O gol direito do Horto

  • por Lucas Sousa
  • 4 Anos atrás
Foto: Bruno Cantini

Foto: Bruno Cantini

Minas Gerais, Belo Horizonte, Horto. Neste endereço pouco exato, mas de muito significado para os atleticanos, o Clube Atlético Mineiro renasceu para o futebol. Dentro daqueles três muros erguidos na zona leste da capital, vez por outra, o Galo separa as noites do meio de semana para desafiar o impossível e a lógica. E ali, em cima daquele retângulo verde, pisoteado por mais de vinte homens correndo para lá e pra cá, está o gol direito do Horto. Estático. Ciente de que não precisa se mover para determinar o que vai acontecer no jogo.

O gol direito do Horto não são meras barras de ferros e alguns metros de corda fincados na grama. É um presente de reconciliação para os atleticanos vindo diretamente do Olimpo do futebol. Os deuses da bola o enviaram para pedir perdão, assim como um marido compra flores para sua esposa depois de um desentendimento. Perdão pelos anos de injustiças, de azar e de incompetência, despejados de uma vez só na história alvinegra. Se quem cai no Horto está fadado à morte, aquele gol é o grande porteiro do cemitério. Posicionado no espaço aberto da arquibancada, é ele quem conduz o adversário para fora, como se mostrasse o caminho para aqueles que desafiam o Galo no seu terreiro.

Foto: Yuri Edmundo

Foto: Yuri Edmundo

Ninguém explica o que acontece naquele pedaço de campo onde ele foi fincado. Os homens de fé dirão que é Deus. Os adversários dirão que é sorte. Os cientistas ficarão calados, porque nada de exato acontece ali. Entre suas traves, Victor foi instantaneamente canonizado pela torcida, eternizando seu pé esquerdo e superando as canhotas de Humberto Ramos e Éder, tão importantes na história do clube. E se, como disse o presidente Alexandre Kalil, quem apagou as luzes do estádio contra os argentinos foi seu pai, foi para que ele chamasse o gol direito do Horto de volta para receber a bola que viria do pé de Guilherme.

Mas ele esteve adormecido. Parou por um ano para, quem sabe, recarregar suas energias e voltar com toda aura para um ano posterior. Porém, guardou um ensinamento do maior homem que já balançou sua rede: Ronaldinho Gaúcho. Quando, ali perto, o camisa 10 soltou o famoso “quando tá valendo, tá valendo”, o gol direito do Horto entendeu como poucos. Entendeu que deveria aparecer nos momentos importantes, que nem sempre deve fazer o que a torcida quer, que deveria voltar à ativa quando realmente estiver valendo. E assim fez.

Foto: Bruno Cantini/Atlético Mineiro

Foto: Bruno Cantini/Atlético Mineiro

Voltou em 2015, mas com clima de 2013. Libertadores, jogo truncado e necessidade de dois gols. Para que o atleticano não fique mal acostumado, deixou que seu companheiro do outro lado tivesse um brilho no primeiro tempo, mas guardou o grande momento para si. Voltou tão forte, mas tão forte, que contagiou um pequeno pedaço de madeira fincado no canto do gramado a alguns metros de si. E como quem coordena tudo que acontece naquela parte do mundo, chamou o chute de Rafael Carioca para encontrar sua rede. Foi suado, foi sofrido, foi como o atleticano gosta. Foi no gol direito do Horto.

https://youtu.be/OTu6TcdzJTU?t=33s

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.