu sem seu maior talento.

Chegada à Europa e sucesso imediato

Herói na batalha dos aflitos, como a suprema maioria dos destaques do futebol brasileiro, Anderson foi vendido muito rapidamente ao futebol europeu. À época, o talentoso meio-campista sequer tinha completado a maioridade, assinando seu contrato aos 17 anos. Seu primeiro porto – com as devidas desculpas pela infâmia do trocadilho – foi o FC Porto, um dos melhores destinos para jogadores jovens de grande potencial.

Comprado em 2005 e incorporado em 2006 (ao completar 18 anos), o garoto estreou em março daquele ano, na vitória contra o Nacional da Ilha da Madeira. Todavia, só apareceu em três ocasiões na temporada 2005-2006. De fato, só começou a chamar a atenção na pré-temporada de 2006-2007. Seu talento, noção tática e adaptabilidade às diversas funções do meio-campo transformaram o canhotinho em uma peça rara e cobiçada no mercado europeu. Conquanto tenha perdido alguns meses, em função de uma fratura na perna, o gaúcho foi o grande destaque dos Dragões na temporada 2006-2007, conquistando o prêmio de melhor jogador do Campeonato Português. Com isso, foi vendido ao Manchester United por assustadores 30 milhões de euros.

Ao todo, Anderson disputou 25 jogos, marcou três gols e conferiu cinco assistências com a camisa azul e branca, sagrando-se campeão de dois Campeonatos Portugueses, uma Taça de Portugal e uma Supertaça de Portugal.

Altos e baixos, sucesso e esquecimento no United

Com uma longa e promissora carreira pela frente, aos 19 anos, Anderson chegou aos Red Devils, cujo treinador, Sir. Alex Ferguson, tinha grandes e importantes planos para sua carreira. Com um 4-4-2 bem formatado, atuando sempre com dois meio-campistas pelo centro do campo e outros dois abertos pelos flancos, o Manchester United transformou a carreira do garoto.

Tendo de se adaptar ao estilo de jogo do United, Anderson (o segundo brasileiro a chegar no clube, o primeiro havia sido Kléberson) foi rapidamente deixando a função de armação mais ofensiva, como um camisa 10, e adotando uma função mais recuada, mantendo suas características de criação, mas agregando novas e úteis habilidades na marcação.

Se ser contratado por cifras milionárias pelo Manchester United, aos 19 anos, já parecia um sonho, o que dizer das suas 38 aparições em sua temporada de estreia? Adaptado rapidamente e criando estreitos laços com Cristiano Ronaldo e Nani, Anderson atuou até mesmo em partidas importantes da UEFA Champions League, a qual o clube conquistou com uma pequena contribuição do brasileiro, que, nas disputas penais da finalíssima, contra o Chelsea, converteu a penúltima cobrança dos Red Devils.

No ano seguinte, absolutamente ambientado, o brasileiro repetiu a performance do ano anterior, atuando em 38 jogos. Todavia, neste turno, com mais minutos. Com a chegada consecutiva do United à final da UEFA Champions League, desta vez sem sucesso (perdendo para o fantástico Barcelona de Pep Guardiola), Anderson desfrutou da titularidade na final do maior campeonato de clubes do planeta. Vale lembrar que, ao final do ano de 2008, conquistou o prêmio Golden Boy, láurea concedida ao melhor jogador jovem (até 21 anos) do ano no futebol europeu.

Já na temporada 2009-2010, sua carreira sofreu o primeiro declínio. Cheio de confiança em seu futebol, no início de 2010, Anderson cometeu um deslize, faltando a um treino. Pouco depois, rompeu os ligamentos do joelho. O resultado? Punição imposta por Ferguson e ausência dos gramados por seis meses.

Desde a lesão, o brasileiro nunca mais reconquistou seu espaço na equipe inglesa.

Em agosto de 2010, no início da temporada 2010-2011, Anderson sofreu mais um revés, sofrendo um grave acidente de carro em Portugal. Na ocasião, seu carro bateu em uma parede e acabou pegando fogo. Voltando aos campos em setembro, tornou a ganhar consideráveis minutos no campo, que levaram o United a renovar seu contrato em dezembro do ano, garantindo sua permanência até o fim da temporada 2014-2015. Ao todo, em 2010-2011, o meia disputou 30 jogos.

Veio 2011-2012 e com ele a bruxa das lesões retornou. Sofrendo com muitas lesões nos joelhos, Anderson jogou apenas 16 jogos na temporada. Com um “sobrepeso” cada dia mais evidente, em 2012-2013, atuou em 26 partidas, mas novamente sofreu muito com lesões, desta vez musculares em sua maioria. Apesar disso, sempre teve a confiança de Ferguson, que muito admirava seu futebol.

Contudo, com a saída do mítico treinador, sua trajetória no United transformou-se em um martírio. Absolutamente escanteado por David Moyes, Anderson foi emprestado à Fiorentina, onde foi igualmente mal aproveitado, entrando em campo apenas oito vezes. Já a presente temporada confirmou o que já se sabia: a hora havia chegado; com apenas dois jogos em meia temporada – sem sofrer com lesões –, Anderson tinha que deixar Manchester.

No todo, Anderson representou as cores do United 181 vezes, marcando 9 gols e proferindo 21 assistências. Durante o período, conquistou quatro títulos da Premier League, uma UEFA Champions League, duas Capital One Cup, duas FA Community Shield e um Mundial de Clubes da FIFA.

Seleção: parte do passado ou do futuro?

Não restam dúvidas de que Anderson é um jogador de enorme talento. Ninguém permanece oito anos no Manchester United sem ter qualidades. Aos 26 anos, no Internacional, o meia tem a chance de recuperar seu futebol e, por que não, voltar à Seleção, que já defendeu nove vezes, conquistando a Copa América de 2007 e chegando ao Bronze Olímpico no ano seguinte.

Desde 2008 fora do selecionado canarinho, em forma, é um jogador de características raras e diferentes das dos atuais convocados, o que pode lhe render um novo chamado. Atualmente, a Seleção Brasileira é parte do passado do meio-campista, entretanto, mudar esse quadro só depende dele. Futebol o brasileiro já mostrou – e muito.

Expectativa no Inter

Contratado pelo Internacional, o vivido jogador de 26 anos chegou cercado de expectativa. Apesar da morbidez de seus últimos dias no Velho Continente, seu talento nato deixa os ânimos colorados efervescentes. Entretanto, uma dúvida é perene: quem é o Anderson de 2015?

Foto: Sport Club Internacional - Anderson foi apresentado no início de fevereiro

Foto: Alexandre Lops/Sport Club Internacional – Anderson foi apresentado no início de fevereiro

Ao que tudo indica, o garoto deverá ser uma figura entre um segundo volante e um armador, atuando em uma hipotética segunda linha de meio-campo, à frente de Nílton, o primeiro homem da contenção, e atrás de Andrés D’Alessandro, o maestro colorado, compartindo, assim, uma faixa de campo com o chileno Charles Aránguiz, formando um losango e fortalecendo a circulação de bola pelo lado esquerdo.

A despeito de essa ser a tendência, a qualidade que Anderson já demonstrou durante sua carreira permite a imaginação de outras duas situações. A primeira, em uma função mais avançada, útil para ocasiões em que o Colorado não puder contar com sua estrela argentina; a segunda, mais recuado, como principal homem de marcação, desenvolvendo, todavia, um papel de construtor de jogo mais recuado, coordenando e dando ritmo às ações da equipe.

Foto: Alexandre Lops/ Sport Club Internacional - Anderson em treinamento

Foto: Alexandre Lops/ Sport Club Internacional – Anderson em treinamento

Evidentemente, a melhor utilização do jogador deverá ser pensada pelo treinador Diego Aguirre. O certo é que o meio-campista dá possibilidades ao comandante.

Com história no rival Grêmio, no Porto e no Manchester United, Anderson se prepara para um capítulo novo em sua carreira. Membro indelével da história do Tricolor Gaúcho (como ressaltou o presidente gremista Romildo Bolzan, ao ser questionado sobre uma eventual retirada da imagem imortalizada do jogador na Arena Grêmio: “Faz parte da história, e a história não se apaga. Aquilo aconteceu, é fato. Apagar a imagem seria absolutamente desnecessário,), Anderson ressaltou que seu foco está absolutamente virado para o Internacional:

“Saí pela porta da frente do Grêmio, fiz um grande trabalho ali. Pronto. Agora, o meu clube é o Inter. A oportunidade estava aberta, não só para o Grêmio. O Inter se interessou mais. Sou um cara muito honesto, sincero. Respeito a torcida do Grêmio, mas é futebol. Acontece. Quero voltar à seleção. Só tenho 26 anos. Tive azar nas lesões, mas agora estou 100%. Quero ganhar Libertadores, Brasileirão, que só tenho pela Série B, e um Gauchão, que ainda não tenho,” disse ao GloboEsporte.com

Foto: Alexandre Lops/ Sport Club Internacional - Anderson em ação

Foto: Alexandre Lops/ Sport Club Internacional – Anderson em ação

Por agora, resta ao torcedor Colorado e aos Doentes por Futebol aguardar. O recomeço já está em andamento e é provável que, rapidamente, já se possa entender o papel de um jogador de extremo talento e que, apesar da longa carreira, ainda tem apenas 26 anos.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.