O lento fim do maior de todos

Arte: Doentes por Futebol

Arte: Doentes por Futebol

24 de julho de 2013, o dia da Redenção Atleticana.

Da meta do goleiro Victor à pequena área adversária do iluminado Jô, o Atlético Mineiro consagrava um grupo inolvidável. O time de renegados, jogadores dispensáveis e dispensados por outras equipes, chegava ao topo da América. O famoso bordão “Eu Acredito!”, mais do que representar a crença do torcedor em reviravoltas improváveis de placares adversos, fez-se aplicável também sobre as particulares carreiras dos membros da maior esquadra do Galo.

Foto: Bruno Cantini/ CAM

Foto: Bruno Cantini/ CAM

Victor, o Santo, era contestado por uma torcida que ansiava a afirmação de Marcelo Grohe; Marcos Rocha provava aos críticos e petulantes que estava mais do que pronto para assegurar o posto de melhor lateral em atividade no país; Réver, o Capitão América, e Leonardo Silva, “descoberto” próximo dos 30 anos, eram remanescentes de anos terríveis e de uma indelével goleada para o rival; Jr. César, o lateral nota 6, impedia o torcedor de lembrar de seus terrores recentes com laterais esquerdos; Pierre, o Pitbull, deixara o calor do banco de reservas do Palmeiras e a birra do treinador Felipão para moralizar o meio-campo de uma equipe há muito desmoralizada.

Leandro Donizete, o General, é outro daqueles casos de jogador cujo grande valor só foi descoberto tardiamente; Bernard, o recusado, provava que seu tamanho não era documento capaz de barrar a alegria de suas pernas; Diego Tardelli, ex-bad boy, confirmava a idolatria do torcedor e a rentabilidade de cada centavo gasto em seu retorno; passava de dispensado pelo Inter à indispensável ao melhor da América; e R10 mostrava que seu apetite ainda não fora saciado – isso sem falar em Cuca, que desmistificava sua fama de azarado.

Foto: Bruno Cantini/ CAM

Foto: Bruno Cantini/ CAM

Até mesmo Guilherme, que nunca angariou plenamente o apreço do torcedor, se redimiu com atuações decisivas.

Dois anos depois, o quadro que se vê é o da desconstrução do maior de todos os times do Galo, aquele que trouxe para a Sede de Lourdes, a taça mais desejada. É com um olhar distante e cheio de boas recordações – bem como uma pitada de saudade – que o torcedor encara a situação, que, todavia, tem sido conduzida, gradualmente, com correção e sem sobressaltos.

Foto: Bruno Cantini/ CAM

Foto: Bruno Cantini/ CAM

Primeiro, logo após a gloriosa conquista, o Galo despediu-se de seu Bambino de Ouro. Nem as gélidas temperaturas da, atualmente, conflituosa Ucrânia desviaram o rico caminho de Bernard rumo à gelada em que se transformou sua transferência para o Shakhtar Donetsk.

Foto: Shakhtar.com

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Sob protestos do torcedor, que nunca compreendeu a “marcação” do técnico Cuca com o jogador, Jr. César não teve seu vínculo renovado e voltou ao Botafogo ao final do ano. Cuca, cuja imagem se degenerou um pouco com a saída intempestiva do time no mundial, também saiu no apagar das luzes de 2013.

Após uma primeira metade de 2014 ruim, aliviada pelo título da Recopa Sul-Americana, desgastado e já sem o mesmo brilho no olhar dos anos anteriores, R10, o Mago, despediu-se e foi ganhar o restante do dinheiro do seguro de vida de seus tataranetos no México, deixando a casa alvinegra um tantinho menos brilhante. Não bastasse a efetiva saída do craque, sua mudança parece ter carregado junto a si a alma de Jô, seu eterno e fiel escudeiro no Galo. Aquele que tanto se sacrificou para privilegiar o talento do gênio – inclusive na marcação – sumiu, desapareceu. O corpo de João Alves de Assis Silva segue em BH, mas e seu espírito?

Foto: clubqueretaro.com

Foto: clubqueretaro.com

Ainda assim, e com um time parcialmente reconstruído, o Galo, já comandado por Levir Culpi, teve muita força e pulsação para reverter novas e inesquecíveis situações e bater o rival na final da Copa do Brasil.

Veio o início de 2015 e mais dois baques atingiram o forte coração alvinegro. Primeiro com o grande capitão da esquadra e depois com o grande ídolo. Réver partiu para o Internacional, após uma temporada de muita luta contra lesões e com a perda de espaço para o jovem Jemerson, e Diego Tardelli, aquele que, a despeito da presença de Ronaldinho, sempre teve um grande lugar no lado esquerdo do peito atleticano, decidiu ganhar em ¥, no Shandong Luneng, que já levara Cuca.

Foto: Ints.com.cn

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E agora Pierre está muito próximo de fechar com o Fluminense. Logo ele, cuja contratação foi pedida pelo torcedor e cujo suor nunca deixará o consagrado Horto. Afinal, se cair no Horto virou sinônimo de morte, o maior responsável foi o volante, que começou com a camisa 55 e logo envergou a 5. Seus desarmes, forte marcação e precisos carrinhos devolveram a identidade ao time que tem por um de seus lemas jogar “com muita raça e amor”.

Se alguém personificava o torcedor dentro das quatro linhas, era Pierre. A despeito dos urros do torcedor a cada penalidade que o Galo tinha a seu favor, bradando incessante campanha para que o volante a cobrasse, o cão de guarda deixa o clube sem ter balançado as redes adversárias. E nem precisava. Basta lembrar quantas bolas ele desviou da direção da própria meta. Com lesões e a ascensão de Rafael Carioca, perdeu espaço e injusto e ingrato seria encerrá-lo no banco de reservas.

Foto: Bruno Cantini/ CAM

Foto: Bruno Cantini/ CAM

Do habitual onze inicial que o atleticano decorou em 2013, sobram, em 2015, apenas Victor, Marcos Rocha (não se sabe por quanto tempo), Leonardo Silva, Leandro Donizete e Jô(?). Apesar de lento, o fim daquele time é uma realidade, a qual o atleticano enxerga com muita gratidão, mas sem tristeza – embora algumas lágrimas sejam inevitáveis. Tudo isso porque, embora o presente esteja separando ídolos e fãs, a história sempre os manterá unidos, em um elo que nem os carrinhos de Pierre, dribles de Ronaldinho e gols de Diego Tardelli conseguiriam desfazer.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.