O dia em que 17 mais 9 foi igual a dois

Gols de Pratto e assistências de Guilherme colocaram o Galo na final do Mineiro ( foto: Bruno Cantini/ Clube Atlético Mineiro)

Gols de Pratto e assistências de Guilherme colocaram o Galo na final do Mineiro ( fotos originais: Bruno Cantini/ CAM)

O primeiro domingo do corrente mês de abril sentenciou: após nove anos, Atlético e Cruzeiro voltariam a se encontrar nas semifinais do Campeonato Mineiro. As derrotas para Boa Esporte e Tombense, respectivamente, sentenciaram um fado que nem o mais ferrenho opositor do futebol mineiro poderia prever, considerando o fato de que alvinegros e celestes dominaram o país em 2014.

Com a liderança merecida da Caldense, que bateu o Galo em Poços de Caldas e empatou com a Raposa no Mineirão, o atual Bicampeão Brasileiro ficou com a segunda posição da tabela, enquanto o Campeão da Copa do Brasil amargou a terceira colocação, o que, segundo o regulamento da competição, colocou os rivais frente a frente, com um aditivo especial: a vantagem do Cruzeiro, cuja melhor campanha lhe rendeu os benefícios de jogar por dois empates e decidir o segundo jogo em casa.

No primeiro Round, no domingo sequente àquele trágico, Galo e Raposa entraram no temido Horto com os ânimos acirrados. Se, do lado celeste, Léo fez de tudo para ser expulso na primeira meia hora de partida – levando seu comandante a, sabiamente, sacá-lo –, no segundo tempo, outro Léo, o Silva, capitão da esquadra alvinegra, reagiu intempestivamente à hostilidade de Leandro Damião, acertando-lhe um chute daqueles que tiram o fôlego e, consequentemente, indo para o vestiário mais cedo.

Foto: Washington Alves/Lightpress/Cruzeiro E.C. - Arrascaeta brilhou nos dois jogos

Foto: Washington Alves/Lightpress/Cruzeiro E.C. – Arrascaeta brilhou nos dois jogos

Todavia, em meio a batalha campal que registrou 10 cartões amarelos e um vermelho, uma pitada daquele raro, porém mágico, elemento, o talento, foi salpicada sobre a relva do Estádio Independência. De um lado, Guilherme mostrou que estava recuperado de lesão com passes magistrais; do outro, o uruguaio Giorgian De Arrascaeta desmantelou o setor defensivo alvinegro passando o esférico pelo meio das pernas de Josué, que nada pode fazer diante de tamanha riqueza. Com uma bola em cada rede – tentos de Carlos, para o Atlético, e De Arrascaeta, para a Raposa – o primeiro jogo garantiu emoção ao segundo.

Entremeado por dois fracassos continentais, veio o segundo ato. O palco: o gigante da Pampulha, que, há muito, não mostra a pulsação de outrora, quando as claques rivais dividiam as arquibancadas, mas segue tendo sua mística.

Foto: Bruno Cantini / CAM - Guilherme proveu duas assistências brilhantes

Foto: Bruno Cantini / CAM – Guilherme proveu duas assistências brilhantes

Mesmo tendo sido destaque nas partidas contra o rival e o Atlas, na infortuna excursão mexicana, Guilherme assistiu ao gol de abertura do placar do banco de reservas. De dentro do campo, Lucas Pratto, seu substituto e que fora poupado do primeiro ato, viu, aos 11 minutos, o estrangeiro que estapeou Josué no jogo de ida com seu brilho provocar o “orgasmo do futebol”, como outrora o gol foi descrito por um de seus célebres conterrâneos: Eduardo Galeano.

Com a partida se encaminhando para um desfecho feliz para os comandados de Marcelo Oliveira, os espectadores viram, ainda, os árbitros auxiliares cometerem deslizes infelizes na marcação de impedimentos.

Foto: Bruno Cantini / CAM - Pratto foi letal nas chances que teve

Foto: Bruno Cantini / CAM – Pratto foi letal nas chances que teve

Assim, os últimos e fatais 45 minutos se encaminharam, todavia, com a adição do tempero que faltava: Guilherme. Junto a Lucas. Embora a arbitragem tenha inegavelmente errado em participações capitais, o amante do futebol só se lembrará deste emocionante embate entre os grandes rivais de um estado maior que a Alemanha, a França ou a Espanha pelo espanto e falta de explicação advindas de um fenômeno: a perda da exatidão que caracteriza a matemática.

Enquanto Pratto vagava isolado durante os primeiros 45 minutos, Guilherme cobiçava a possibilidade de subir ao palco principal.

A solidão de Matador e Garçom encerrou-se na segunda parte, quando, por duas vezes, o camisa 17 enxergou a cancha por um prisma que insistia em se esconder e que só se mostrou no segundo tempo, prostrado com a riqueza da visão do jogador. Dessa forma, como se passasse fome, a bola procurou o camisa 9, que saciou seu apetite de gols. O 1×2 ignorou prognósticos e até a inequívoca ciência. Sozinhos, 9 e 17 foram iguais a 0. Juntos, somaram 2, resultado que levou o Galo à final e manteve um tabu de 11 jogos sem ser abatido pela Raposa.

Comentários

Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.