Chega de blindagem a Cléber Santana

Vinte e seis jogos (todos como titular), três assistências e um gol marcado. É com esses números que se traduz a passagem de Cléber Santana pelo Criciúma. Um desempenho como este seria o suficiente para um jogador qualquer ganhar uma vaguinha no banco de reservas. Entretanto, para o pernambucano, a história é outra. Blindado por imprensa e torcida, a ida de Cléber Santana para o banco sequer é cogitada por alguma das duas partes e ele segue com a camisa 10 e a tarja de capitão.

A derrota para o Metropolitano na última quinta-feira, dia 12, foi a gota d’água e a paciência com o time e com o treinador Luizinho Vieira se foi. Curiosamente, observando os comentários de analistas e a reação dos torcedores, o capitão do time pouco era citado.

Displicente em campo, abusando dos toques de lado e estacionado na intermediária do campo, Cléber Santana esteve abaixo da crítica no tropeço contra o time de Blumenau. O pior disso tudo é saber que ele deveria ser a referência da jovem equipe. Enquanto os garotos da base mostravam nervosismo e estavam afobados em campo, o capitão não aparecia, se escondia atrás dos volantes adversários e deixava que os meninos decidissem sozinhos, sem qualquer tipo de auxílio.

Propensos aos erros, os garotos, antes blindados pela paciência, foram alçados à fronte. Ouviram vaias, xingamentos, impropérios, coisas que talvez nunca tenham escutado. E o Cléber? Escondido em campo, nem criticado era. A covardia estava escancarada. Atletas sub-23 foram apedrejados feito Cristo e o veterano de 33, que deveria ser a referência, foi poupado.

Parte disso se deve à imprensa, que absorve e espalha a ideia de que ele é um jogador “diferenciado”. Esse é um mal do futebol catarinense. Por mais que quatro times estejam na Série A do Campeonato Brasileiro deste ano, é difícil imaginar que algum deles seja mais que coadjuvante. Por isso, se contentam com tão pouco. Por essas e outras que Eduardo Costa, Marquinhos e Cléber Santana eram considerados “Os Três Tenores” quando estavam juntos no Avaí. Três renegados de clubes grandes, que rodaram por metade do país, eram “diferenciados” por aqui, todos com idade elevada.

Em baixa

Foto: Cristiano Estrela - Agência RBS

Foto: Cristiano Estrela – Agência RBS

Para quem não conhece a história, o Criciúma tentou tirar Cléber Santana do time de Florianópolis mais de uma vez. O atleta chegou a trocar farpas com o presidente do Tigre, Antenor Angeloni, descontente com o desfecho da negociação. Até que, no meio de 2014, o tricolor, através do gerente de futebol Júlio Rondinelli, amigo do jogador dos tempos de Avaí, conseguiu tirá-lo da Capital por um vantajoso contrato até metade de 2016 com um pomposo salário.

Algumas coisas, entretanto, chamaram a atenção no contexto. Cléber Santana já não era unanimidade na torcida do Leão da Ilha. Na Série B daquele ano, ele fez 16 jogos, 1 gol e deu 2 assistências. Porém, após a derrota por 2×0 para o Palmeiras na Copa do Brasil, foi substituído na etapa final e ouviu muitas vaias do torcedor, já chateado com a quantidade de pênaltis desperdiçados durante o ano. Como se não fosse o bastante, o técnico Geninho cobrou publicamente um rendimento melhor do atleta.

Em 19 de agosto, o Avaí confirmou a rescisão de Cléber Santana. Seis dias antes, ele fez a última aparição com a camisa do time florianopolitano. Foi na vitória por 2×0 sobre o América Mineiro. Na ocasião, a equipe avaiana estava no G4 da Série B, mas vinha caindo de rendimento. Antes da partida de despedida, o Avaí vinha com uma vitória nos últimos cinco jogos. Cléber era um dos que mais sofria com a revolta da torcida.

E nessa condição ele desembarcou em Criciúma: em baixa, criticado e vivendo do nome que fez no Avaí em temporadas anteriores. Aos 33 anos de idade, Santana não reverteu essa imagem.

Mais irregular que uma estrada cheia de buracos, nunca convenceu completamente, mas sempre teve lugar cativo entre os titulares. Consegue moral com imprensa e torcida por um ou outro lançamento ou virada de jogo que poucos atletas conseguem fazer. E para por aí. Entretanto, ouvir que “é um jogador diferenciado” é recorrente.

Mas a atuação diante do Metropolitano expôs o que Cléber tem de pior. Veterano, já não tem mais agilidade para cumprir uma função tão primordial que é a de articular o jogo pelo centro. Precisa se aproximar dos volantes, acionar os pontas e chegar à área, o que demanda preparo físico pra isso, coisa que ele não tem. Além disso, abusou dos toques de lado e não ousou em momento algum.

A pior faceta foi a omissão. Cléber Santana foi presa fácil para os volantes adversários e em nenhum momento mostrou vontade de fugir da marcação. Andou em campo e se escondeu atrás dos marcadores. Na hora de bater no peito e chamar a bola pra si, falhou. É hora de alguém tomar uma atitude quanto a essa blindagem. Cléber, que deveria ser uma das peças-chave para conduzir o jovem elenco criciumense, faz figuração em um time cada vez mais dependente dos meninos.

À espera de Natan

Foto: Fernando Ribeiro - Criciúma E.C.

Foto: Fernando Ribeiro – Criciúma E.C.

Pra Cléber Santana sair, alguém tem que entrar. Essa opção pode ser Natan. Contratado junto ao Santa Cruz no início de fevereiro, ele é desconhecido do torcedor por ter disputado apenas torneios regionais e divisões inferior do futebol nacional, mas vem muito bem cotado de Pernambuco.

Em contato com alguns colegas que acompanham o futebol pernambucano de perto – inclusive Pedro Galindo, aqui do DpF – ouvi que Natan é um ótimo jogador, de muito talento e que possui algumas características que lembram o meia Oscar, do Chelsea. Torcedores do time o colocam como uma das principais revelações nas últimas décadas. O grande problema dele é de ordem física mesmo, já que não tem muita sequência de jogos (a maior foi de sete partidas, todas na reta final da Série B).

A chegada de Natan, entretanto, pode ser o que o Criciúma precisa para acabar com a blindagem de Cléber Santana. De mesma função, mais jovem e com um futuro promissor, ele pode ser a peça capaz de vestir a camisa 10 tricolor nos próximos meses e ter um rendimento mais eficaz. Só que, se a blindagem for vencida, o Tigre terá que derrubar as fronteiras físicas do novo meia do time. Sai um problema, vem outro.

Comentários

Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.