O Complexo de Davi

  • por Nilton Plum
  • 6 Anos atrás

O que sustenta o campeonato estadual do RJ?

A despeito dos públicos medíocres, da disparidade entre os quatro grandes e o restante, da pavorosa arbitragem, dos estádios em condições ruins, dos horários bisonhos de jogos, da tabela modorrenta, das estripulias da Federação, que tipo de aparelhagem mantém vida no velho corpo combalido que, ano após ano, dá sinais de falência vital, mas que prossegue seu estado vegetativo?

A resposta pode ser encontrada em 3 jogos sintomáticos: Macaé 1 x 1 Flamengo, pela primeira rodada, Volta Redonda 2 x 2 Botafogo, pela segunda rodada, e o recente Fluminense 2 x 1 Bangu, pela terceira rodada. Três jogos que são um verdadeiro estudo sobre o campeonato. Toda a parte ruim supracitada se fez presente sem exceções… Mas ali também reside, talvez, a resposta para a sobrevida.

De acordo com a narrativa bíblica, Golias era o guerreiro gigante campeão dos filisteus escolhido para massacrar o representante israelita, Davi. Devidamente derrotado e decapitado, Golias se tornou a metáfora da arrogância que subestima o outro. Do outro lado da figura de linguagem existe um Davi que simboliza coragem e superação. No futebol o “Complexo de Davi” é claro e se repete diversas vezes.

É sabido que, salvo em algumas edições, Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo dominam as fases finais do Estadual sem emoções maiores, numa espécie de arremedo de espanholização regional que dura décadas. Enfadonho e chato. De modo que o fiel da balança acaba ficando entre uma zebra ou outra que surge e pelos confrontos diretos dos clássicos onde a historicidade da rivalidade tradicional faz sucumbir qualquer tédio.

O campeonato carioca se sustenta pelo Complexo de Davi porque todos querem ver o pequeno Davi derrotar o gigante Golias novamente.

Quando a cabeça de Paulo Victor abriu em Macaé e Alecsandro foi para o gol, quando o Volta Redonda empatou nos acréscimos contra o Botafogo se beneficiando de um erro de arbitragem, quando o veteraníssimo Almir, meia do Bangu, empatou com um golaço de falta, tendo sido o Bangu já prejudicado por (mais um!!) erro de arbitragem e ensaiando uma pressão no Fluminense, o campeonato respira e dá sinais de vida. Não há confronto sem emoção e o futebol carece de dramaticidade.

O Bangu é um clube tradicionalíssimo do Rio de Janeiro. Fundado por trabalhadores ingleses de uma fábrica do bairro homônimo (oriundos de Southampthon, daí a cor diferente do atual segundo uniforme em homenagem ao “coirmão” inglês), é vice-campeão brasileiro de 1985, e bicampeão Estadual (33, 66) figurando ao lado de América, São Cristóvão, Madureira, Americano, Olaria e Volta Redonda numa espécie de “resistência” subversiva ao quarteto de “grandes”. Começou a partida contra o Fluminense encolhido, tímido, pequeno. Tomou o primeiro gol pelos pés cômodos de Fred e já dava sinais de colaborar para a dinâmica modorrenta do estadual.

No segundo tempo, Davi girou sua funda. O tricolor começou a apresentar um futebol preguiçoso e com dificuldades visíveis defensivamente. O alvirrubro empatou e teve seu gol canhestramente anulado numa cena que se repete na lamentável metralhadora de erros de arbitragem carioca. “Fazer o mal sem olhar a quem”, deve pensar a comissão… Ainda assim, o Bangu manteve o ritmo e chegou ao empate numa belíssima falta cobrada por Almir. A infração lembrou bastante a falta cometida por Fabiano Eller, no Vasco, em cima de Edílson, no Flamengo, que tantos vascaínos clamam pela inexistência anos depois. Naquela ocasião, gerou o famoso golaço de falta de Petkovic, neste domingo, gerou o golaço de Almir.

A partir daí, o Complexo de Davi mostrou sua ação dentro de campo. Ao conseguir o empate, o time parou. Então, o roteiro do futebol foi cumprido: o time pequeno para, tenta segurar um ilusório resultado, se fecha e é pressionado pelo rival de mais poderio. Assim, o Fluminense chegou à vitória com um belo gol, num arremate sutil e eficiente do menino Robert, uma das promessas da base tricolor.

Desta vez, a pedra não acertou o alvo. Mas passou bem perto.

P. S. Logo após esta crônica ser escrita o Vasco empataria em 1 x 1 com o modesto Tigres.

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