Batismo

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás

Javier García Carlos, ou Javi Gracia, é um treinador brilhante. Após o (justo) rebaixamento com o limitado elenco do Osasuna (que, ainda assim, deixou notórias qualidades em jogos grandes na Liga Espanhola passada – como tocava bem a bola!), ele merecia passar por uma espécie de reviravolta que deixasse claro seu potencial. Principal responsável pela “ressurreição” do Málaga, de temporada irregular e sem sal em 2013/2014, Javi Gracia adentrou ao clube dos três principais técnicos da atual edição do campeonato na tarde deste sábado. Ao vencer, merecidamente, o Barcelona por 1×0 em pleno Camp Nou, não havia mais dúvida: a volta por cima estava completa.


O primeiro passo, ao chegar ao novo clube, foi estabelecer uma identidade camaleônica. O atual Málaga é um time leve e gosta de ter a bola, mas assume compromissos defensivos em prol do resultado, e sabe “mudar” o estilo de jogo. O time que recuou em blocos baixos e contra-atacou contra o Barcelona apostou na bola aérea contra o Real Madrid e nos toques curtos contra o Atlético de Madrid. Muito além da construção de um plano de jogo, é bom mencionar que os resultados estão saindo. Sétimo colocado com 38 pontos, o Málaga está a três da zona de Liga Europa e fez um primeiro turno espetacular. Em um momento em que as equipes pequenas/médias da Espanha mostram capacidades, mas pecam em momentos capitais, o Málaga soma pontos e cresce.

No Camp Nou, ao limitar os blanquiazules a somente 20% da posse em determinados momentos do jogo, o Barcelona criou um problema e tanto. A rigorosa disciplina para bloquear o rival pelo meio e obrigar as jogadas pelos lados permitiu a equipe da Andaluzia fazer a transição ofensiva com uma frieza espantosa, especialmente às costas de Daniel Alves, o mapa da mina aos ataques malagueños. O planejamento de Gracia para enfrentar o Barcelona já havia sido elogiado no primeiro turno. No 0x0 em La Rosaleda, o técnico mudou o costumeiro 4-2-3-1/4-1-4-1 e formou um 4-4-2 que variava para um 4-3-3. Fechando qualquer tipo de espaço, o Málaga segurou o empate e sofreu apenas um chute a gol. Naquele noite, as ligações diretas a um destacável Amrabat, de falso nove, aterrorizaram o time de Luis Enrique. 

Dessa vez, novamente a segurança na retaguarda chamou a atenção. Kameni fez apenas uma grande defesa, em chute de Suárez, e os azulgrenás voltaram a ter uma posse estéril: somente dois chutes à meta rival. Resumindo: em 180 minutos, o Málaga forçou Messi, Neymar, Suárez e cia a chutar somente três vezes para o gol. Aliás, excepcional o trabalho sobre argentino. Diminuindo o tempo para o camisa 10 pensar, os andaluzes conseguiram interceptar boa parte dos lançamentos em diagonais de Messi à esquerda, que tem sido fruto de muitas jogadas perigosas do Barça no ano, e anularam o melhor jogador da Espanha em 2015. No setor de Neymar, Rosales parou o brasileiro de todas as formas possíveis.

Cláudio Bravo foi vazado somente uma vez, mas não seria exagero dizer que poderia ter sido mais duas ou três vezes, não fosse o preciosismo no ataque. Com Castillejo e Horta abertos e Juanmi e Samu mais adiantados, os Boquerones se criaram diante da frágil e lenta recomposição culé. Busquets não acompanhou, os laterais agonizaram e os zagueiros ficaram expostos ao quarteto. Se há algo negativo a se destacar é justamente a finalização, pouco precisa.

Em dois anos na elite espanhola, Javi Gracia conquistou resultados esplendorosos contra os gigantes. Além dos supracitados, seu Osasuna, no ano passado, venceu o Atlético de Madrid por 3×0 e empatou contra Real Madrid (2×2) e Barcelona (0x0). A impressão que dá é que ele está a cada dia melhor, confiante e convicto de seus ideais. Parafraseando a expressão que termina nossas colunas especiais às jovens promessas do futebol mundial: olho nele.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.