Balanço das duas décadas de futebol profissional no Tocantins

  • por Matheus Mota
  • 6 Anos atrás
Camisas de clubes tocantinenses. Foto - Ismael Carlos

Camisas de clubes tocantinenses. Foto – Ismael Carlos

É fato que o futebol é o esporte mais popular do Brasil, pois desde que chegou no país, no final do século XIX, ele vem crescendo em um fluxo contínuo. Mesmo com alguns problemas (falta de organização e transparência, tanto nos clubes como nas Federações, só para ficar em dois exemplos de fenômenos e protagonistas), o futebol ainda está no topo quanto às preferências esportivas da maior parte dos brasileiros.

Também é fato que, na maioria dos casos, um processo que começa antes tem vantagem sobre outro que se inicia depois. Partindo dessa premissa, procuraremos esmiuçar o futebol no Tocantins, estado que adotou o profissionalismo mais recentemente, especificamente em meados dos anos 90.

O processo de estabelecimento do tal esporte, de modo profissional no Tocantins, se deu de maneira tardia se comparado a outros estados, por uma série de fatores. O primeiro deles é que o estado é o mais novo da Federação, tendo sido criado durante a formulação da Constituição de 1988. Antes disso, seu território estava integrado legalmente ao de Goiás, e durante esse período não havia nenhuma equipe do atual Tocantins que integrasse o futebol goiano. Um dos motivos para tal fato é que a região não estava social e economicamente unida à parte sul do antigo Goiás, o que tornava proibitiva uma eventual incursão no profissionalismo. Cabe salientar que, logo após a emancipação, o estado do Tocantins contribuía com somente 0,22% no total do PIB do Brasil (levantamento do IBGE de 1990), e ainda estava construindo suas bases econômicas, que viriam a se calcar na agricultura, sobretudo no agronegócio.

Antes da emancipação, o futebol era exclusivamente amador, com campeonatos municipais e intermunicipais, mas o futuro estado já possuía o embrião do profissionalismo, o TIN (Torneio Integração do Norte), campeonato de seleções municipais que abarcava grande parte do território que viria a ser o Tocantins. O único contato com times profissionais nesse período se dava com eventuais excursões de equipes goianas, e raramente com clubes de estados vizinhos.

Após a emancipação, surgiu a FTF (Federação Tocantinense de Futebol), que a princípio adotou um regime amador, pois não haviam condições de mudar imediatamente. As primeiras equipes do Campeonato Tocantinense eram justamente as seleções municipais, exemplos de Tocantinópolis, Gurupi e Kaburé, só para ficar nesses três. A fase de transição terminou em 1993, com a primeira edição profissional.

Depois disso, a estrutura do futebol local progrediu, mas ainda não está em um nível que possa rivalizar com outros estados do país. É inegável que o futebol, hoje, é gerido como um negócio, que movimenta cada vez mais dinheiro, oriundo de uma série de fontes, como por exemplo contratos milionários de patrocínio. Uma empresa decide estampar sua marca em uma determinada camisa basicamente pela visibilidade que ela atrai, e ela é obtida sobretudo na TV e em outros meios de comunicação. Poderíamos falar sobre a relação exposição na mídia – formação de torcedores – venda de produtos licenciados, mas esse não é o tema a ser exposto hoje (pelo menos não sob o prisma do futebol nacional como um todo), muito por conta de ser um assunto bem debatido e de conhecimento geral.

Quando falamos no Tocantins, é certo que o campeonato local não possuí muita notoriedade, o que desestimula grandes empresas a exporem suas marcas e injetarem dinheiro nos clubes. A maior parte das equipes do estado contam com apoio de empresas locais e/ou do poder público, este sim de certo vulto. No meio do texto, foi informada a contribuição do estado para o PIB nacional no início da década de 90. Para efeitos de comparação, se no período mencionado esse índice era de 0,22%, hoje está por volta de 0,50%, algo em torno de R$ 17 bilhões de reais. Esse dinheiro vem basicamente do agronegócio, que investe sobretudo na plantação de soja, que toma 58% das terras para plantio no estado e corresponde a 82% das exportações (ainda assim o estado terminou com o 2º maior déficit fiscal do Brasil no ano passado).

Por sua vez, essas empresas pagam impostos para as municipalidades, que, conforme sua gestão, hora investem no futebol local, hora cortam as verbas. Isso contribui para não só para um cenário de instabilidade financeira para as equipes médias e pequenas, mas impede voos maiores dos gigantes locais, que também dependem desses recursos, mas dificilmente conseguem se virar sem ele. Mas cabe dizer que ainda que os números mencionados sobre a economia do estado sejam representativos para Tocantins, ainda são baixos se comparados com os outros estados da União, o que permite uma ideia do vulto do orçamento dos clubes locais.

Outro fator que merece atenção é o calendário. Não existem muitas equipes no estado (8 na 1ª e 10 na 2ª), logo, não há a possibilidade de haver um campeonato longo. Por conta disso, não existem muitas oportunidades de uma marca e um time conseguirem uma exposição significativa. Da parte dos jogadores, grande parte dos que disputam a 1ª divisão no 1° semestre, acabam ficando no próprio estado, jogando na 2ª Divisão, que ocorre no 2º semestre.

O esporte local tem muitas dificuldades estruturais, e elas estão em um nível difícil de ser resolvido, muito por conta dos escassos recursos. Em termos de política, a FTF – Federação Tocantinense de Futebol – tem o mesmo presidente, o deputado Leomar Quintanilha, desde sua fundação, em 1990, sendo que na última eleição ele foi candidato único. Com pouco capital e sem renovação política, fica difícil acreditar em uma reviravolta no futebol tocantinense. Que há bons sinais, isso há, como a campanha digna do Araguaína na Copa São Paulo de Futebol Júnior (1 vitória e 2 derrotas com placares “comuns”, entre elas um 2 x 0 ante o Cruzeiro) e a classificação do Estrela Real para a 2ª fase da Copa do Brasil de Futebol Feminino, mas é bom ter calma.

PS: A ajuda de Ismael Carlos, pesquisador do futebol tocantinense, foi essencial para esse artigo, com sua visão de morador do estado e torcedor. Além disso, houve colaboração na página de Facebook “Futebol Alternativo”, com debates entre seus membros sobre questões do gênero. No mais, espero que o texto colabore não só para a pesquisa sobre o futebol tocantinense, mas de outros estados e regiões, e que desvincule a ideia de que falar “somente do futebol” é o bastante, pois, em muitos casos, o esporte está ligado a uma série de outros elementos.

Não há a ambição de afirmar o conteúdo desses parágrafos como verdades absolutas, pois trata-se de um ponto de vista construído com as fontes consultadas. Se surgirem opiniões divergentes, ótimo. O debate ajuda na construção do conhecimento.

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Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.