Prévia: Barcelona x Real Madrid

  • por Victor Mendes Xavier
  • 6 Anos atrás
Ilustração: Raí Monteiro

Ilustração: Raí Monteiro

É pleonasmo dizer isso, mas o Barcelona x Real Madrid deste domingo é um dos mais importante dos últimos tempos. Não apenas pela discussão que o jogo provoca, como pela qualidade das duas equipes, a partida de amanhã merece uma atenção especial porque definirá sensações tanto do lado azulgrená da Catalunha, quanto do blanco de Madrid. Além do título estar em jogo, o segundo capítulo do Superclássico da Espanha em 2014/2015 é essencial para o andamento da temporada de ambos os times.

O clássico na visão madrilenha
O primeiro aspecto que devemos comentar ao analisar previamente o duelo é acerca da postura do Real Madrid no Camp Nou. Até o momento, é uma verdadeira incógnita. Desde que Ancelotti chegou a Madrid, foi estabelecido um padrão de jogo em que o Real passasse mais tempo com a bola. Mais toques curtos, triangulações, cadencia e manutenção da posse. No entanto, houveram duas exceções em que o italiano reviu seu planejamento: na semifinal da Liga dos Campeões contra o Bayern e na final da Copa do Rei contra o Barça. Em comum entre os adversários, o estilo de jogo.

Para combater o tiki-taka de alemães e catalães, Carleto fez o básico: recuou e compactou suas linhas, abriu Di María e Gareth Bale e deixou Cristiano Ronaldo e Karim Benzema como válvulas de escapes para a conclusão dos contra-ataques. Com a bola, verticalidade para marcar o gol. Contra as frágeis transições defensivas rivais, o 4-4-2 blanco foi consagrado. Especialmente pela fantástica exibição em Munique, o foco sob essas três partidas foram imensas, o que dá a entender que o atual Real Madrid é um “time de transição”. Mas não é e (quase) nunca foi.

Atualmente, existem equipes capazes de superar o Barça na questão da posse de bola (ainda mais sem Xavi Hernández e, pelo visto, Sergio Busquets) e levar o peso de uma partida. O Real Madrid, com Toni Kroos, Luka Modric e Isco Román, é uma delas. A questão central é: vale a pena? Principalmente quando se tem armas para agredir os azulgrenás com 35/40% da posse, a resposta é não. E esse Real Madrid, como sabemos, também tem. Sergio Ramos e Pepe, caso Ancelotti precise de uma defesa menos adiantada, são imperiais protegendo suas áreas e Ronaldo, Bale e Benzema interpretam como poucos um contra-golpe.

Durante a semana, o periódico AS deu pistas do que Ancelotti irá querer de seus comandados: intensidade e obediência tática, sobretudo sem a bola. Isso gera maior responsabilidade a Bale, que tem sofrido leves críticas por não recompor defensivamente com aplicação, deixando o sistema vulnerável. O galês foi um dos temas mais discutidos da coletiva pré-jogo do treinador italiano. Indagado sobre uma possível mudança de posição do jogador (assunto especulado pelo Marca), Carleto foi claro: isso não irá acontecer. O camisa 11 vai seguir aberto à direita do 4-3-3.

O retorno de Modric garante menos sobrecarga a Kroos. Contra um Barcelona que deve adiantar suas linhas, o alemão fatalmente sofreria se tivesse Khedira, Lucas Silva ou Illarramendi ao lado. Com o croata, o cenário é favorável ao camisa 8. Além disso, ele ganha uma vantagem: poder chegar à área rival e aproveitar seu bom arremate. No primeiro turno, para facilitar Kroos, em sua primeira temporada como primeiro volante, Ancelotti recuou Modric e James para ajudar na marcação. Quando Modric se lesionou, Toni aos poucos foi cedendo à marcação pressão adversária. E o trabalho de Kroos e Modric em Barcelona será de fundamental importância. É dali do meio de campo que o jogo do Real Madrid vai ser construído.

O clássico na visão barcelonista
O Barcelona também tem seus mistérios. No coletivo deste sábado, Busquets treinou normalmente e tem chances de aparecer de início como titular. Porém, o mais provável é que Javier Mascherano permaneça sendo escalado como volante, com Jéremy Mathieu de zagueiro. Por mais que Busquets seja uma peça de valor à filosofia culé, Mascherano gera maior estabilidade à trinca do meio-campo.

Aliás, o trabalho dos meias merece destaque. Se você for ver o segundo tempo de Barcelona 1×0 Manchester City dessa última quarta vai ser possível notar, em mais de um momento, um Andrés Iniesta tão recuado que parecia estar formando dupla de volante ao lado de Javier Mascherano. Em certos lances, o argentino saia ao ataque e o espanhol ficava preso na defesa. Não é uma temporada feliz para Iniesta, mas sua contribuição defensiva é digna de elogios. É exatamente desta forma que Luis Enrique quer que seus homens de meio sejam. Se as laterais não são tão confiáveis, uma ajuda extra é bem vinda.

A melhor equipe espanhola de 2015 subiu surpreendentemente de rendimento quando Luis Enrique privilegiou o drible de seus dois principais jogadores. Com Neymar e Messi tão abertos pelos flancos do campo, o Barça foi uma pequena máquina de bom futebol. Além disso, devido ao posicionamento do camisa argentino, Daniel Alves se comportava como um falso meio de campo, produzindo e somando futebol ao time.

Essa versão do Barça durou somente um mês. Hoje, quando não se sente confortável em campo, Messi desloca-se naturalmente ao centro inviabilizando o mecanismo do lateral baiano. Quando isso acontece, o brasileiro agoniza. Sem “ninguém” pela direita, ele é obrigado a descer ao ataque e, quando o Barça perde a bola, os rivais têm em seu setor um mapa da mina para atacar. Contra o Real Madrid, o embate de Alves é simplesmente contra Cristiano Ronaldo (e Isco e Marcelo). Até por isso, não vai ser raro ver Rakitic dando o primeiro bote no português.

Ilustração: Raí Monteiro

Ilustração: Raí Monteiro

Quando falamos de Barcelona, não podemos não falar de Lionel Messi. Em estado de graça, o camisa 10 é capaz de revolucionar uma partida. Seja driblando, dando passe, construindo jogadas ou marcando gols. A ascensão de Messi diverte os espectadores do Camp Nou. A ver a imensa atuação nos duelos das oitavas de finais da Uefa Champions League. Há um ano, o mesmo Messi que marcou três gols no Santiago Bernabéu e destroçou o Real Madrid tinha sua qualidade técnica e física colocada em xeque. Só em 2015, foi às redes 20 vezes e deu 20 passes a gol.

A assistência para o tento de Rakitic contra o City é, talvez, a personificação do Barcelona 2014/2015: Messi conduz a bola partindo da direita, chama a marcação dos zagueiros para si, permite a infiltração de Alba e/ou Neymar pela esquerda e dá um passe em diagonal que mata a retaguarda adversária. Até pela quantidade de vezes que Leo faz isso, a produtividade da dupla que recebe o passe poderia ser maior. É justo mencionar que Luis Enrique merece créditos pela fase de seu comandado. Se Gerardo Martino falhou na tentativa de ativar o melhor do jogador e o viu em estado letárgico na reta final de 2013/2014, o treinador catalão tem seus méritos ao construir um entorno que privilegia as características de Messi. Messi, Neymar e Suárez se entendem e funcionam da melhor maneira.

Os arsenais de Barcelona e Real Madrid estão preparados. Tecnicamente, ambos se equivalem. Cada qual com suas respectivas estratégias e seus magníficos jogadores. Uma coisa este que vos escreve o garante, caro leitor: futebol de bom nível não irá faltar.

O Sports +, canal exclusivo da SKY, transmite o jogo ao vivo, às 17h, horário de Brasília.

Ilustração: Raí Monteiro

Ilustração: Raí Monteiro | As prováveis escalações

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.