Filósofo, guerreiro ou tirano?

  • por Nilton Plum
  • 4 Anos atrás

Adriano Leite Ribeiro, o Imperador, completa em 17/02/2015, mesmo dia de Mike Tyson, 33 anos. Como passará à História?

O reinado de César Marco Aurélio Antonino Augusto em Roma foi marcado por guerras na parte oriental do Império, sobretudo contra os germanos. Apesar de ser lembrado por sua cultura e por um governo bem-sucedido, deixou uma sucessão enfraquecida e que muitos historiadores relacionam à decadência de Roma.

No épico “Gladiador”, de Ridley Scott, uma livre, porém muito bem executada, ficcionalização dos fatos, Marco Aurélio, brilhantemente interpretado pelo saudoso Richard Harris, confidencia a seu General de respeito toda a desilusão e o fardo de sustentar o Império. Ele está cansado, abatido e velho. Em tom irônico pergunta: “Como passarei à História? Filósofo, guerreiro… tirano?”

Adriano Leite Ribeiro, o Imperador, completa em 17/02/2015, mesmo dia de Mike Tyson, 33 anos. De início promissor no Flamengo, chegou à seleção brasileira com 18 anos, foi vendido rapidamente para a Internazionale numa negociação que exemplifica as patéticas transações que o rubro-negro carioca coleciona em seu passado obscuro. Demorou 3 anos e alguns empréstimos italianos (Fiorentina, Parma) para chegar ao seu auge na Inter e por lá conquistar o bicampeonato da Copa da Itália e da Supercopa da Itália, além do tetracampeonato italiano. Neste mesmo período, conquistou, pela seleção brasileira, a Copa América (artilheiro), a Copa das Confederações (artilheiro) e a vice-artilharia da UEFA. Então, passou a ser chamado pela alcunha que o acompanharia: Imperador.

Mas é da natureza das coisas que tudo possua seu auge e decadência. Ainda assim, a grandeza do futebol de Adriano teve um último suspiro: em 2009, depois de uma rápida passagem pelo São Paulo, retornou glorificado ao seu Flamengo de origem. Teve tempo para ser campeão brasileiro e artilheiro da competição tirando o seu clube de um jejum de 17 anos sem o principal título nacional. Depois de se envolver num emaranhado de escândalos, se tornou o espectro do jogador que fora, passando apagado por Roma, Corinthians, novamente Flamengo e Atlético Paranaense. Ainda no Corinthians, um sopro dos Deuses do futebol fez com que seu único gol pelo clube tenha sido importante para a conquista do campeonato brasileiro de 2011, deixando o Vasco, clube que perseguia a liderança corintiana, numa situação bem difícil.

Observando o Adriano de 2009 fica a impressão utópica de que ele nunca deveria ter saído do Brasil, do Flamengo. Tornou-se vítima de seu próprio personagem como tantos outros. O poder lhe cobrou. Como passará à História? O fatal artilheiro da Inter e da Seleção, com suas arrancadas potentes e chutes avassaladores, o menino do Complexo do Alemão, o Imperador que retorna pra sua glória? O Adriano dos escândalos, da bebida, das mulheres e das festas? O canhoto, o esquerdo?

Talvez falte a ele a perspectiva filosófica que o Marco Aurélio do filme teve. Talvez lhe falte o General confidente. Nunca se sabe, mas falta algo sempre. É curioso perceber o quanto se falou da falta que Neymar fez em campo naquele fatídico jogo contra os alemães ou germanos a quem preferir. Mas quem notou a falta do Imperador no campo de batalha?

Não existe “se” no futebol.

Marco Aurélio faleceu em 17 de março de 180, durante uma expedição contra os marcomanos, que cercavam Vindobona (atual Viena, na Áustria). As suas cinzas foram trazidas para Roma e depositadas no mausoléu de outro imperador romano… Adriano.

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