Dinheiro não é tudo

  • por Igor Leal da Fonseca
  • 5 Anos atrás
No futebol atual, com valores envolvidos cada vez mais estratosféricos, muitas pessoas propagam um argumento que é, no mínimo, falacioso: o excesso de recursos financeiros de alguns times em detrimento de outros impossibilita queas equipes menos providas financeiramente alcancem bons resultados. No Brasil, essa afirmação é recorrente, com dirigentes e torcedores de várias agremiações do país reclamando da divisão das cotas de TV. A despeito de considerar o formato atual injusto, passarei ao largo do mesmo neste texto.
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Certa vez, o renomado e multicampeão Muricy Ramalho declarou que ser treinador de futebol na Europa era fácil, já que bastava pedir jogadores e os mesmos eram comprados pelos presidentes das equipes. Muricy encontrou eco na imprensa e entre torcedores, pois muitos dos integrantes desses setores não se conformam com o papel exercido pelo Brasil no futebol mundial: um coadjuvante de luxo. Com tal declaração, Muricy jogou na lata do lixo uma palavra que ele sempre fala quando é para se gabar das vitórias ou títulos conquistados pelos times que dirige: TRABALHO. No Brasil, temos um exemplo claro nos últimos dois anos: o Cruzeiro.
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A equipe de Minas Gerais terminou o Campeonato Brasileiro de 2011 na 16º posição e o do ano seguinte na 9º, ou seja, longe de disputa por título ou mesmo por uma vaga na Libertadores da América. Mas usando os recursos que possui e sem fazer loucuras, o time celeste qualificou seu elenco com jogadores pouco conhecidos e conquistou o Campeonato Brasileiro nos dois anos seguintes, com larga vantagem sobre os demais. O segredo do Cruzeiro era simples: definir uma comissão técnica, segurá-la no cargo mesmo nas eventuais crises e montar um time com jogadores que se encaixassem dentro da forma de jogo pensada pelo treinador Marcelo Oliveira. O clube trouxe “desconhecidos” como Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart, promoveu jogadores da base, apostou em atletas sem mercado como Nílton e hoje colhe os frutos, conquistando títulos e vendendo jogadores por valores muito acima dos que gastou para trazê-los.

No penúltimo fim de semana, tivemos o dérbi de Madrid, entre Real e Atlético. Multimilionária, com jogadores do quilate de Cristiano Ronaldo, Benzema e Bale, a equipe comandada por Ancelotti é considerada por muitos como a mais forte do planeta, especialmente após a conquista da Liga dos Campeões na temporada passada. Do outro lado, o Atlético de Madrid, que nas duas últimas temporadas gastou em torno de € 145 milhões com contratações de 14 jogadores, fora os que vieram sem custo para o clube.

Para comparação, o Real Madrid no mesmo período gastou € 171 milhões apenas em dois nomes: Bale e James Rodriguez. A despeito das cifras envolvidas, os comandados de Simeone enfiaram 4×0 no primo rico da capital, fora o baile. E sequer podemos colocar o resultado na conta da casualidade, já que, desde a chegada de Simeone, os colchoneros tem sido uma pedra no sapato dos rivais, com retrospecto equilibrado no confronto.

Arte: Doentes por Futebol | Nos últimos 06 confrontos, o Real Madrid não conseguiu vencer o Atlético comandado por Diego Simeone. Foram 03 vitórias dos colchoneros e 03 empates.  Fonte de dados: infobae.com

Arte: Doentes por Futebol | Nos últimos 06 confrontos, o Real Madrid não conseguiu vencer o Atlético comandado por Diego Simeone. Foram 03 vitórias dos colchoneros e 03 empates.
Fonte de dados: infobae.com

O Barcelona também foi vítima do Atlético, com o time de Messi sendo eliminado da Liga dos Campeões na temporada passada e, no mesmo período, perdendo o título espanhol dentro do Camp Nou em confronto direto na última rodada. O Atlético de Madrid também chegou à final da Liga dos Campeões em 2014, quando ficou muito próximo de conquistar o título, mas acabou perdendo para o Real Madrid.

Outro exemplo de clube com menos recursos que rivais mas que conseguiu sucesso recentemente é o Borussia Dortmund de Klopp. Depois de anos de coadjuvante na Alemanha, a equipe investiu em jogadores praticamente desconhecidos da grande mídia, como o japonês Kagawa e o polonês Lewandowski, promoveu nomes da base como Götze, Sahin e Schmelzer e conquistou dois títulos da Bundesliga em sequência, além de ter chegado à decisão da Liga dos Campeões na temporada 2012-13. O clube voltou a figurar no topo da tabela na Alemanha com frequência e a ser um adversário temido na Liga dos Campeões. Na atual temporada, o time vai mal nacionalmente, mas já mostrou do que é capaz ao vencer o Bayern na Supercopa da Alemanha e ao avançar em primeiro no seu grupo na primeira fase da Liga dos Campeões, quando sofreu apenas uma derrota em seis jogos e avançou às oitavas.

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Ainda na atual temporada, outras equipes com poucos recursos seguem se destacando e fazendo frente a rivais multimilionários e, em tese, bem mais poderosos. Com gasto inferior a € 3 milhões em contratações, o Lyon briga pelo título francês ponto a ponto com o Olympique de Marselha e o PSG, times que investiram bem mais.

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Na Inglaterra, a despeito da saída de Lallana e Shaw, o modesto Southampton está na quarta colocação da tabela, à frente de clubes como Liverpool, Arsenal e Tottenham, todos com muito mais recursos e poderio financeiro.

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Eu poderia ficar aqui citando múltiplos exemplos de equipes que incomodaram os maiores clubes dos seus respectivos países e, mesmo contra todos os prognósticos, conquistaram títulos importantes nos últimos anos, mas acho que o ponto já está bem claro: com observação de jogadores, integração entre profissionais de todas as categorias e treino, é possível chegar a resultados aparentemente inalcançáveis.

Fazer como Muricy, setores da imprensa e torcedores fazem ao colocar o mérito dos resultados dos clubes europeus apenas na questão financeira é, como dizem, jogar fora o sofá ao pegar seu cônjuge com outro nele. E como a prática de troca de sofá se perpetua no futebol brasileiro sem se mostrar eficiente, talvez esteja mesmo na hora de reconhecer e trocar o cônjuge.

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33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.