DPF entrevista: Cícero Mello

  • por Doentes por Futebol
  • 4 Anos atrás

cicerodpf02

Lucas Cavalcante e Leandro Lainetti entrevistaram o repórter dos canais ESPN, Cícero Mello. O repórter está na emissora desde sua chegada à TV, em 1995, quando, na verdade, foi convidado para comentar jogos de basquete. De lá para cá, foram diversas coberturas importantes, de Campeonatos Carioca à Copas do Mundo, passando por Brasileiros, Copa América e muitos outros eventos esportivos. Nessa entrevista, Cícero falou sobre seleção brasileira, futebol carioca, jornalismo, além de contar ótimas historias, inclusive a que o jornalista ficou mais marcado: quando o Flamengo anunciou Waldemar Lemos como novo treinador.

Confira o papo abaixo!

Entrevista Cícero Mello – Parte I
“Hoje, Felipão estaria arruinado se não tivesse sido campeão (Copa de 2002)… não teria time para trabalhar”

DPF: Qual foi a reação dos repórteres que estavam na Granja Commary e não foram convidados para aquela famosa reunião com Felipão?

Cícero Mello: Acho que o tiro saiu pela culatra. Felipão imaginou que chamando seis ou sete jornalistas que são seus amigos (e que ele acha que representam a crônica toda), ele conseguiria trazer a imprensa para si. Mas a partir do momento em que ele escolheu seis ou sete, em um universo de 500 jornalistas, isso fez com que o resto se revoltasse com essa discriminação. Eu teria uma atitude diferente. Se fosse convidado, não teria aceito. Acho que jornalista não tem que participar de reunião com comissão técnica. Cada macaco no seu galho. Eles treinam a seleção e nós fazemos a critica. Você não pode compactuar, sentar, dar opinião, dizer o que tem que ser feito, nada disso. O PVC até hoje não quis dar muitos detalhes sobre o que aconteceu lá dentro. Mas a gente sabe que até opinião sobre o trabalho feito eles pediram. Foi um tiro no pé.

DPF: Curiosamente, as duas últimas comissões técnicas da seleção, tanto a do Dunga quanto a do Felipão, tiveram problemas com a imprensa. Você acha que isso se deve somente a um problema do lado de lá, ou também tem alguma coisa que os jornalistas fazem que gera esse conflito?

Cícero Mello: Olha, ser técnico da seleção brasileira é muito difícil. Em 89 foi quando cobri minha primeira competição, e cheguei a dar a noticia que o Lazaroni havia caído – e o Falcão assumiria durante a Copa América, em Salvador. Isso só não ocorreu porque houve aquela famosa reunião dos jogadores com o Ricardo Teixeira, pedindo para não mexer na comissão técnica, pois eles seriam campeões. E aconteceu, realmente. O Brasil foi campeão da Copa América e o Lazaroni foi à Copa do Mundo. Nesses anos todos, vi grandes treinadores passarem pela seleção. É muito dificil, uma pressão muito grande.

O treinador, se não tiver capacidade de saber lidar com a pressão que a opinião pública faz, dificilmente vai obter sucesso. Parreira e Zagallo foram dois que souberam lidar com a mídia e, por isso, talvez tenham feito um trabalho melhor. Aí vocês em casa vão me perguntar: e o Felipão? Também conquistou Copa do Mundo, mas tinha um time muito bom em mãos, grandes jogadores que formaram uma grande seleção. Ali, se o técnico não atrapalhasse, já seria bom. Soube aturar bem a pressão, principalmente pela não convocação do Romário, se manteve firme e hoje estaria arruinado se não tivesse sido campeão. O Felipão sobrevive até hoje no futebol por causa daquele título. Se não tivesse ganho, dificilmente teria time para trabalhar. Não teria o nome que tem hoje.

DPF: Qual era o nome ideal para assumir a seleção pós o 7-1?

Cícero Mello: Tinha que ter um perfil diferente, um técnico mais aberto, que se relacione melhor com a imprensa, com a cabeça mais arejada. Meu técnico da seleção brasileira seria o Tite.

DPF: Como você viu toda essa polêmica envolvendo a FERJ e os clubes cariocas?

Cícero Mello: O futebol carioca nunca viveu uma fase tão ruim, não só em termos técnicos e financeiros, mas também administrativamente. E olha que já tivemos presidentes de federações do Rio muito ruins, autoritários. O Caixa D’Água, que é o que mais se fala, pelo menos era autêntico e morreu em uma situação normal; não morreu rico. Ele gostava do poder.

Futebol carioca vai de mal a pior, nunca esteve tão ruim. Mudei minha opinião radicalmente. Era um ferrenho defensor dos estaduais, mas hoje não tem mais espaço. Infelizmente, o campeonato carioca, nos moldes que ele é feito, não deveria mais existir.

Vejo com muita tristeza essa guerra ao poder. Sou do tempo que Otávio Pinto Guimarães era um presidente que dizia que representava os clubes,que o que fosse melhor para os clubes iria acontecer.

“Muitos acham que sou um repórter que não tem medo de perguntar, mas não sou mais corajoso do que ninguém.”

DPF: A gente sabe que existe muito esse conflito da imparcialidade. Hoje, no jornalismo esportivo, a imparcialidade existe ou ela é uma utopia?

Cícero Mello: É muito difícil trabalhar em futebol. Envolve a paixão clubista. Ela faz com que as pessoas esqueçam todo o resto, critiquem, condenem, etc. O garoto que começa a trabalhar no futebol se vê entrevistando seu ídolo. Isso aconteceu comigo no início da carreira. Qual a tendência desse garoto? Como é seu ídolo, ele procura ficar bem com o cara, quer ser amigo dele. E se não for amigo, quer ser ao menos bem visto.

A primeira reação de quem trabalha no esporte, queira ou não queira, é tentar ficar bem com todo mundo. Jornalismo é uma profissão que você não pode ser amigo das pessoas. Não quer dizer que tenha que ser inimigo, mas você não pode misturar as coisas. A partir do momento em que tomei consciência disso, mudei completamente, virei um profissional diferente.

Muitos acham que sou um repórter que não tem medo de perguntar, mas não sou mais corajoso do que ninguém. Apenas me conscientizei que o jornalismo é isso. Faço a pergunta seja para quem for, e já fiz para qualquer um que você pensar como se eu tivesse em casa. A pergunta que gostaria de fazer como torcedor é a que eu faço como jornalista.

DPF: Qual sua opinião sobre os jornalistas que preferem não dizer para qual time torcem?

Cícero Mello: Nunca escondi: sou torcedor do Fluminense. Mas, naquele momento que abre o microfone, você tem que esquecer o time que torce. Nunca acreditem em quem fala que não tem time. Isso é mentira. É um jornalista que tem medo de se assumir perante a opinião pública e que não se garante. Você pode ter seu clube, as pessoas saberem qual é, mas o principal é saber que você é totalmente isento das suas opiniões. Não precisa ser inseguro a ponto de dizer que não tem time. Todos têm, pois só trabalha no futebol quem gosta muito, e quem gosta torce para um clube desde garoto.

Entrevista Cícero Mello – Parte II
O jornalista fala sobre o hilário anúncio de Waldemar Lemos como treinador do Flamengo e responde se a imprensa brasileira é ou não é ruim.

DPF: Qual seria a grande diferença entre o jornalismo convencional e o esportivo?

Cícero Mello: A primeira diferença é aquela que eu já citei: o fanatismo. Nas outras áreas, você pode fazer uma matéria que ninguém torce para um ou outro. Trabalhar com futebol é muito difícil. Já fiz as outras áreas e com todo respeito a quem trabalha com economia, política e polícia, que dá muito desgaste físico, mas o desgaste mental do futebol é muito maior.

DPF: Você trabalhou também no rádio. Qual a principal diferença entre ele e a televisão?

Cícero Mello: Apesar de trabalhar na TV hoje, vou confessar a vocês: o rádio te dá mais prazer do que a televisão, porém, ela te dá mais popularidade. Os canais a cabo atualmente têm muito do rádio. Isso de colocar gente ao vivo no telefone veio de lá. 90% do que eu fiz no rádio foi ao vivo. É bacana, gosto muito. Venho de lá e acho que o bom repórter tem que ter passado pelo rádio, pois te dá o dinamismo e o desembaraço que é preciso na TV.

“Tem gente que se preocupa mais com aparência do que com o conteúdo … Chegam bonitinhos, arrumadinhos e não sabem nada sobre o trabalho que vão fazer.”

DPF: Quem trabalha hoje na televisão acaba tendo esse aspecto de pop-star. Existe muita gente querendo ser esse tipo de jornalista estrela?

Cícero Mello: É o que mais tem. No Rio de Janeiro já é mais difícil da pessoa pedir para tirar foto com você. Aqui, a cada restaurante, shopping, praia que se vai há um ator, uma atriz, um cantor e um jornalista. O carioca está acostumado a conviver com as pessoas que ele vê na televisão e acaba não achando isso nada demais. No Norte e Nordeste, não. O cara te acha uma estrela. Afinal, você está na casa dele toda hora. Quando te vê, o trata como artista, quer tirar a tal da ‘’selfie’’, tirar foto com a família inteira, quer conversar com você. É um negocio incrível. Vejo colegas que se acham estrelas.

Tem gente que se preocupa mais com aparência do que com o conteúdo. O cara se arruma todo, cabelo, maquiagem e não sabe nada sobre o jogador que está sendo apresentado. Chegam bonitinhos, arrumadinhos e não sabem nada sobre o trabalho que vão fazer.

Entrevista Cícero Mello – Parte III
Cícero conta casos de bastidores: “…são matérias comuns que muitas vezes são mais importantes que uma final de Copa do Mundo pro jornalista…”

O Doentes Por Futebol agradece ao repórter Cícero Mello por receber nossa equipe com muita simpatia e carinho, por toda a disponibilidade e, claro, pelo ótimo papo.

Da esquerda para a direita: Leandro Lainetti, Cícero Mello e Lucas Cavalcante.

Da esquerda para a direita: Leandro Lainetti, Cícero Mello e Lucas Cavalcante.

Comentários