Luz no fim do túnel

  • por Victor Mendes Xavier
  • 6 Anos atrás

O superclássico desse domingo pode ser dividido em antes e depois do gol do Suárez. Até o uruguaio balançar as redes de Casillas e definir a vitória do líder isolado Barcelona, o Camp Nou assistia, em silêncio, uma exibição coletiva do Real Madrid. Em pleno território inimigo, os merengues, até os 11 minutos do segundo tempo, ousavam: batalhavam pela bola, colocavam os jogadores culés na roda, criavam oportunidades com naturalidade e pareciam próximos da virada. Mas futebol não é uma ciência exata. Pelo contrário.

O time de Carlo Ancelotti começou o jogo de maneira passiva na defesa. Sem a bola, o habitual 4-4-2 fechava qualquer tipo de espaço e povoava o setor de Messi. No entanto, ao perceber o Barcelona bem confortável, Modric tomou as rédeas. Impulsionado pelo croata, o Real Madrid deixou de observar e resolveu jogar. E aí o que vimos foi uma imposição poucas vezes notada no campo barcelonista. O volante melhorou o entorno e fez sua equipe alcançar um pico de futebol digno dos melhores momentos de Carleto em Chamartin.

A superioridade blanca pelo lado esquerdo era gritante. As subidas de Marcelo (quase sempre livres, não acompanhadas por Messi) deixavam Daniel Alves em um cenário de desconforto. Não bastasse a presença do compatriota, o lateral baiano ainda teve que lidar com a ascensão de Cristiano Ronaldo no jogo. Partindo da esquerda ao centro, o gajo recebeu bolas quase sempre em condições de um a um com Piqué. Aliás, um dos méritos de Modric no primeiro tempo foi exatamente esse: ao envolver Mascherano, Rakitic e Iniesta, o croata possibilitou que Ronaldo e Benzema ficassem no mano a mano com a dupla de zaga blaugrana.

Enquanto a circulação do Barcelona no meio-campo mostrava os costumeiros defeitos, as linhas adiantadas blancas asfixiavam a lenta saída de bola do time de Luis Enrique, que sentia a falta de Busquets na medular. Com Modric e Marcelo instalados no campo de ataque, o próximo passo foi adiantar Kroos e Carvajal e permitir Isco adentrar ao jogo. Com frieza e muita calma, o Real destroçava. Mas não matava. E aí, quando Daniel Alves lançou Suárez e o uruguaio se desmarcou de Pepe e Sergio Ramos para, com um leve toque, vencer Casillas, o Real Madrid se perdeu.

Associar a queda madrilenha a um suposto declínio físico é simplório. Muito além disso, o gol do Pistoleiro foi um baque mental. Com o time forçado a buscar o resultado, o planejamento inicial foi alterado. A atitude passiva da primeira linha de quatro foi trocada para uma ativa. À procura de um roubo de bola o mais rápido possível, o Real deixou espaços para Neymar conduzir e, indiretamente, ativou Messi, mais centralizado. O argentino, em noite não tão inspirada, passou a causar danos às costas de Kroos. Como consequência, Modric foi obrigado a recuar para ajudar o companheiro e o futebol merengue desapareceu.

Débil, a transição defensiva da equipe da capital sofreu com os contra-ataques catalães. Se, aberto à direita, Messi não teve campo para dar seus passes em diagonais, pelo centro colocou Neymar, Suárez e Alba em condição frente a Casillas. O arqueiro poderia ter feito mais no tento de desempate, mas é bom mencionar que, junto com a falta de pontaria culé, evitou um resultado pior. Se há algo a ser reprovado foi a postura madridista com o marcador contra na etapa final. Precipitado e vulnerável, o Real Madrid concedeu ocasiões de gols e foi controlado pelo Barça.

Apesar da derrota, aqueles longos minutos de ótimo futebol (basicamente, entre os 15 do primeiro tempo e os 11 do segundo) dão a Ancelotti a convicção de que sua equipe ainda pode alcançar um nível que poucos conjuntos conseguem hoje em dia. Contudo, como nem tudo são flores, o treinador precisa apagar o que foi visto a partir dos 12 da etapa final. Visando a Liga dos Campeões, o Real Madrid deixa uma mensagem: não deveria ser subestimado.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.