Miller Bolaños, de indisciplinado a destaque da Libertadores

  • por Gustavo Ribeiro
  • 5 Anos atrás
Foto: Emelec Divulgação

Foto: Emelec Divulgação

Durante a pré-temporada, nós, do Doentes por Futebol, elaboramos uma lista de ótimas opções no mercado sul-americano para os clubes brasileiros. Dentre os nomes da primeira parte da lista estava Miller Alejandro Bolaños Reascos, meia equatoriano de 25 anos e que vem sendo um dos destaques da atual edição da Copa Libertadores.

Miller Bolaños fez um ótimo 2014, quando foi o grande destaque na conquista do Campeonato Equatoriano pelo Emelec. Foi o artilheiro do time com 19 gols, além de ter dado passes para outros nove. Outro grande momento do meia na última temporada foi na Copa Sul-Americana. Terminou a competição como artilheiro, com cinco gols em oito jogos – a maioria deles contra o São Paulo, o que lhe rendeu destaque da imprensa brasileira.

Força física, boa colocação, ótima visão de jogo e bom finalizador, Bolaños vive o melhor momento de sua carreira. Mas, até 2013, era difícil prever que o meia atingiria tal nível. Naquele ano, quando era anunciado como reforço do Emelec, o atleta não mostrava muito compromisso com as obrigações no clube. Sempre chegando atrasado nos treinamentos, foi rapidamente afastado do elenco pelo técnico Gustavo Quinteros e obrigado a treinar com a equipe reserva, formada por jogadores da base.

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Atos de indisciplinas não são raros na curta carreira de Bolaños. Formado nas categorias de base do Caribe Juniors, onde chegou em 2003, atuava junto com seu irmão Álex, com o qual já mostrava um temperamento muito forte. Não foram poucas as vezes em que a comissão técnica foi obrigada a separá-los de brigas constantes. Atos de indisciplina à parte, Bolaños sempre mostrou um enorme potencial técnico, e em 2006, juntamente com seu irmão, foi contratado para reforçar o Barcelona de Guayaquil.

Em 2007, com 17 anos, após já ter estreado pelo time profissional, Bolaños foi pego no exame antidoping, que deu positivo e apontou uso de cocaína. Ficou seis meses sem poder entrar em campo. Em 2008, o meia voltou a defender as cores do Barcelona, mas depois de vários desacertos fora de campo e com um futebol abaixo do esperado quando contratado, o clube de Guayaquil permitiu ao jogador que procurasse um novo clube.

O destino foi a Liga Quito. Bolaños chegou à LDU em 2009, um ano depois do clube conquistar a Copa Libertadores em cima do Fluminense. Nesse ano, ainda jovem, entrando aos poucos em um time comandado por Edgardo Bauza, participou da conquista da Copa Sul-Americana com cinco jogos disputados (apenas três como titular) e um gol marcado. No Campeonato Equatoriano daquele ano, já no segundo semestre da temporada, tornou-se uma das figuras importantes do time, ao lado de Walter Calderón e Claudio Bieler.

No ano seguinte, após um difícil começo de temporada, Bolaños perdeu espaço na equipe. Oscilação normal para um garoto de 20 anos. Mas, no segundo semestre, na reta final do campeonato nacional, voltou a atuar bem e tornou-se um dos pilares do time na conquista do torneio, junto com Hernán Barcos, Luna e De La Cruz. Foi de Bolaños um dos gols no segundo jogo da final contra o Emelec, na vitória por 2×0. No entanto, quando a carreira do meia parecia decolar, tendo os problemas de indisciplinas ficado para atrás, Bolaños cometeu mais um deslize.

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Mesmo sendo uma das peças indispensáveis no esquema de Bauza, o técnico argentino não hesitou em afastá-lo do elenco, que não nutria muita simpatia pelo meia. Tal desunião foi crucial para, em 2012, a diretoria do clube acertar sua saída. O rumo foi o futebol dos Estados Unidos, mas precisamente o Chivas. Foram dois anos no futebol norte americano jogando em um time pequeno e que estava longe da disputa por títulos, situação bem diferente da que vivia em seu país natal, onde sempre atuou nos maiores clubes, disputando e conquistando troféus.

Nos dois anos em que esteve nos Estados Unidos, Bolaños disputou 37 jogos, marcou três gols e deu quatro assistências. No segundo semestre de 2013, regressou aos Equador. Dessa vez, para defender o Emelec. Seu passe ainda era da LDU, que aceitou emprestar o jogador pelo período de um ano. O começo de sua passagem pelo clube de Guayaquil não foi nada animadora. Logo nos primeiros meses, o atleta começou a chegar atrasado em todos os treinos e foi rapidamente afastado do elenco, sendo colocado para treinar com os juvenis.

Com o tempo, Gustavo Quinteros conseguiu colocar Bolaños na linha. Em 2013, foram apenas nove jogos disputados e um gol anotado. O time terminou o ano conquistando o título nacional, com Bolaños sendo apenas um reserva. Ora, com um Enner Valencia voando, era difícil conseguir uma vaga naquele time.

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Mas 2014 chegou e o clube sofreu seu primeiro grande baque com a venda de Enner Valencia para o futebol mexicano. Enquanto todos achavam que o clube iria atrás de alguma contratação para repor a perda, Quinteros não tinha duvidas que o substituto já estava no próprio elenco. Escalado inicialmente centralizado no trio de meias do 4-2-3-1, Bolaños não demorou muito para se tornar o grande destaque do time.

Na primeira etapa do Campeonato Equatoriano, foram 18 jogos disputados, três gols marcados e duas assistências. Os números podem não dizer muito, mas o nível das atuações já impressionava. Entretanto, no primeiro semestre, na Libertadores, não conseguiu render o esperado – como todo o time – e acabou eliminado ainda na fase de grupos.

Mas é chegado o Segundo Semestre e o que já era bom, melhorou. Atuando mais próximo do gol, Bolaños passou a ser mais decisivo e guiou o time ao bicampeonato equatoriano. Na segunda etapa, o time terminou na segundo colocação, atrás do Barcelona, o que obrigou os dois times a se enfrentarem em dois jogos de ida e volta para definir o campeão.

No primeiro jogo, com mando do Barcelona, a partida terminou em 1×1. Na volta, em um George Capwell lotado, o Emelec não encontrou dificuldades para aplicar um 3×0 e ficar com o título. Bolaños foi o grande destaque da final, com dois gols. Além de ser uma final, um clássico, o jogo reservava outros ingredientes ao meia: do outro lado, defendendo as cores do Barcelona, estava o seu irmão Álex, com quem não costumava ter uma relação muito boa nos tempos de Caribe Juniors e Barcelona.

Miller Bolaños comemorando um de seus vários gols pelo clube (Foto: Divulgação Emelec)

Miller Bolaños comemorando um de seus vários gols pelo clube (Foto: Divulgação Emelec)

Álex, volante, se destacava pela marcação forte e pelo jogo físico; Bolaños chamava a atenção pela técnica apurada, visão de jogo e qualidade no passe. Desde que foi definida a final, um dos temas que mais ocupavam espaço na imprensa esportiva equatoriana era como reagiria os irmãos dentro de campo. Se no primeiro jogo o clima entre ambos foi mais tranquilo, não se pode dizer o mesmo da partida de volta.

Ainda no primeiro tempo, Álex cometeu duas faltas sobre seu irmão, foi amarelado duas vezes e terminou expulso. Sua reação não foi digerida muito bem pela torcida do Barcelona, menos ainda pelo presidente do clube, que, após a final, foi até ao vestiário e disse que o volante não merecia vestir a camisa do clube. Logo depois, o jogador entrou com um processo na justiça, alegando agressão verbal pelo mandatário do clube e atraso salarial. Após conseguir reincidir seu contrato, o volante se transferiu para o futebol argentino, onde defende o Olimpo.

Mas voltando a Miller, o ano de 2014 não foi de destaque apenas no cenário nacional. Na Copa Sul-Americana, mesmo com o Emelec sendo eliminado nas oitavas de final, conseguiu terminar como artilheiro com cinco gols em oito jogos e figurou na seleção da competição, feita pela Conmebol. Sem duvidas, foi a melhor temporada de sua curta carreira.

Entretanto, para ter seu talento reconhecido de vez, não bastava se destacar apenas dentro de seu país. Bolaños precisava de uma competição internacional mais valorizada para chamar a atenção, sendo a Libertadores a melhor oportunidade. E é isso que o meia vem fazendo atualmente, sendo um dos grandes nomes da maior e mais importante competição do continente.

No sorteio para definir os grupos da competição, o Emelec caiu no Grupo 4, junto com Internacional, Universidad de Chile e The Strongest. Com três jogos já disputados, Bolaños já marcou dois gols e distribuiu três assistências. Vale ressaltar ainda que, na atual temporada, Miller vem desempenhando uma função diferente em relação ao ano passado, quando era o armador pelo centro na linha dos três meias do 4-2-3-1. Hoje, Bolaños joga mais próximo do gol e faz o papel de referência no ataque, recuando algumas vezes para armar.

Já são nove jogos disputados, sete gols marcados e seis assistências em 2015. Fase tão boa, que o clube não hesitou em renovar seu contrato, agora com término até 2019. Suas boas atuações renderam um lugar na lista de convocados por Gustavo Quinteros para defender a seleção equatoriana neste mês, nos amistosos contra México e Argentina. Convocação mais do que merecida para o melhor jogador do país na última temporada.

 

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Projeto de jornalista, mineiro, 20 anos. Viu que não tinha muito futuro dentro das quatro linhas e resolveu trabalhar dando seus pitacos acompanhando tudo relacionado ao futebol, principalmente quando a pelota rola nas canchas dos nossos vizinhos sul-americanos. Admirador do "Toco y me voy" argentino, também escreve no Sudaca FC e tem Riquelme e Alex como maiores ídolos.