Tite e o atraso do futebol brasileiro

  • por Lucas Sousa
  • 4 Anos atrás
Foto: Agência Corinthians

Foto: Agência Corinthians

O Corinthians é o melhor time brasileiro da atualidade. O desempenho e o título nacional do time não abrem margem para muitas discussões sobre isso. Se a equipe paulista encerra o ano como a melhor do Brasil, deve grande parte disso ao seu treinador – e também não existe muita dúvida ao afirmar que Tite é o melhor comandante do Brasil. Com praticamente o mesmo elenco do ano passado, o novo-velho técnico mudou completamente a cara do Timão e merece muito crédito por isso.

Tite é exaltado por quase toda mídia esportiva brasileira como “o europeu”. Elogios merecidos para o profissional que viajou até o Velho Continente em busca de conhecimento sobre futebol, assistindo jogos ou conversando com treinadores. E esse estilo de jogo europeu do Corinthians 2015 reforça o atraso tático do futebol brasileiro.

No dia seguinte à goleada sobre o Danúbio, em abril, o apresentador do Esporte Espetacular, Ivan Moré, gravou uma entrevista exclusiva com o treinador apresentando “os segredos” do Corinthians de Tite. A grande questão é que os “segredos” do time paulista, dignos de matéria para o principal programa esportivo da Globo, são recorrentes nos times de médio porte do futebol europeu.

Foto: Agência Corinthians

Foto: Agência Corinthians

E não estou me referindo a Real Madrid ou Barcelona, mas a times do nível de Bayer Leverkusen, Borussia Monchengladbach, Southampton e Wolfsburg. Todos fizeram uma boa temporada 2014/2015 e foram treinados por ótimos técnicos, mas que não estão no degrau de Guardiola, Mourinho ou Ancelotti – e muito menos tem o glamour desses três.

Abaixo, um frame de cada time para comparar com os quatro “segredos” do Corinthians mostrados na matéria (compactação, triangulações, contra-ataques e cruzamentos). As imagens são de partidas da temporada 2014/2015, ou seja, da mesma época da entrevista.

Compactação

A compactação – palavra da moda no futebol – é o primeiro deles. Tite exemplifica com uma imagem do amistoso frente ao Bayer Leverkusen, em janeiro, e explica sua intenção de ter os meio-campistas e defensores atrás da bola para não ceder infiltrações.

Foto: Reprodução/TV Globo

Foto: Reprodução/TV Globo

O Borussia Monchengladbach, a época treinado por Lucien Favre, e outras tantas equipes faz o mesmo. A diferença aqui está na formação: enquanto Tite adota o 4-1-4-1, Favre foi de 4-4-2 e coloca os dez homens para marcar. Mas a ideia das linhas próximas, atrás da bola e tirando os espaços do adversário permanece.

Foto: Reprodução/Sky Sports

Foto: Reprodução/Sky Sports

Triangulações

A triangulação nada mais é que duas opções de passe para o jogador que tem a bola. Além de oferecer situações para a manutenção da posse, proporciona ultrapassagens em velocidade e busca criar superioridade numérica. No lance abaixo, Elias se infiltra na defesa adversária. Note também a superioridade numérica corintiana (três contra dois) e que três jogadores aguardam o prosseguimento da jogada próximos à meta.

Foto: Reprodução/TV Globo

Foto: Reprodução/TV Globo

Abaixo, o Bayer Leverkusen do ótimo Roger Schimdt faz uma jogada muito semelhante. Três jogadores formando o triângulo na lateral do campo e mais três estão nas proximidades da área para concluir a jogada. Como Tite disse na entrevista, são seis homens atacando e quatro na sustentação para conter um eventual contra-ataque.

Foto: Reprodução/ESPN

Foto: Reprodução/ESPN

Contra-ataque

Contra-atacar é algo comum no futebol. Todos os times fazem. Mas a diferença aqui é a velocidade na execução, passar da situação defensiva para a ofensiva “num raio”, como afirmou o treinador corintiano. O Corinthians demorou 15 segundos para percorrer quase todo o campo e marcar mais um gol nos uruguaios. Na imagem, o jogador circulado (Guerrero) é o alvo da ligação direta, que parte da área clareada (com Emerson).

Foto: Reprodução/TV Globo

Foto: Reprodução/TV Globo

Na Europa, quem deu uma aula de contra-ataque foi o Wolfsburg, na goleada sobre o Bayern de Munique. Com passes verticais ou ligação direta, os Lobos marcaram três dos quatro gols assim. É uma especialidade do time de Dieter Hecking, que já balançou as redes dez vezes em contra-ataques na Bundesliga. Diferente do Corinthians, a bola foi roubada mais próxima ao meio-campo (área clareada) e antes de chegar a De Bruyne (circulado), houve uma pequena troca de passes. O tempo gasto, porém, foi menor: 11 segundos.

Foto: Reprodução/Bundesliga

Foto: Reprodução/Bundesliga

Cruzamentos

Nas jogadas de linha de fundo, Tite exige sempre quatro jogadores perto da zona de conclusão: dois dentro da área e mais dois se aproximando. A ideia é ocupar o espaço onde acontecerá a jogada, tendo diversas opções para finalizar em gol.

Foto: Reprodução/TV Globo

Foto: Reprodução/TV Globo

Repare agora uma jogada do Southampton, treinado por Ronald Koeman. São dois jogadores aguardando o cruzamento perto da meta e mais dois vindos de trás. É a mesma jogada. A única – e sutil – diferença é a distância entre os homens que estão na área, mas ela existe para oferecer uma bola alçada na segunda trave, enquanto no lance corintiano os dois privilegiam o passe curto. Variação interessante também utilizada no time paulista.

Foto: Reprodução/Premier League

Foto: Reprodução/Premier League

É um total exagero comparar este Corinthians ao Brasil de 82, Flamengo de Zico, São Paulo de Telê ou Milan de Sacchi bicampeão europeu, como aconteceu na época da Libertadores. Também não cabe classificar o clube paulista como segunda melhor equipe do mundo, atrás apenas do Barcelona. Tite não é um revolucionário. É um excelente técnico que foi beber nas melhores fontes para voltar ainda melhor. E conseguiu. Sem colocar o pé dentro de uma área técnica, evoluiu mais que qualquer treinador que dirigiu um clube por aqui no ano passado.

Mesmo ganhando tudo o que disputou na sua passagem anterior pelo clube, o treinador teve humildade para reconhecer suas dificuldades no setor ofensivo e foi em busca de conhecimento para solucionar este problema. O resultado? Sua equipe terminará o Brasileirão como o melhor ataque e a melhor defesa, além, é claro, do taça na mão. Esse Corinthians 2015 só enfatiza o atraso do futebol brasileiro. Dentro de campo, ao controlar o jogo, apresentar ideias “novas” e se tornar quase imbatível, e também fora dele, ao ser exaltado em demasia e proporcionar comparações absurdas.

A conquista do Campeonato Brasileiro traz, mais uma vez, essas questões inconcebíveis para discussão. O Corinthians merece elogios pela temporada que fez, mas ainda está distante das grandes equipes do futebol mundial. Tite não “inventou a roda”, apenas utilizou eficientemente mecanismos já existentes aprendidos por meio de atualização e estudo. E essas duas palavras ainda faltam no vocabulário do nosso futebol.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.