Futebol a Sol e à Sombra, Futebol ao Infinito

José Maria Arguedas, no seu derradeiro livro “El zorro de arriba y el zorro de abajo”, lhe concedeu a Juan Carlos Onetti o maior elogio que um escritor pode conferir a outro. Disse que gostaria de ir a Montevidéu, para encontrar Onetti e apertar a mão com que escreve.

Tal história me foi contada através do Livro dos Abraços, do extraordinário Eduardo Galeano.

Galeano morreu essa semana, dia 13 de abril de 2015.

Através de sua obra, aprendi a injustiça que acometeu nosso continente. Aprendi sobre o amor, a arte, as palavras que dizem o que somos, e finalmente aprendi o que é a utopia, esse horizonte que, por mais que se caminhe, seguirá inalcançável, mas nos ensina que caminhar é preciso.

Também – e muito – aprendi sobre o futebol. Ao ler Futebol a Sol e à Sombra, aprendi que existe tanta arte em um poema de Fernando Pessoa quanto em um passe milimétrico de Maradona. Aprendi que existe tanta ousadia em um filme de Lars Von Trier quanto em um drible de Ronaldinho Gaúcho. Aprendi que existe tanto realismo em um conto de Mario Benedetti quanto em uma decisão incabível e injusta do árbitro. Aprendi que o jogador é um artista, pois ilumina, inspira e dá esperanças. E também aprendi que não havia diferença entre escrever sobre o amor ou o futebol – pois ambos são paixões. Que não havia diferença entre escrever sobre a sociedade ou o futebol – pois ambos andam de mãos dadas.

Crítico ferrenho do futebol burocrático e do futebol-negócio, em um dos muitos geniais parágrafos dessa obra-prima, Galeano agradece:

“Por suerte todavía aparece en las canchas, aunque sea muy de vez en cuando, algún descarado carasucia que sale del libreto y comete el disparate de gambetear a todo el equipo rival, y al juez, y al público de las tribunas, por el puro goce del cuerpo que se lanza a la prohibida aventura de la libertad.”

Eduardo Galeano, nós seguiremos caminhando, por ti, em direção ao horizonte e à utopia. Porém, jamais me perdoarei por nunca ter tido a chance de ir a Montevidéu e apertar a mão com que tu escreveste.

Devo, no entanto, dizer-te estas palavras: tu foste esse descarado que saiu completamente do roteiro e cometeu o desaforo de driblar toda a equipe rival, o juiz e o público, apenas pelo puro prazer do corpo que se lança à proibida aventura da liberdade. E, ao se libertar, nos libertou.

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Antropólogo, fanático por relações internacionais, direitos humanos, literatura e, óbvio, Doente por Futebol. Além de colunista para o DPF, escrevo para o fã clube Borussia Dortmund Südbrasilien e no projeto latinoamericano Goltura Futebol. Jogo de segundo volante.