Um herói improvável

  • por Matheus Mota
  • 6 Anos atrás

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O que torna um atleta um herói? Basicamente, um feito único, algo do qual ninguém mais foi ou é capaz. Além disso, um herói é alguém respeitado por seus adversários, que se lamentam muito mais pela ocasião em que ele se impõe do que desgostam do indivíduo em si.

Dentre os considerados heróis, alguns já são jogadores notáveis, dos quais se espera algum protagonismo antes mesmo de seu momento de glória definitiva. Pode ser um atleta extremamente técnico, capaz de decidir um clássico em um lance; aquele volantão que domina o meio de campo, tornando-o sua fortaleza; o goleiro que pega até pensamento, e que pode até chegar a defender um pênalti em uma final. Um exemplo deste “tipo” de herói é Totti, que no último Roma x Lazio fez dois gols e evitou a derrota dos giallorossi.

Existe, entretanto, uma galeria de heróis improváveis. Há Cocada, o lateral do Vasco que decidiu um carioca. Não acostumado a ser herói, Cocada não se conteve e acabou expulso. Acontece. Isso não diminui o tamanho de seu feito – ao contrário: o torna mais emblemático. Nesta mesma galeria, encontramos Jimmy Glass.

Cocada nunca foi unanimidade no futebol, mas teve uma carreira sólida; Glass não teve nada perto disso. Cocada jogou por grandes equipes do país; Glass atuou apenas em clubes pequenos (isso quando atuou, pois na maior parte do tempo foi o eterno 3º goleiro). Quem olha de fora, ao ver que o lateral brasileiro decidiu um título, pode acreditar que o feito do inglês é bem mais discreto. Mas esta é a falsa impressão de quem não vive o clube, de quem não é torcedor e, portanto, não é capaz de avaliar com justiça verdadeira os feitos destes atletas.

Dito tudo isso, voltemos aos anos 90, quando a Premier League caminhava para ser uma das mais ricas, se não a mais rica, das ligas europeias, mas que ainda possuía muitas das reminiscências do futebol tipicamente inglês. Foi nesse contexto que Glass começou no futebol.

Cria do Crystal Palace, ele esteve na final FA Youth Cup de 92, quando seu time foi superado pelo Manchester United de Giggs, Beckham, Butt e Neville (6×3 no agregado). Sem chances no elenco profissional, Jimmy chegou a fazer um bico como segurança de Andre Agassi em Wimbledon nesse mesmo ano. Depois disso, rodou pelo país, sendo sucessivamente emprestado para clubes alternativos. Em seus momentos finais no Crystal Palace, presenciou na arquibancada a famosa voadora de Cantona em um torcedor.

O primeiro fato digno de nota na carreira do jovem goleiro foi um gol contra na final da Football League Trophy, o torneio que reúne os times da 3ª e 4ª divisões. A falha de Glass foi determinante para a derrota de seu time, o Burnermouth, por 2×1 ante o Grimsby Town, que se sagrou campeão da edição 97-98. Ssó para constar, nesta temporada o Burnermouth é o líder da 2ª Divisão e caminha a passos largos para um inédito acesso para a Premier League, enquanto o Grimsby Town está na zona de play-offs de acesso na 5ª Divisão.

Marcar um gol contra em uma final não é o melhor jeito de chamar a atenção para si. Ainda assim, a passagem no Burnermouth foi a mais consistente da carreira de Glass, com quase 100 partidas disputadas. Após a final, o atleta foi negociado com o Swindon Town para a temporada seguinte e também não conseguiu se firmar. Por conta disso, foi emprestado para o Carlisle United. Até aquele momento, o goleiro de 26 anos havia atuado em 8 clubes, sendo que foi parar em 5 por empréstimo.

No Carlisle, seguiu a tendência da carreira: não se firmou e disputou apenas 3 partidas. No entanto, foi em seu último jogo pelo clube que o goleiro entrou para o panteão de heróis dos torcedores.

O Carlisle precisava vencer o visitante Plymouth (que naquele momento já não queria nada com nada) para se manter na Football League, na qual o clube esteve por mais de 71 anos. Nesta briga, outro envolvido era o Scarborough, que recebia em casa o Peterborough (que, assim como o Plymouth, não brigava por rigorosamente nada). Caso o Carlisle não vencesse, bastava um empate do Scarborough para que este se mantivesse na liga. Era 8 de maio de 1999, a última chance para esses dois times, que brigavam pela única vaga para as divisões semiprofissionais.

Um adendo interessante sobre a competição: naquela edição, o Cardiff conseguiu o acesso para a 3ª, o Swansea caiu nos play-offs para Scunthorpe e o Hull City não foi rebaixado por 4 pontos.

Voltemos ao tópico principal. Percebe-se que a situação do Carlisle não era nada agradável, e tanto jogadores quanto torcedores estavam mais do que tensos. Talvez essa tensão tenha ajudado, pois o time da casa começou melhor, metendo bola na trave, tendo gol anulado e sufocando o adversário. Apesar do início promissor, à medida em que o tempo passava e o gol não vinha, o nervosismo aumentava. O nervosismo se tornou aflição quando, em um contra-ataque, o Plymouth marcou, aos 49 minutos, com Phillips, que se desvencilhou de dois defensores antes de chutar forte, rasteiro, no canto, não dando chance alguma para Glass.

Deste momento em diante, a partida ficou ainda mais tensa, e não tardaram a acontecer cenas lamentáveis, permitidas pelo homem do apito, que não expulsou ninguém. A agonia foi atenuada com o gol de empate, ou melhor, com o golaço de empate, convertido por Brightwell, aos 62, em chute de primeira com a perna esquerda. Mas o efeito animador do gol não durou muito, e o desespero começava a se espalhar entre os torcedores do Carlisle.

No último minuto, o time da casa conseguiu um escanteio, e Glass saiu correndo de sua área para a meta adversária. Era bem pouco provável que alguém no estádio soubesse quem ele era, mas isso não importava muito. Tratava-se do último lance do jogo e um homem a mais lá dentro poderia ajudar. Por outro lado, se o Plymouth engatasse um contra-ataque e fizesse 2×1, tanto pior.

Foi um lance rápido, nada bonito ou inteligente, mas muito intenso – dos mais intensos da história do futebol. A bola foi alçada por Anthony, e Dobie cabeceou forte no meio do gol. O goleiro adversário espalmou como pôde, mas é fato que espalmar para o meio da área é muito arriscado, ainda mais com todos os zagueiros olhando somente para a bola. A bem da verdade, todos os presentes no estádio, tanto dentro quanto fora das quatro linhas, olhavam somente para a bola. Glass, que estava na área, também só tinha olhos para ela, e acabou em um lugar na pequena área em que os dois, bola e goleiro, estavam sós.
Quando todos se deram conta disso, era tarde demais: o goleiro artilheiro, com uma categoria rara, chutou a bola com decisão, e ela foi parar dentro das redes.

O resultado disso foi uma catarse coletiva. Os atletas do Plymouth estavam atônitos, sem acreditar no que viam; Glass era abraçado por todos os companheiros e até por parte da torcida. Ah, sim, houve uma invasão de campo após o gol. Ninguém conseguiu se conter, e a festa foi linda. O próprio juiz reconheceu isso, não com palavras, mas encerrando o jogo, já que dar tempo para que qualquer outra coisa acontecesse só estragaria tudo.

Como em toda epopeia, há o lado vencedor e o lado perdedor. O jogo do Scarborough terminou pouco antes da partida em questão, e o time tinha arrancado o 1×1. Os torcedores já estavam comemorando a permanência na Football League quando chegou a notícia do gol do Carlisle, e o que antes era felicidade tornou-se desolação. Não ajudou em nada o fato do gol letal ter sido marcado por um goleiro que ninguém sabia direito quem era e nem de onde vinha.

Carlisle tinha um herói, e a Inglaterra tinha uma manchete. Jimmy Glass era reconhecido por praticamente todos os moradores da cidade, e deve ter dado mais entrevistas que Beckham nos dias que se seguiram. Todos acreditavam que a carreira dele iria deslanchar, afinal, além de bom goleiro, já tinha todo um folclore por trás de si. Mas todos sabiam que ele desejava ficar em Carlisle, onde tinha sido consagrado. A diretoria do clube também o queria, mas houve um impasse: dinheiro. O atleta pediu um novo contrato, em que ganhasse um pouco mais, e a diretoria o queria pelo mesmo salário. Não houve acordo, e o goleiro voltou para o Swindon, colocando sua carreira em situação um pouco melhor que antes de seu gol heroico.

Em 2001, aos 27 anos, Jimmy Glass resolveu parar de jogar. Acabou estabelecendo um negócio próprio, uma empresa de táxis em Dorset, que fica no sul da Inglaterra, bem longe de Carlisle, na fronteira com a Escócia. Desde então, tem tido uma vida tranquila, aproveitando seu status de herói por um dia e ídolo do futebol alternativo inglês. Especiais sobre seu gol pululam em praticamente todo 08 de maio, e, em 2013, a camisa que Glass usou em seu jogo glorioso foi parar no Museu Nacional do Futebol, em Manchester, em celebração aos 125 da invenção do futebol. Ele também doou para o museu as chuteiras que usou na partida.

Certa feita, um jornalista disse que Glass não era lendário, mas seu feito sim. Discordamos. Os heróis por um dia, especialmente os que se tornam heróis de maneira inesperada, são os mais genuínos, pois são pessoas comuns. A identificação com eles é bem mais forte. É fato que os torcedores/moradores de Carlisle também discordam do tal jornalista. Ora, se os principais beneficiados pelo ato consideram Glass uma lenda, por que não nos juntar a eles?

Comentários

Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.