Olho Nele! O multifuncional Saúl Ñíguez

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás

OLHO NELE

Madrid, 7 de fevereiro de 2015. Minutos iniciais do principal dérbi da cidade. No Vicente Calderón, Atlético de Madrid e Real Madrid disputam uma partida essencial para as pretensões dos colchoneros na Liga Espanhola 2014/2015. Logo no início, Diego Simeone recebe uma péssima notícia: Koke sentiu o músculo da coxa esquerda e não poderia mais seguir no jogo. Um dos principais artífices do sistema ofensivo rojiblanco, a ausência do meio-campista no restante da partida poderia influenciar negativamente na proposta de jogo do Atléti.

LESÃO KOKE

Naturalmente, a primeira opção do argentino seria a entrada de Raúl García, utilizando-o no lugar de Koke ou deslocando-o à posição de Griezmann, que recuaria para fazer a meia-esquerda, como fez durante muito tempo na Real Sociedad. No entanto, Cholo surpreende a todos recorrendo ao promissor Saúl Ñíguez. Ao término do confronto, a escolha deixou claro duas coisas: a capacidade de Simeone de manter seu time no mesmo ritmo com alternativas certeiras e a qualidade do jogador. Antes de contarmos como terminou aquela noite de dérbi para o menino Saúl, vamos dar uma breve volta ao tempo.

Primeiros Passos:

Formado nas canteras do Atlético, Saúl sempre foi visto com bons olhos por quem acompanhava com atenção os jogos da base madrilenha. Não seria exagero afirmar que, desde o início de sua curta carreira, ele é uma aposta pessoal de Simeone: o treinador foi o responsável pela sua estreia no time principal, em março de 2012. Pela Liga Europa de 2012/2013, Saúl entrou no segundo tempo do duelo contra o Besiktas, que terminou com vitória colchonera por 3×1. A ideia de Simeone era fazer com que o garoto ganhasse um pouco de maturidade alternando treinos com o time A e jogos com o time juvenil. Na mesma temporada, o meia também debutou na Copa do Rei e na Liga Espanhola.

Saúl é o mais jovem na “linha de sucessão” de futebolistas da família Ñiguez. O pai, José Antonio Ñiguez, jogou pelo Elche na década de 80. Seus irmãos mais velhos também são jogadores profissionais, com destaque para Aaron Ñiguez, jogador com passagens por Valência e Rangers.

No início de 2013/2014, Saúl, ao lado do também promissor Óliver Torres, realizaria uma pré-temporada destacável com o elenco principal. Porém, aquele seria um período pesado para os rojiblancos, que disputariam três competições diferentes. Quando o clube fechou a contratação de Leo Baptistão, Simeone achou interessante emprestar seu pupilo ao Rayo Vallecano para que ele ganhasse uma temporada de experiência na elite espanhola. Com o genial Paco Jémez, a ascensão de Saúl foi máxima. Prova disso foi que o garoto terminou a campanha como o principal destaque do kamizake e ofensivo time rayista: em eleição realizada entre sócios e membros da comissão técnica do clube, ele foi eleito o MVP da temporada do Rayo Vallecano.

Jogar dentro do arriscado estilo de jogo do Rayo de Jémez requer muita atenção. As variações do treinador têm como consequência, em alguns momentos, a troca de posição de muitos jogadores. Por causa disso, Saúl descobriu durante o empréstimo sua versatilidade. Inicialmente, o jogador, acostumado a atuar mais adiantado, foi transformado no que os espanhóis chamam de “mediocentro posicional”, aquele primeiro volante que costuma armar a equipe à frente da defesa. Mas o Rayo tinha sérios problemas defensivos (muito, também, pela proposta do técnico, que era jogar com uma linha de defesa quase ultrapassando a linha do meio-campo). Jémez exigia aos seus defensores um passe qualificado desde trás, e Galeano e Raúl Baena não estavam à altura.



O excelente passe foi o responsável por mais um recuo, dessa vez para a zaga. E o menino correspondeu, mais uma vez. O Rayo cresceu de produção com a formação da dupla de defesa entre Zé Castro e Saúl, abocanhou pontos importantes e conseguiu a manutenção na primeira divisão. Aos 19 anos, o jovem, semana após semana, era dono de elogios de um treinador perfeccionista:

“Não gosto de ressaltar a importância de um jogador em específico porque todos são importantes, mas Saúl joga onde eu o coloco, seja de zagueiro, volante ou meia. É muito bom ter jogadores assim porque sempre estão preparados para um desafio. Saúl é voluntarioso, dá posse de bola ao time e é agressivo”, dizia o professor.

“Se tiver que jogar de lateral, zagueiro ou até mesmo goleiro, o farei. É o treinador que me dá confiança e tenho que dar a vida por ele”, respondia o aluno.

A Vitória de Simeone:

Aprovado no estágio em Vallecas, era hora de voltar a Manzanares, ao clube do coração. Logo de cara, Simeone deixava claro que Saúl seria peça valiosa para o Atléti na atual temporada. O argentino escalou o camisa 17 de início na partida de ida da final da Supercopa contra o Real Madrid. O bom começo de temporada deu uma dor de cabeça agradável ao treinador. A equipe demorou a engrenar, mas Saúl desequilibrava. Contra Almería e Sevilla, garantiu segurança e chegada à frente, sendo um dos responsáveis por esses dois triunfos de fundamental importância aos rojiblancos. Variando entre time titular e reserva, seja no lugar de Tiago, no de Gabi, no de Arda ou no de Koke, o multifuncional Saúl não parava de ganhar a confiança de Cholo.

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Eis que, então, o dia de sua afirmação enfim chegou. O dia 7 de fevereiro de 2015 vai ficar guardado para sempre na memória desse incrível meio-campista. Contra o Real Madrid de Carlo Ancelotti, atual campeão da Liga dos Campeões e líder da Liga Espanhola, Saúl foi colocado em campo aos sete minutos por causa da lesão de Koke. Exatamente dez minutos depois, o Vicente Calderón iria à loucura e Simeone sorriria, com a certeza de que sua aposta caminha para virar uma realidade que ele, em especial, sempre esperava.



Aos 17 minutos, Guilherme Siqueira invadiu a defesa merengue, deixou Carvajal para trás e cruzou para a área. Como um projeto de craque que se forma, Saúl mostrou grande capacidade técnica ao finalizar a jogada com uma bicicleta. Segundo gol do Atlético no histórico jogo. O time de Simeone reduziu o Real Madrid a nada, naquela que pode ser considerada a maior atuação do Atlético de Madrid desde a chegada do técnico argentino. E Saúl foi um dos responsáveis por isso. A excepcional atuação do meio-campista deixou o sistema defensivo blanco impotente e minou Kroos. Foi 4×0, mas poderia ter sido mais.

Não seria surpreendente ver o jovem nas futuras convocações de Vicente Del Bosque. Dentro de um certo limite, Saúl tem o trabalho de Javi Martínez, a funcionalidade de Koke e a frieza de Xavi. Um grande jogador, confiável e de progresso contínuo. Em um bom nível, é um potencial a ser muito considerado na Espanha.

Olho nele!

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.