Reparos pela competitividade

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás

O Barcelona alcançou sua décima primeira vitória consecutiva na temporada com uma goleada contra o Levante por 5×0. O marcador indica que o resultado foi construído com certa facilidade, o que não deixa de ser um exagero. No entanto, uma simples troca no ataque foi o motivo principal para a chuva de gols. Luis Enrique foi a campo com Pedro aberto à direita e Messi no centro. Bem compactado na defesa, os levantinos impediam as ações de Messi e deixavam a bola com um jogador menos criativo. A solução foi inverter o posicionamento de argentino e espanhol. Na primeira ação de Lionel pela direita, uma assistência milimétrica para Neymar abrir o placar e desafogar os culés. Algo pequeno, mas que mostra que Luis Enrique tem sensibilidade para enxergar que sua equipe encontra-se desconfortada em campo e precisa ser ativada.

Há um mês, quando o Barcelona saiu de San Sebastian derrotado após duelo contra a Real Sociedad no primeiro jogo do ano, uma pequena crise parecia se instalar no Camp Nou. A briga no vestiário entre Messi e Luis Enrique e a queda de Andoni Zubizarreta da atual diretoria azulgrená prometiam esquentar um ambiente que já estava fervendo pelas atividades extracampo. No entanto, o que se viu foi exatamente o oposto. Os reparos foram imediatos e, surpreendentemente, a equipe embalou. De um dia para o outro, Luis Enrique foi do inferno ao céu.

No último mês, o Barcelona dissolveu um pesadelo recente: o Atlético de Madrid. Os colchoneros maltrataram o ego de cada torcedor barcelonista em 2013/2014, quando passaram invictos frente aos catalães em seis partidas, eliminando-os da Liga dos Campeões e ganhando a Liga Espanhola em pleno território culé. O jogo que cravou a mudança de cenário entre os dois times simboliza a evolução que marca a campanha blaugrana: uma vitória por 3×2 no Vicente Calderón pelo jogo de volta das quartas de finais da Copa do Rei.

Naquele dia, o Barcelona surpreendeu a todos nos 45 minutos iniciais. Cínico, aproveitou a vantagem no placar e deixou a bola com o adversário, que se lançou ao ataque deixando a defesa desprotegida como em raros momentos com Simeone. Ao ganhar a bola na defesa, objetividade para construir os contra-ataques que aterrorizaram o Atléti. Tudo premeditado. Não havia mais dúvidas: o Barcelona estava mudado.

Por mais que conviva com a sombra do tiki-taka que fez sucesso com Guardiola, não há como negar que o fracasso recente da proposta obrigou Luis Enrique a alterar certos mecanismos do estilo de jogo barcelonista para fugir da previsibilidade. Não podemos cair no conto de que o atual Barça não gosta de ter a bola e se fecha na defesa a fim de contra-atacar. É mentira. Os blaugranas ainda são e devem ser rotulados como “time de posse” (tem, em média, 70% de posse de bola, a segunda maior da Europa – atrás somente do Bayern de Guardiola, com 70,1%). Contudo, desde os primeiros jogos, deixam claro que o jeito de jogar é diferente: pressão aos defensores e volantes e, após recuperar a bola, verticalizá-la com transições rápidas e conscientes.

O Barcelona joga a partir da defesa, respeitando o famoso “jogo posicional”, mas compreende que sua arma letal é a velocidade. Por isso, o lançamento longo especialmente às pontas, com Messi ou Neymar, virou rotina. Em entrevista à rádio RAC1 em outubro, Suárez destacou o que o técnico pedia:

“Eles (Celta Vigo) nos pressionaram e sabíamos que tínhamos que fazer ligação direta da defesa ao ataque para pular linhas”, disse.

Reprodução: Youtube | O     primeiro sistema ofensivo do Barcelona na temporada: Messi vindo de trás e dois atacantes por dentro, próximos da área (no caso da ilustração, Rafinha e Munir). Laterais eram responsáveis por profundidade

Reprodução: Youtube | O primeiro sistema ofensivo do Barcelona na temporada: Messi vindo de trás e dois atacantes por dentro, próximos da área (no caso da ilustração, Rafinha e Munir). Laterais eram responsáveis por profundidade

O 4-3-3 é a tática usual, mas Luis Enrique acena com mudanças especialmente no setor de ataque desde o princípio. Até Suárez estrear, a última linha era formada, basicamente, por Munir, Pedro ou Sandro Ramirez, Messi e Neymar. O argentino não deixou de ser falso nove, mas atuava muito mais como um camisa 10, recuado com seus companheiros menos espetados nos lados do campo e mais por dentro próximo do gol. Até por isso, as assistências foram mais comuns que os gols. Quando o uruguaio enfim pôde jogar, Lucho, primeiramente, tentou não mexer no posicionamento de Messi, deixando-o centralizado, com o camisa nove aberto à direita como um típico ponta culé. Não durou muito. Por questão de encaixe, lá foi o treinador mexer na forma do ataque. Messi voltou aos tempos de origem na ponta direita, com Neymar no outro flanco e Suárez aberto.

Reprodução: Youtube | Quando Suárez estreou, Luis Enrique, inicialmente, não mexeu no posicionamento de Messi. O uruguaio teve que atuar como um típico ponta culé, abrindo o jogo e criando espaços

Reprodução: Youtube | Quando Suárez estreou, Luis Enrique, inicialmente, não mexeu no posicionamento de Messi. O uruguaio teve que atuar como um típico ponta culé, abrindo o jogo e criando espaços

Dessa maneira, o Barcelona encontrou seu melhor futebol na temporada. As diferentes distribuições podem ser encaradas como sutis adaptações para enfrentar determinados adversários e aproveitar o senso tático dos jogadores sem comprometer tanto o equilíbrio da equipe. Até o dia 22 de março, Luis Enrique terá três oportunidades para provar seu valor: enfrenta Manchester City duas vezes pela Champions e o Real Madrid na Liga. O batismo definitivo de um treinador tão criticado se aproxima. Em 2015, o Barcelona é a equipe mais confiável da Espanha. Futebol é cíclico.

Reprodução: Youtube | O terceiro e definitivo: Messi volta às origens aberto à direita, com Neymar à esquerda e Suárez de referência. Contra o Atlético de Madrid, o golpe tático de Lucho que venceu Simeone: o camisa 10 na linha lateral, vencendo duelos contra Jesus Gámez, o lateral esquerdo colchonero no dia

Reprodução: Youtube | O terceiro e definitivo: Messi volta às origens aberto à direita, com Neymar à esquerda e Suárez de referência. Contra o Atlético de Madrid, o golpe tático de Lucho que venceu Simeone: o camisa 10 na linha lateral, vencendo duelos contra Jesus Gámez, o lateral esquerdo colchonero no dia

(Atualização: 22/04/2015)

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E os reparos seguem surtindo efeito. Líder do Campeonato Espanhol, semifinalista da UEFA Champions League (após vitórias maiúsculas contra Manchester City e PSG), o Barcelona de Luis Enrique seguem embalado para o fim da temporada europeia. Lucho completou 50 partidas à frente do Barcelona com direito a recorde: ele é o técnico que mais venceu partidas na história em seus 50 primeiro jogos no comando dos blaugranas.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.