Manchester United de van Gaal: entre a cruz e a espada

  • por Bruno dos Santos
  • 6 Anos atrás

Entenda por que os Red Devils não engrenaram nas mãos do holandês

A temporada 2014/2015 prometia para os torcedores do Manchester United. Após o desastroso ano sob o comando de David Moyes, eles tinham razões válidas para estarem animados com a nova temporada. O clube havia contratado o renomado treinador Louis van Gaal, que fez excelente trabalho com a Holanda na Copa do Mundo de 2014. E, além disso, gastou uma nota preta no mercado, trazendo Daley Blind, Marcos Rojo, Luke Shaw, Ander Herrera, Falcao e Ángel Di María. O último custou 59,7 milhões de libras esterlinas e se tornou o jogador mais caro da história da Premier League.

Após empolgar na pré-temporada, o time demorou a engrenar na Premier League. Os torcedores, porém, continuaram pacientes. A incrível maré de lesões que afetou o clube no começo da temporada e a falta de entrosamento certamente refletiam no desempenho dos Red Devils em campo. Esperava-se, entretanto, que no segundo turno, com o time entrosado e todas as peças do elenco disponíveis, houvesse melhorias no futebol jogado pelo United. Após 25 partidas da Premier League, isso não aconteceu. Os Diabos Vermelhos estão na terceira posição e perderam somente uma partida nas últimas 18 – contam com 12 vitórias e 5 empates. Apesar disso, o Manchester United apresenta muitas fragilidades e ainda pouco convence como time.

Van Gaal está sendo criticado por torcedores e pela mídia inglesa pelas irregulares apresentações dos Red Devils. O treinador vem tentando estabelecer uma filosofia de posse de bola no clube inglês, com passes curtos e rápidos no campo do adversário. Os jogadores têm suas funções bem definidas em campo e devem cumpri-las à risca: van Gaal acredita que futebol se joga com o cérebro, não com o instinto. É uma maneira de jogar futebol semelhante à empregada por Guardiola no Barcelona, porém menos fluida e mais mecanicista. O Manchester United, entretanto, vem falhando miseravelmente em empregar tal filosofia de maneira efetiva.

O elenco extremamente desequilibrado é certamente a grande razão do fracasso. As grandes contratações feitas no verão fazem acreditar que o United tem um elenco com muitas opções. Um olhar mais crítico, porém, revela o contrário. A filosofia de van Gaal requer jogadores com técnica e inteligência para manter a posse de bola – em todas as posições. Essa necessidade já não é, logo de cara, satisfeita na defesa.

Os Diabos Vermelhos contam com uma série de zagueiros que são no máximo medianos e que certamente não tem envergadura para serem titulares de um clube com as ambições do United: Phil Jones, Chris Smalling, Jonny Evans. Esses jogadores não são confiáveis sequer fazendo o arroz com feijão da zaga, pois cometem um número muito alto de erros individuais e não se posicionam bem. Como têm pouca intimidade com a redonda, não fazem a distribuição de jogo como exige um sistema de posse de bola. Em vez disso, é comum começarem as jogadas com chutões e lançamentos.

No meio de campo, abundam jogadores técnicos, com boa visão de jogo e qualidade no passe: Carrick, Blind, Ander Herrera, Juan Mata. São atletas que deveriam fazer o sistema funcionar. No entanto, contribuem muito pouco defensivamente (à exceção de Blind) e são lentos. Na Premier League, onde se joga um futebol muito físico e veloz, tais jogadores devem ser contrabalanceados com os “box-to-box”, que cobrem o campo inteiro com boa contribuição defensiva e ofensiva. Caso contrário, se tornam presas fáceis dos atletas mais físicos. O único box-to-box que o United possui é Fellaini. Embora tenha muito vigor físico e seja forte em bolas altas, ele deixa a desejar na parte técnica.

Além disso, falta aos Red Devils o jogador que “desce o facão”: o responsável por verticalizar o jogo, driblando os defensores para abrir espaços quando o toque de bola não é suficiente. Os times de Guardiola sempre tiveram um jogador desse tipo: Messi, no Barcelona, e Robben, no Bayern. Ángel Di María foi contratado para executar esta função, mas vem falhando em se adaptar às táticas utilizadas por van Gaal e ao estilo mais físico e agressivo do futebol inglês. O argentino precisa de espaço para progredir em velocidade com a bola, driblando os adversários. No entanto, é frequentemente escalado por van Gaal em posições avançadas, onde recebe a bola de costas para o gol e tem muito pouco espaço para driblar em velocidade, que é sua característica mais forte.

O ataque também é problema. Os atacantes – em especial Falcao – não procuram espaços no campo e não se movimentam o suficiente para ajudar na construção do jogo. Não abrem espaço para os que vêm de trás e são facilmente marcados. Rooney, que seria mais adequado para esta função, está jogando no meio-campo, onde seu vigor físico e qualidade nas bolas longas são melhor aproveitados. A falta de gols dos atacantes, porém, deve ser relativizada: o Manchester United simplesmente não cria chances o suficiente para seus goleadores.

Van Gaal tem duas estratégias para minimizar o grande desequilíbrio dos Diabos Vermelhos. Uma delas é o esquema com três defensores: um 3-4-1-2 utilizado (com sucesso) para dar mais segurança defensiva ao time. Além do óbvio fato de atuar com 3 zagueiros, minimizando os erros individuais e de posicionamento que um deles venha a cometer, ainda conta com dois alas extremamente trabalhadores, que contribuem muito para o sistema defensivo: Ashley Young e Antonio Valencia. O sistema, porém, limita muito a criação de jogadas do time do Manchester United e a efetividade no ataque. Isso porque o time tem muito mais jogadores com encargos defensivos do que ofensivos: apenas os três jogadores da frente são jogadores criativos, e os dois atacantes estão muito isolados na frente. Como conseqüência, os Red Devils sofrem para marcar gols nesse sistema.

manib0Exemplo do 3-4-1-2 usado no empate com o Aston Villa por 1×1.

Um esquema que permite que a criatividade e a força do ataque do time do United apareçam é o clássico 4-4-2 com o meio-campo em diamante. Neste desenho, o jogo de Di María cresce, ele tem espaço e campo para vir de trás em velocidade com a bola. No entanto, o meio-campo oferece pouca proteção ao frágil sistema defensivo: só Blind é efetivamente capaz de desarmar os adversários. Este fato foi drasticamente exposto na traumática derrota contra o Leicester por 5×3. O time mostrou força ofensiva, mas o sistema defensivo, exposto, cometeu muitos erros. Não é à toa que van Gaal declarou que esse esquema tático o deixa “contorcendo seu traseiro no banco”.

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4-4-2 utilizado na derrota contra o Leicester por 5 x 3.

O treinador, basicamente, tem que escolher entre a solidez defensiva e um time mais ofensivo. O holandês foi incapaz de encontrar o equilíbrio até agora e é pouco provável que o faça até o fim da temporada.

A solução em curto prazo pode ser a inclusão de Fellaini no time titular. O belga oferece mais vigor físico e proteção à zaga no meio-campo do United, e vem fazendo boas partidas nesta temporada. No entanto, a pouca qualidade com a bola nos pés pode forçar van Gaal a desistir – ao menos por enquanto – de sua filosofia (o que é pouco provável para um treinador tão teimoso). Rooney também faria um papel melhor que o de Falcao no ataque. O colombiano foi uma contratação excêntrica, já que seu estilo de jogo não combina com o futebol que o técnico holandês tenta implementar no Manchester United. Rooney oferece mais dinamismo e tem um entrosamento muito maior com Van Persie. Além do mais, abriria no meio-campo vaga para um atleta que efetivamente pense o jogo e construa as jogadas com mais qualidade que o capitão do time – Juan Mata ou Ander Herrera.

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Mas, para a filosofia de Van Gaal ser aplicada de fato em Old Trafford, o Manchester United vai ter que ser muito ativo novamente na janela de transferências do verão. Até lá, o time deve ficar entre a cruz e a espada.

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