Del Bosque e sua insistência no passado

  • por Victor Mendes Xavier
  • 3 Anos atrás

Xabi-Xavi DESTACADA

A história da seleção espanhola de futebol deve ser dividida em antes e depois de Luis Aragonés.

Após o fracasso na Eurocopa de 2004, quando caiu precocemente na fase de grupos, a RFEF encarregou o treinador de comandar o novo projeto da Espanha visando a Copa do Mundo de 2006 e a Eurocopa de 2008. Aragonés, conhecido por ser um construtor de contra-ataque e muita intensidade, tratou de implantar um novo estilo à Roja. Conhecida pelo jogo físico e raça nos momentos de desespero, a Espanha passou a tratar a bola com mais carinho. A partir daquele momento, a manutenção da posse, baseada na troca de passes, seria sua arma mais mortífera.

O novo modo de jogar ganhou um nome: tiki-taka. Na visão de Aragonés, um jogador seria essencial para o funcionamento da proposta: Xavier Hernández.

XAVI E ARAGONÉS

Dono de um passe refinado, cadência e frieza para escapar da pressão adversária, o espanhol surgiu nas divisões de base do Barcelona como candidato a sucessor de Josep Guardiola, o primeiro volante organizador. Porém, Frank Rijkaard enxergou nele potencial para atuar mais adiantado. Dito e feito. Escalado no vértice direito do 4-3-3 do holandês, Xavi subiu de rendimento.

A combinação Luis Aragonés-Espanha-Xavi falhou na primeira tentativa. Na Copa de 2006, a seleção fez uma campanha promissora na fase de grupos, mas caiu logo no primeiro jogo do mata-mata, quando Zidane e a França despacharam os espanhóis. Em 2008, na Eurocopa na Áustria e Suíça, não teve jeito: com um futebol plástico e envolvente, a Roja levou a taça eliminando Itália, Rússia e Alemanha e Xavi foi eleito o melhor do torneio.

Quando as pernas de Xavi foram perdendo poder, entrou em ação Xabi Alonso. O ciclo de Aragonés terminou e Vicente Del Bosque, multicampeão com o Real Madrid no início do século, assumiu o cargo. Del Bosque ganhou Copa do Mundo e Eurocopa e teve em Xabi seu jogador-chave. Xavi não repetiu nas duas competições as atuações de 2008, mas continuou tendo um peso primordial no tiki-taka, como não poderia deixar de ser. Contudo, o momento de ouro foi do ex-volante madridista.

A Euro 2012 de Xabi foi nota 10. Iniesta levou o prêmio, mas o melhor espanhol durante aquele mês de junho (na opinião deste que vos escreve) foi o barbudo. Assegurando saída de bola e uma ligação direta perfeita, o volante se exibiu no torneio que pode ser considerado como um divisor de águas em sua carreira. Depois dali, Alonso se estabilizou como um dos melhores primeiros volantes do mundo.

Após a vergonha no Mundial do Brasil, Del Bosque perdeu, em uma tacada só, seu coração (Xavi) e sua alma (Xabi), que resolveram se aposentar da seleção.

SELEÇÃO ESPANHA

A busca por substitutos da dupla é árdua. Conservador, ele mantém o mesmo modelo de jogo de seis anos atrás; mas, desta vez, sem suas matrizes. A tentativa de transformação de Koke em “novo Xabi” incomoda. A opção claramente não é a mais plausível. Koke com Simeone não é mais aquele jogador que ganhou a Eurocopa Sub-21 em 2011 e passa longe de ser um gestor de jogo à Xabi, sobretudo recuado.

A ausência de um “maestro” é um dos “defeitos” do grupo que é convocado com frequência (sem Thiago e Ander Herrera) no ciclo pós-Copa. Mas há grandes condutores, capazes de serem essenciais numa circulação de bola mais veloz e vertical. Com outras características, a nova geração continua tendo meio-campistas de excelente qualidade, que não funcionam por terem perfis opostos ao que o comandante continua insistindo em usar.

>>Leia mais: Os substitutos de Xavi<<


Del Bosque merece todos os créditos e elogios pelo trabalho feito de 2009 a 2012. Mas claramente não era o nome certo para reconstruir a Roja. Com ideias atrasadas, subutiliza jogadores e estagna o processo de renovação.

O treinador parou no tempo e a seleção sofre.

>>Leia mais: Nova Espanha, velhos problemas<<

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.