O novo Cruzeiro: menos qualidade, mais disposição

  • por Alexandre Reis
  • 4 Anos atrás
Foto: facebook.com/cruzeirooficial

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É o que tem apresentado o atual bicampeão brasileiro nesses primeiros quatro meses de 2015, sem Everton Ribeiro, Ricardo Goulart, Lucas Silva e outros importantes nomes da formação passada. Ainda com dificuldades e incertezas para definir um esquema de jogo, Marcelo Oliveira não igualou o sucesso do início de 2013 – quando, em situação semelhante, fez com que a equipe ganhasse corpo rapidamente, mesmo com o elenco completamente reformulado. O time segue vencendo e, em alguns momentos, até atua com consistência. Mas não nos moldes de antes – o que não significa concluir que o Cruzeiro deixou de ser uma ótima equipe, sem bons nomes. Foi eliminado pelo Atlético na semifinal do Mineiro em dois jogos equilibrados e conseguiu a classificação para as oitavas de final da Libertadores na última rodada, contra o Universitario de Sucre.

Da manutenção da posse bola de antes, aliada à paciência para a criação de jogadas, o novo Cruzeiro prioriza pela definição rápida e pela verticalidade, mesmo que para isso use lançamentos longos – alguns deles afobados, desordenados. A ausência de Ricardo Goulart ao centro obrigou o uruguaio Arrascaeta a abrir espaços usando o drible e a velocidade.

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Nos primeiros jogos com a camisa celeste, não foi muito acionado pelos companheiros. Acabava se perdendo na linha defensiva adversária e, como não desfruta da habilidade de abrir espaço sem o domínio da bola – principal característica de Goulart -, a armação, carente, ficou prejudicada. Com o tempo, Marcelo Oliveira o deslocou para a direita, na busca de aproximação com os pontas, para que o uruguaio não dependesse tanto da ligação pelo meio, vinda da defesa. E deu certo. O ex-Defensor ganhou confiança e, em abril, desencantou. Marcou 3 gols nos últimos 6 jogos.

O dilema com os volantes também chama a atenção. Pela titularidade, Willians e Henrique venceram a concorrência de Willian Farias, Felipe Seymour e Charles, e o curioso é que todos, haja vista as principais qualidades da cada, atuam por inércia como primeiro volante. Na Europa, o conceito da posição é absolutamente diferente, moderno, e a dependência (retrógrada) de um marcador incansável e mais agressivo ainda parece grande no futebol brasileiro. Como Marcelo Oliveira não abriu mão do já tradicional 4-2-3-1, a ligação com o ataque, na falta de alguém com as características de Lucas Silva, também já não é feita com certa eficiência. Willians foi quem se encarregou de distribuir o jogo, mas jamais atuou dessa forma por onde passou.

Os sucessivos “chutões” da defesa ao ataque parecem fazer mais sentido quando se percebe a mudança nas laterais. Fabiano atuou em alguns momentos como titular e não tem o mesmo potencial ofensivo de Mayke. Mais alto, mecânico e lento, o ex-Chapecoense acabou congestionando a saída de jogo e não foi uma boa opção para desafogar as descidas ao ataque, prejudicadas por fatores já citados anteriormente. À esquerda, Mena também é outro lateral defensivo e mostra exatamente o oposto de Egídio: pouca habilidade e ousadia, muita precaução e timidez. Além disso, Mayke não vem sendo um diferencial, como em 2014. Com uma aparente solidez na defesa, um lateral ofensivo parece ter causado estranhamento, e a cria da base cruzeirense ainda passa por um 2015 de altos e baixos. É pela direita que grande parte dos ataques adversários tem se concentrado. O jogo contra o Mineros, na Venezuela, não deixa mentir. Na ocasião, Ceará, atual reserva, foi acionado. Os outros laterais – Gilson, Pará e agora Fabrício – pouco mostraram, por enquanto.

No ataque, Leandro Damião virou armador e finalizador. Dos 34 gols anotados pelo Cruzeiro até o momento, o centroavante é autor de 13, e também assistiu 4 vezes, tendo médias de participação em 50% dos tentos totais, mesmo não jogando todas as 22 partidas do clube em 2015. Na falta dos cruzamentos de laterais, ou da certeza do apoio do meio campo, tem se virado em meio às bolas espirradas e aos próprios lançamentos longos despretensiosos. Na recomposição, mostra-se voluntarioso e muito comprometido com a marcação na saída de bola, característica forte deste novo elenco. Se perde um pouco na qualidade e na armação por um lado, ganha na disposição e na vontade por outro, o que pode ser útil em alguns momentos na Libertadores.

Também sentindo a falta de Ricardo Goulart e o apoio dos laterais, os meias-atacantes (Alisson, Marquinhos, Willian, Judivan e Gabriel Xavier) agora dependem mais de jogadas individuais do que qualquer outra coisa para fazer o ataque funcionar, o que, na maioria das vezes, sobrecarrega determinado jogador. Foi assim com Alisson, no primeiro clássico da semifinal do Mineiro, com Marquinhos, ante o Mineros, na Venezuela, e com Willian, contra o Universitario, no Mineirão.

É um Cruzeiro mais preparado, na opinião deste autor, para uma competição de mata-mata, como Copa do Brasil e Libertadores, do que um longo campeonato de 38 rodadas, mas que ainda precisa corrigir erros de posicionamento, principalmente na defesa, que sofreu 10 gols nos últimos 9 confrontos (5 derrotas, 1 empate, 3 vitórias), e na saída de bola – atualmente ineficiente – para alcançar algum patamar do vitorioso elenco de 2013/14.

E tem jogadores para tal. Falta organização.

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Estudante de Jornalismo, apaixonado por futebol. Seja a final da Copa do Mundo, as semifinais de uma Copa Rural, um jogo da Liga dos Campeões ou eliminatória da 4° divisão de algum campeonato amador do interior.