A jornada do AFC Bournemouth à terra prometida

  • por Gregor Vasconcelos
  • 5 Anos atrás

Quando os jogadores do Bournemouth entraram em campo no The Valley, para a ultima partida da temporada do Championship, a torcida visitante já comemorava na Jimmy Seed Stand.

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Uma chuva de balões vermelhos e pretos invadiram o campo, assim como bolas de praia. Tirando um desastre, o Bournemouth já era da Premier League. A maratona já havia sido ganha, esse jogo era apenas a volta olímpica.

O clima de comemoração era evidente desde a caminhada até o estádio. Torcedores visitantes, como é tradição em final de temporada na Inglaterra, iam fantasiados. Os vendedores de rua todos vendiam cachecóis vermelhos e pretos com os dizeres “We are going up!” e “We are Premier League”, focando no dia especial para os Cherries, que alcançavam a terra prometida da Premier League pela primeira vez em sua história.

Das Cinzas renasce uma fênix

Bournemouth sempre foi mais conhecida na Inglaterra por ser uma pequena cidade praiana no sudeste do país, com pouco mais de 180.000 habitantes. Um lugar ideal para se passar o fim de semana longe do stress de uma cidade grande.

Futebolisticamente falando, o título mais relevante do AFC Bournemouth havia sido a terceira divisão em 1987. Nesse contexto, a ascensão da equipe, que possui um estádio com apenas 12.000 lugares, já seria impressionante, mas isso tiraria grande parte do crédito que o técnico Eddie Howe merece por levar o clube à Premier League.

Na era moderna, o clube só havia chamado atenção sete anos atrás, quando lutava contra a própria extinção. Os Cherries começaram a temporada na vice-lanterna, com -17 pontos, à frente apenas do Luton, que começara com -30.

Em dezembro, ainda na zona, sem muita chance de escapar, o treinador Jimmy Quinn não aguentou e foi demitido. Foi aí que brilhou a estrela de Howe.

O jovem técnico, com apenas 31 na época, que havia jogado 271 partidas oficiais pelo Bournemouth, conseguiu milagrosamente, manter o clube da Football League. Na temporada seguinte, mesmo com um embargo para transferências, ele levou o clube de volta a League One.

Em Janeiro de 2011, Howe foi embora, rumo ao Burnley, onde ele ficou apenas nove infelizes meses.

Quando voltou ao Bournemouth em Outubro, sua equipe se encontrava na zona de rebaixamento, na 21ª posição. Ao final da temporada, eles comemoravam a subida ao Championship.

A Supremacia Bournemouth

A temporada 2014-15 do Championship foi marcada por grandes reviravoltas. Um exemplo foi a queda repentina do Derby County, que ficou fora dos playoffs mesmo tendo sido líder durante fevereiro.

A única constante foi a equipe de Howe, sempre presente na zona do acesso. Em fevereiro, houve uma balançada. Todos esperavam que o Bornemouth fosse implodir, mas a equipe voltou ainda mais forte.

“Tem sido uma jornada incrível. Não parece real,” disse o técnico na segunda, após a vitória por 3×0 contra o Bolton, que garantiu a Premier League.

“O clube estava de joelhos há seis anos. Os funcionários não eram pagos, toda hora alguém era demitido. Mas um grupo de torcedores botou as mãos nos bolsos, salvou o clube e agora está vendo seu sacrifício recompensado.”

Existem aqueles que querem tirar o crédito do conto de fadas dos Cherries pelo clube ser propriedade de um milionário russo. Mas, mesmo assim, o jogador mais caro do elenco é o atacante Callum Wilson, que custou £3M. O Bornemouth também tem uma das folhas salariais mais baixas do Championship.

A equipe de Howe não é formada por grandes estrelas e sim por uma filosofia de um jogo de equipe. Mesmo se perderem alguns de seus principais destaques, como Matt Ritchie e Harry Arter, qualquer um que entrar será capaz de manter o nível. A conexão entre os 11 em campo parece telepática.

O Bournemouth se caracteriza primeiramente por ser uma equipe técnica – seus 98 gols no Championship são a segunda melhor marca nas quatro divisões profissionais da Inglaterra –, mas também por um espirito tradicional inglês. Seis jogadores da equipe titular vieram da Non-League, tiveram que brigar muito para chegar aonde chegaram.

Com a Premier League, muitos temiam que o clube fosse perder sua identidade, mas Howe garantiu que esse não será o caso.

“Não vamos sair jogando dinheiro pra cima de jogadores, o clube não tem condições pra isso,” disse Howe.

“Vamos ter que ser criativos com a nossa estratégia de mercado. Mas foi assim que sempre operamos. A única coisa que muda é que agora somos um destino mais atraente para alguns jogadores.”

O fim do conto de fadas?

O resultado pouco importava no The Valley, a festa já estava garantida. Nem por isso o Bournemouth relaxou. Com 12 minutos, Ritchie e Arter já haviam despachado o Charlton. Ritchie ainda marcou mais um a cinco minutos do fim para confirmar a enfática vitória.

A cada gol, torcedores do Bournemouth se levantavam, não só no canto destinado aos visitantes. Eram muitos infiltrados na torcida do Charlton que não conseguiam conter suas emoções.

Mas nada se comparou a quando o Sheffield Wednesday arrancou um empate do Charlton nos acréscimos em Vicarage Road. O Bournemouth não iria apenas subir, como seria campeão do Championship.

“Campeones! Campeones! Ole, ole, ole!” cantavam os torcedores que mesmo passando a temporada inteira nessa posição, não pareciam acreditar no que viam.

O Bournemouth agora tem três meses para aproveitar o final perfeito para seu conto de fadas, mas é impossível imaginar que um técnico ambicioso como Howe esteja aproveitando seu final feliz.

Enquanto ele, votado por seus companheiros de profissão como o melhor técnico da decada da Football League, desfilava com o troféu  pela orla da cidade, Howe já pensava no futuro.

Para ele, o conto de fadas não acaba aqui, só quando todos olharem para o Bournemouth e verem uma equipe consolidada na Premier League por anos. Só aí que ele dirá que devolveu ao clube de seu coração tudo o que Bournemouth já fez por ele.

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Torcedor fanatico do Arsenal e do Flamengo, Gregor é fã de longa data da Premier League, acompanhando a liga avidamente há 10 temporadas. Formado em linguística inglesa pela universidade King's College em Londres, agora faz mestrado em linguistica e literatura na universidade de Zurich. Colunista da extinta revista "Doentes por Futebol", hoje é o editor de futebol inglês no site.