O porto seguro de Casemiro

Foto: FC Porto

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Alvo de piadas de boa parte do público brasileiro, que simplesmente não compreendeu como um jogador que sequer era titular absoluto de seu clube no Brasil conseguiu chegar ao poderoso Real Madrid, Casemiro, volante formado no São Paulo, chegou à Espanha pela porta dos fundos, vinculado, inicialmente, ao Real Madrid Castilla.

Em menos de seis meses de Real, o volante ganhou sua primeira chance no elenco principal. Sob a batuta de José Mourinho, Casemiro atuou durante todos os 90 minutos da vitória Merengue contra o Real Betis, em 20 de abril de 2013.

Foto: Real Madrid CF

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Embora na temporada 2012-2013 não fosse voltar a vestir o manto madrileno, deixou boa impressão e ganhou espaço com Carlo Ancelotti, sucessor do Special One.

Sob a supervisão do treinador italiano, ganhou mais oportunidades e destaque. Ao todo, Casemiro entrou em campo 25 vezes, mostrando muito potencial e, diferentemente do que o marcou muitas vezes no São Paulo, muita vontade e dedicação – além de um respeitável percentual de 85% de acerto de passes em La Liga.

Nesse período, chegou a ser cobiçado pelos rivais de Milão, que tentaram seu empréstimo em janeiro de 2014. No entanto, permaneceu em Madrid até o final da temporada, tendo entrado em campo em seis ocasiões da vitoriosa trajetória Merengue na UEFA Champions League.

“Casemiro foi muito bem defensivamente, muito agressivo, recuperou muitas bolas, tentou alguns passes longos…. Ele teve a mesma oportunidade que os outros. Tivemos a baixa de Khedira. Illarramendi e Xabi Alonso jogaram muito bem contra o Almería, Casemiro foi bem hoje, e em breve recuperaremos Modrić,” disse Carlo Ancelotti após a vitória do Real Madrid contra o Galatasray, em novembro de 2013.

Foto: Real Madrid CF

Foto: Real Madrid CF

Ao final da temporada 2013-2014, estava mais do que claro o talento do volante, o que confirma os prognósticos feitos em seu início de carreira.

Nos tempos de São Paulo, ficou marcado por um certo “estrelismo”, acusado de pouco se dedicar nos treinamentos e de se desleixar quanto à sua forma física – nunca de falta de futebol. Seu senso de posicionamento, visão de jogo e qualidade de passe sempre demonstraram-se acima da média, o que mascarou sua aptidão para roubar bolas.

Foto: Rubens Chiri/ São Paulo FC

Foto: Rubens Chiri/ São Paulo FC

No São Paulo atuou à frente de um volante mais limitado à marcação. Mesmo com a camisa Canarinha, nas Seleções de Base, atuava à frente de Fernando, atualmente no Shakhtar Donetsk. Apesar disso, em alguns jogos chegou a jogar como zagueiro, demonstrando inequivocamente suas qualidades defensivas e liderança. Ney Franco, que foi seu treinador tanto na Seleção Sub-20 quanto no São Paulo e com quem conquistou uma Copa Sul-Americana um Campeonato Sul-Americano Sub-20 e um Mundial Sub-20, sempre demonstrou apreço por seu futebol.

“Tive a oportunidade de treiná-lo na Seleção e foi muito bem. É um jogador que me dá segurança, pois entende a parte tática e treinou muito bem. Gosto de volantes que saem para o jogo e o Casemiro tem tudo para ser um diferencial. O meio de campo é a alma do time. Todos têm de saber jogar. Não é para o Casemiro ser um meia, é para aparecer de surpresa,” disse Ney Franco em meados de 2012.

Foto: CBF

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Embora tenha evoluído e mostrado seus predicados no Real, ficou evidente a necessidade de o volante deixar Madrid e aportar em outro time, onde ganharia minutos e experiência. E o brasileiro não poderia ter feito escolha melhor. Especialista em lapidar jovens promessas e com um treinador afeito ao trabalho com jovens, o Futebol Clube do Porto apresentou-se como o destino perfeito.

Em Portugal, Casemiro tem provado cabalmente suas qualidades e, com confiança, ganhou papel vital nos Dragões. Com 36 jogos na temporada, é titular absoluto do time, atuando como Ney Franco previra ser sua melhor condição e como seus treinadores o usaram na Terra das Touradas: como primeiro volante, aquela peça que lê o jogo, distribui a bola e destrói a atividade dos adversários.

“Desde que cheguei ao Real Madrid, passei a ser utilizado como um médio mais de marcação, dando liberdade aos outros médios da equipa. Foi assim com Mourinho e Ancellotti. Agora, no FC Porto, com o Lopetegui, está a ser igual. Estou à procura de evoluir a cada treino, a cada jogo, e é muito bom ter o trabalho reconhecido dessa forma, sendo um dos jogadores que mais roubos de bola tem na Champions. Vou continuar a trabalhar para melhorar ainda mais,” disse em entrevista à sua assessoria de imprensa, após a vitória do Porto contra o Basel.

Forte na marcação e no passe, o brasileiro também se destacou na frente, marcando quatro gols e provendo três assistências. Um de seus tentos, em cobrança de falta, foi uma pintura, contra o Basel, pela UEFA Champions League. E é na competição continental que seu futebol tem alcançado seu melhor nível.

De acordo com os critérios de avaliação do site Whoscored.com, o jogador de 23 anos foi o melhor em campo nos dois encontros contra o Basel, nas oitavas de finais. No primeiro jogo, tocou 90 vezes na bola, finalizando três vezes, dando dois passes-chave, ganhando cinco bolas aéreas, acertando seis desarmes e 10 passes longos. Já na primeira partida contra o poderoso Bayern de Munique, válida pelas quartas de finais, contabilizou assombrosos sete desarmes e sete antecipações, números superiores aos de qualquer outro atleta que esteve em campo. Ao todo, tem, ainda, 82% de aproveitamento de passes na competição.

Foto: FC Porto

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Evoluindo rapidamente, Casemiro vive no Porto uma fase crucial em sua carreira, aquela que tem confirmado suas qualidades e garantido ao resto do mundo que vale a pena apostar em seu futebol. Assim, o técnico Dunga não teve como resistir e o convocou para as partidas da Seleção Brasileira contra Áustria e Turquia, dando-lhe alguns minutos. O jogador já havia atuado com a camisa Canarinha, no Superclássico das Américas de 2011.

Foto: Rafael Ribeiro/ CBF

Foto: Rafael Ribeiro/ CBF

Não há dúvidas de que a cidade do Porto confirmou-se um porto seguro na vida de Casemiro – com o perdão do trocadilho. Sem a pressão de atuar no Real Madrid, mas jogando em uma equipe competitiva, o jogador vive grande fase, provando aos críticos que a aposta do clube espanhol em seu futebol não se tratou de uma piada, e sim de uma grande alternativa para o futuro Merengue.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.