Jack Colback, um (o) coração dos Magpies

Por O Futebólogo

Em uma gangorra permanente, o Newcastle United tem oscilado muito nos últimos anos. Vivendo entre a luta por vaga nas competições europeias e a metade inferior da tabela, o clube viveu um enorme pesadelo na temporada 2008-2009, quando desceu à enfadonha e desprestigiada Championship. Certamente, no início do atual campeonato, a perspectiva de um novo rebaixamento vagou pela mente de parte da torcida alvinegra, afinal os Magpies precisaram de sete rodadas de insucesso (com quatro empares e três derrotas) para conhecerem o sabor da vitória.

Nesse contexto, algumas figuras foram cruciais para a retomada do bom curso pela equipe, destacadamente os atacantes Papiss Cissé e Ayoze Pérez, autores de importantes gols, e de Jack Colback, ex-jogador do rival Sunderland e que mostrou que precisava respirar novos ares.

Nascido em Newcastle, o jogador – facilmente identificável na cancha em função de seus cintilantes cabelos ruivos – dedicou toda uma vida aos Black Cats, que o receberam aos 10 anos. A despeito de ter sido um fervoroso torcedor do rival, Colback viveu 15 anos do lado alvirrubro da rivalidade de TinyWear. Talvez por sua versatilidade, podendo atuar pelo centro ou pelos flancos do meio-campo e pela lateral esquerda, o jogador de 25 anos nunca tenha se firmado como destaque em sua equipe anterior.

Apesar disso, o ruivinho sempre demonstrou qualidades e duas delas chamam muito a atenção do público: a persistência e a dedicação em cada partida, entregando seu máximo em cada peleja. Em certa ocasião, Paolo Di Canio, seu ex-treinador, classificou-o como um “verdadeiro soldado do clube”.

Todavia, isso não bastou para que seu futebol ganhasse evidência ao longo dos anos e, seguramente, os empréstimos ao Ipswich Town e as macabras campanhas do Sunderland não ajudaram em nada. Curiosamente, seu maior destaque individual na temporada passada se deu contra o Newcastle, ocasião em que anotou um tento e proveu uma assistência. Para mudar de patamar, Colback precisava se mudar e não havia porto melhor do que o Newcastle para o jogador arribar.

“Estou absolutamente satisfeito. Vir para o clube que eu torcia quando garoto, o time da minha cidade natal, será muito especial para mim. Essa foi uma oportunidade que eu não poderia deixar escapar. Se você perguntar aos torcedores ao redor do mundo a única coisa que eles gostariam de fazer antes de morrer, isso seria jogar pelo time que torcem, e eu consegui a chance de fazê-lo. Só tenho coisas boas para falar sobre o Sunderland, eles me deram minha chance e eu quero agradecer aos torcedores e ao clube por todo seu suporte. Eu espero que eles possam entender a chance que tive aqui, de me mudar para meu clube de infância. Agora, mal posso esperar para vestir a camisa preta e branca em St. James Park pela primeira vez,” disse em sua apresentação ao Newcastle.

Realizado com a oportunidade, o inglês tem demonstrado regularmente uma qualidade de futebol que apenas esporadicamente conseguiu apresentar pelos Black Cats. Sua continuidade, regularidade e adaptação a uma função específica – no centro do meio-campo – o tornaram um termômetro para a equipe, uma espécie de coração. Se em 135 jogos pelo Sunderland marcou apenas cinco gols e proveu sete assistências, em 26 aparições pelo Newcastle, já anotou três gols (todos eles nas últimas quatro partidas dos Magpies em St. James Park) e concedeu cinco assistências.

Além de suas participações em gols, é necessário ressaltar a acuidade de seus passes, que em 89% das ocasiões chegam ao seu destino, tendo 18m como distância média. Seu próximo passo deve ser sua estreia pela Seleção Inglesa, para a qual foi chamado em agosto de 2014, sendo, entretanto, cortado com um problema muscular. Na ocasião, foi apelido por Roy Hodgson, comandante do English Team, de “Pirlo Ruivo”:

“Ele é o Pirlo Ruivo. (…) Eu gosto desse garoto e não posso deixar de pensar que se ele tivesse vindo do Arsenal, do Liverpool ou até mesmo da academia “boutique” do Southampton, Colback já teria tido uma convocação para a Seleção Inglesa,” confessou Hodgson em entrevista coletiva.

Exageros à parte – Colback tem que provar muito ainda para ser comparado ao craque italiano – o desempenho do inglês na atual temporada mostra que um novo chamado, com a consequente estreia pela Seleção, não deverá tardar. Jogando na casa de seus sonhos, o ruivo canhoto tem representado a vitalidade do Newcastle, que apesar da oscilação na temporada já viveu grandes momentos, como na vitória contra o Chelsea, quebrando a invencibilidade do clube londrino.

Agora protagonista, o jogador só esteve de fora de um jogo da Premier League na atual temporada e, mais do que isso, em suas 23 aparições, foi titular em todas, sendo substituído em uma ocasião apenas. Seja como “soldado” ou “Pirlo ruivo”, a verdade é que a cada dia Colback deixa sua marca personalizada no campo. A realização de seu sonho de criança é a recompensa por anos de profissionalismo no rival e agora pode-se dizer que o jogador não só possui um coração alvinegro, como também é “o” coração do Newcastle.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.