O excelente 2015 do Arsenal

  • por Israel Oliveira
  • 4 Anos atrás

Ao acumular diversas eliminações nas oitavas de final da Liga dos Campeões, e campanhas nada mais que “decepcionantes” na Premier League, sem brigar pelo título, o Arsenal carrega um peso imenso.

Se anteriormente tinha a desculpa de ter enfrentados titãs como Barcelona e Bayern de Munique, dessa vez os gunners tinham em seu caminho o modesto Mônaco, de defesa organizada, mas claramente de elenco inferior ao tradicional time do norte de Londres.

A imagem que ficará eternizada será do 3-1 sofrido em pleno Emirates Stadium, de um time bagunçado taticamente.

Mas, pelo campeonato inglês o Arsenal tem demonstrado uma faceta totalmente diferente. Nos últimos 9 jogos são 9 vitórias, uma sequência incrível que o coloca na segunda posição, largando o velho e irritante estigma do quarto lugar.

Essa transição se deve a fatores pontuais: O encaixe do jogo coletivo, o número menor de lesões e uma mentalidade mais agressiva nos jogos grandes.

Resumir a primeira metade da Premier League do Arsenal é bem simples: um time sem sequência alguma, perdido em ideias retrógradas do seu treinador e totalmente dependente de Alexis Sanchez, que até o natal de 2014 havia tido participação direta em 12 pontos conquistados pelo Arsenal, assinalando sua importância em níveis que denotam a dependência dos gunners por parte de seu principal jogador.

Arte: Doentes por Futebol

Clique na imagem e acompanhe a trajetória do craque dos Gunners.

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Acima está o esquema utilizado pelo time que enfrentou o Southampton, quando perdeu de 2-0 e foi dominado pelo até então emergente time de Ronald Koeman. Com Alexis Sánchez centralizado, o time sentiu falta da individualidade marcante do chileno, que costumava iniciar suas jogadas no lado esquerdo de forma fulminante. Talentoso, porém, lento e inativo, Rosicky não dava a organização necessária para o conjunto. Chambers de volante dispensa qualquer comentário.  No jogo seguinte, pela FA CUP, contra o Hull CityArsène Wenger retomou o 4-1-4-1, esquema inicial da temporada, numa versão bem mais organizada e explosiva.

Contra o Manchester City, indícios de competitividade e versatilidade. O time que sempre se notabilizou pelo jogo bonito, de volume, dominou os citzens numa proposta diferente: O contra-ataque. Consciente sem bola, jogando de forma fria e inteligente,  matou o lento meio-campo do City, que carece de proteção a sua defesa. O retrospecto imensamente negativo contra times grandes começava a ser revertido.

Desde então, além do fatídico tropeço para o Mônaco, o Arsenal só foi derrotado pelo Tottenham, num jogo onde o oponente mostrou uma força sobrenatural de reação e adaptação ao ambiente do jogo. No mais, o clube está na semifinal da FA Cup após vencer o Manchester United em Old Trafford, e assumiu a segunda colocação no campeonato ao golear o Liverpool.

Só em 2015 já são 3 vitórias em jogos grandes, algo inimaginável após as diversas pancadas sofridas em 2014.

Numa equipe que pode propor o jogo, e também agir de forma reativa, é fundamental o entendimento dos jogadores em relação ao esquema, e que suas qualidades sejam maximizadas pelo sistema. O Arsenal não abdica de forma alguma do jogo envolvente, de toques rápidos, triangulações letais, mas demonstra adaptação para saber se defender, contra-atacar quando necessário, esquecendo um pouco o seu tão conceituado lado artístico.

Se por trás de uma mentalidade existe um treinador, para absorvê-las e executá-las existe o plantel de jogadores, que se encontra em grande momento individual, refletindo isso no desempenho coletivo. Com um número maior de opções, Wenger tem usado e abusado de seus jogadores de frente, já que possui um cardápio diversificado de características: Atacantes de força e de velocidade, meio-campistas de toque de refinado, pontas rápidos e volantes de chegada ao ataque. Reflexo do alto astral é o fato de que pela primeira vez em 10 anos (desde novembro de 2005) o Arsenal teve o elenco titular completo à disposição do treinador.

Ilustração da Sky Sports mostrando a escalação do Arsenal contra o Liverpool. Comparar com a primeira escalação do ano é covardia

Ilustração da Sky Sports mostrando a escalação do Arsenal contra o Liverpool. Comparar com a primeira escalação do ano é covardia

Crescimento individual

https://www.youtube.com/watch?v=dfubbaQr8mM

Parte fundamental dessa ascensão do Arsenal na Premier League, onde compila 12 vitórias em 14 jogos desde o Natal de 2014, o volante Francis Coquelin é a peça que o clube procura desde a saída de Arteta. O volante de estrutura física imponente, apresenta um poder de marcação incrível e faz o arroz com feijão com a bola em seus pés. Seu trabalho libera Özil, Cazorla e demais talentos para organizarem o time ofensivamente, sem precaução exacerbada. Os números mostram sua influência e excelência para proteger a defesa: Quarto em desarmes por jogo (3.6) e sexto em interceptações por jogo (3.3). Um achado imprescindível para o equilíbrio da equipe.

>>Leia mais: Coquelin, a solução inesperada do Arsenal<<

Apesar da queda no rendimento de Alexis Sanchez, que contando o jogo contra o Liverpool (04/04/2015) tem 2 gols nos últimos 10 jogos, Wenger maximizou as qualidades de Santi Cazorla, que vem sendo o grande centro criativo da melhor equipe da Premier League em 2015.

No ano corrente, lidera a liga em assistências (5), e apresenta sua melhor versão desde sua chegada a Londres. Ambidestro, é capaz de participar de várias etapas do jogo, seja para distribuir o jogo, dar o último passe ou tomar ações individuais.  O jogador que é líder de assistências (27) somando as últimas três edições da Premier League é extremamente versátil e com Coquelin em campo, vem tendo cada vez mais espaço para explorar sua criatividade. O espanhol é o motor tático e técnico da equipe.

Mesut Özil é um caso misterioso: é um fantasista, mas tem dificuldade em assumir qualquer protagonismo. Escalado corretamente, consegue fazer a diferença, oferecendo quatro assistências e três gols no ano de 2015. Menos sobrecarregado, vem demonstrando mais conforto em campo, e pasme, atuando bem contra adversários fortes como Manchester United e Liverpool.

Sua sutileza em descobrir espaços é sempre uma arma poderosa, e amparado por um time refinado individualmente, vem aproveitando o peso menor sob suas costas.

Aaron Ramsey é um apoiador de qualidade rara nos metros finais do campo. Para um meio-campista, sua capacidade de finalização é acima da média, como se pode notar na última temporada e em alguns momentos da atual.

O galês é capaz de realizar infiltrações fulminantes, ocupar os espaços corretos e possui um arremate potente de fora da área.  Wenger aproveitou o elenco completo e testou o galês na direita, o que se mostrou um posicionamento perspicaz. Além da boa taxa de trabalho defensivo,  se entendeu bem com Bellerín, mostrando uma alternativa que pode importante ao decorrer da temporada, até porque o meio-campo está ocupado por Cazorla e Özil.

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Ele também merece menção! Muitas vezes julgado por ser caneludo, ou por não ter o cacife para um time que possui metas maiores, Olivier Giroud vem fazendo um 2015 assombroso. Nos últimos 18 jogos marcou 17 gols (10 em 2015), e tem tido uma participação fora da área importante: o matador francês segura os defensores, participa de tabelas rápidas, e mostra agilidade para percorrer o caminho correto até o gol. Não à toa foi eleito o melhor jogador do mês de Março da Premier League e atravessa seu melhor momento com a camisa vermelha. Aquele que se notabilizava por ser pomposo e simpático vem demonstrando um futebol de primeiro linha. Sua presença e dominância enterram ideias estapafúrdias como Danny Welbeck ou Alexis Sanchez na referência.

Clique na imagem e saiba mais sobre este promissor ala dos gunners.

Clique na imagem e saiba mais sobre este promissor ala dos gunners.

No lado direito da defesa, Hector Bellerín vem chamando a atenção, demonstrando segurança e personalidade incomuns para quem tem apenas 20 anos. Seu gol contra o Liverpool demonstra sua facilidade em atacar, em lance em que fez o movimento correto e mostrou habilidade.

A lesão de Mathieu Debuchy não foi nem um pouco sentida, e o garoto logo deve ser mais valorizado. Desempenho, que segundo especulações na imprensa, atrai atenção do Barcelona, seu clube formador.

Outro que merece ser lembrado também é o colombiano David Ospina.

Inicialmente reserva do polonês Szczesny, vem transmitindo muito mais segurança que seu antecessor na meta gunner. Constante e seguro, apresenta uma liderança para um sistema defensivo que sempre foi questionado. A lesão do seguro Koscielny pode ser prejudicial, devido a lentidão de Mertesacker. A bomba fica para Gabriel Paulista.

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O Arsenal de Wenger encontrou sua melhor versão na temporada, com prognósticos positivos, apesar da mancha da eliminação inesperada na Liga dos Campeões. Com o líder Chelsea e o postulante a vice-líder Manchester City claudicantes em rendimento nos últimos jogos, os gunners ganham ainda mais moral para seguir crescendo na competição. E ainda há um animador confronto direto contra os blues será em casa, terreno onde o Arsenal atravessa uma fase espantosa, com uma sequência de 9 vitórias seguidas na Premier League.

Se o título aparenta ser utopia, um eventual quarto lugar, julgando o desempenho atual da equipe, seria desastroso e talvez injusto.

Em 2015, quem joga o melhor futebol na Terra da Rainha é o Arsenal.

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