Liverpool sem Gerrard: Uma nova Era

  • por Lucas Sousa
  • 4 Anos atrás
Arte: Doentes por Futebol

Arte: Doentes por Futebol

Uma era vai se encerrando no mundo do futebol. Quem acompanha a bola rolando na Europa há alguns anos está se acostumando a não ver mais alguns ícones de gigantes europeus em campo: Giggs não veste mais a camisa do Manchester United, a 5 do Barcelona não é mais de Puyol e a Inter de Milão não conta mais com a raça de Zanetti.

Recentemente, uma nova baixa escreveu mais um nome nesta lista: Steven Gerrard. Quando a bola rolar na abertura da temporada 2015/2016, o Liverpool não terá mais um dos maiores ídolos de sua história em campo.

Aos 34 anos, o eterno camisa 8 não renovou seu vínculo com os Reds e mudará de clube pela primeira vez na vida. O destino é o Los Angeles Galaxy, da MLS. Nos Estados Unidos, encontrará alguns rivais de Premier League, como Robbie Keane, Dempsey e Defoe. Ao lado de Kaká, David Villa e Lampard, será mais um jogador consagrado a integrar a liga americana, cada vez mais estrelada. Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, o Liverpool começará a escrever um novo capítulo na sua grandiosa história: a era pós-Gerrard.

Confirmada a saída de Gerrard, Brendan Rodgers escolheu o herdeiro da braçadeira de capitão: Jordan Henderson. Nos Reds desde 2011, Henderson se firmou no meio-campo como um dos jogadores mais regulares do time. Será o principal líder da equipe na próxima temporada, mas já sente um pouco desta responsabilidade na atual. Contra o Sunderland, seu ex-time, Gerrard saiu no intervalo, deixando a braçadeira com o futuro capitão. E Rodgers gostou do que viu:

Eu já fiz dele o vice-capitão e ele tem crescido muito, não só como jogador, mas como um jovem. Você viu sua qualidade hoje, sua liderança, seu poder. Ele é um jovem fantástico e por isso dei essa responsabilidade a ele. Quando Steven (Gerrard) não está em campo, ele é um verdadeiro líder para nós e não há dúvida de que ele pode se tornar o capitão do time.

Aos 24 anos, o camisa 14 surge como um bom líder para o período de transição vivido pelo Liverpool por representar um pouco dos dois extremos. Ainda é jovem, mas é jogador de seleção – participou da Copa do Mundo, inclusive – e tem experiência em Premier League, com 224 partidas disputadas – 142 pelo Liverpool. É uma referência técnica e titular absoluto de Brendan Rodgers, identificado com a torcida e vai para seu quinto ano com o clube.

Por conta da idade, sua cabeça não é muito diferente em relação aos jovens do time e, nesta temporada, são sete jogadores de até 23 anos no elenco: Sterling (20), Markovic (20), Manquillo (20), Can (21), Philippe Coutinho (22), Alberto Moreno (22) e Borini (23). Isso sem contar com Origi (19), já acertado com o clube e emprestado ao Lille. A aposta do treinador parece certeira: um jovem e experiente capitão para comandar um time com vários jogadores promissores.

Depois de um início inconsistente, Rodgers abdicou de uma linha defensiva com quatro homens e encontrou a melhor equipe. Na 16º rodada da Premier League, contra o Manchester United, os Reds foram a campo com três zagueiros. Perderam por 3 a 0. Mesmo assim o treinador norte irlandês manteve a formação para a partida seguinte. De lá para cá, são sete jogos pelo campeonato nacional: cinco vitórias e dois empates.

A defesa é formada por Sakho, Skrtel e o volante Can. Moreno é ala pela esquerda e Markovic, pela direita. Henderson e Lucas são os meio-campistas. Na frente, um trio formado por Sterling, Coutinho e Lallana, que deve perder a vaga para Sturridge, voltando de contusão. Sem a bola é um 5-4-1. Os alas voltam até a linha dos zagueiros e os pontas recuam até o meio campo – abertos ou pelo meio. Com ela, os alas avançam e os pontas centralizam, 3-4-3. O time encaixou muito bem, mas não tem vaga para Gerrard.

O Liverpool da segunda metade da temporada: velocidade e movimentação no ataque, que deve ter Sturridge no lugar de Lallana

O melhor Liverpool da temporada, invicto a sete partidas na Premier League

Em outros tempos, Gerrard teria lugar cativo neste meio-campo. Hoje, aos 34 anos, não mais. A posição mais comum para ele seria ao lado de Henderson, mas Lucas garantiu a titularidade. O brasileiro dá mais solidez ao meio e protege melhor a defesa que o camisa 8. E o Liverpool precisava disso. A zaga, principalmente Lovren, teve um início terrível e pedia ajuda. Lucas é o cara para fazer esse trabalho sujo, matar o ataque adversário e dar menos tarefas para a defesa.

Teoricamente, o Liverpool perderia em qualidade no passe e saída de bola, mas isso ficou só na teoria. Os números (via WhoScored) mostram que o meio-campo teve um ganho defensivo sem prejudicar tanto a parte ofensiva. Lucas tem uma média de 4,2 desarmes por jogo, a maior do time. Gerrard não tem nem a metade: 1,9. O brasileiro troca, em média, 58 passes por jogo, quatro a mais que o inglês, e tem o mesmo aproveitamento de 86%. Claro que não dá para esperar de Lucas uma bola enfiada no meio da defesa ou um lançamento espetacular, mas o volante tem conseguido desarmar e entregar a bola para quem faz acontecer.

Rodgers também testou seu capitão mais à frente, caindo pela direita. Gerrard nunca teve características para jogar avançado e não é agora, na reta final da carreira, que terá. Embora tenha muita qualidade no passe, falta velocidade, movimentação e capacidade de conseguir uma jogada individual – tem uma média de 0,1 drible/jogo, a menor da equipe. E o time ganha tudo isso com Sterling, Coutinho e Lallana à frente – tende a ficar ainda melhor quando Sturridge estiver 100%.

Gerrard aberto pela direita formando o trio ofensivo com Coutinho e Sterling

Gerrard aberto pela direita formando o trio ofensivo com Coutinho e Sterling na partida frente ao Chelsea

Resumindo, Gerrard não tem a dinâmica necessária para jogar em um ataque tão veloz como o dos Reds. Muito menos tem condição física para recompor o meio-campo sempre que perder a posse de bola. Foi um dos maiores do Liverpool e da seleção inglesa partindo de trás. Armando o time no meio-campo, foi craque, gênio e um dos melhores meio-campistas da história da Premier League.

Brendan Rodgers encontrou uma equipe competitiva sem Gerrard entre os titulares e isso é muito bom. O norte para a próxima temporada já está bastante delineado. Por outro lado, não dá para deixar o eterno capitão no banco em todos os jogos. Com certeza Gerrard ainda pisará em Anfield mais algumas vezes. Ora figurando entre os titulares contra times mais fracos – ou até mesmo contra os grandes, como foi contra o Chelsea – ora entrando no decorrer da partida quando precisar de mais ofensividade.

Fato é que isso não manchará em nada sua gloriosa carreira pelo Liverpool. 28 anos depois, Steven Gerrard deixa o clube que ama. Sai pela porta da frente, na certeza que ela ficará aberta para um futuro retorno. Retorno este quase certo, pois um verdadeiro Red nunca deixa o Liverpool caminhar sozinho.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.